A complexa missão do NOVO

Em termos de esfera pública, o portador de más notícias costuma quase sempre ser confundido com o responsável por ter deixado o cenário ruim. Não se pode descartar a possibilidade de realmente o porta-voz ter participado da deterioração que anuncia, mas é de costume que acabe ficando com toda a culpa.

Caso eleito em MG, Romeu Zema pode causar uma virada de mesa ou entrar para o time dos que avisam da péssima situação e passam a ser culpados por ela.

Dois casos práticos ajudam a ilustrar essa questão.

Michel Temer assumiu a presidência interinamente em maio de 2016 e de maneira direta no último dia de agosto do mesmo ano. Esteve ao lado de Dilma Rousseff antes disso e, portanto, não pode dizer que não sabia da situação complicada.

Entretanto, logo ao entrar, em vez de seguir com a estratégia até então vigente de fazer previsões que não se cumpririam em termos econômicos (dizer que o déficit era menor, que os juros deviam ser menores, que a inflação chegaria na meta mas nunca chegava), passou a adotar o realismo fiscal como meio. Resultado? “Esse Temer aí que acabou com o país, vejam só quantas más notícias ele tem trazido”.

Marco Antônio Zago recebeu o bastão de João Grandino Rodas como reitor da USP em 2015. Durante a gestão de Rodas, aumentos salariais expressivos foram concedidos e desembolsos (inclusive internacionais) foram executados. Não houve greve (o que é surpreendente em se tratando de uma universidade que em todos os anos tradicionalmente o faz). Ao entrar, Zago alertou: nossos gastos estão acima do que nosso orçamento permite (apenas com pessoal já superava 100% dele). Resultado? A maior greve da história da USP ocorreu em 2015, já que “o Zago destruiu a USP”.

Nos dois exemplos acima temos que, mesmo sendo o mensageiro não responsável inteiramente pela questão, ele tem muito a ver com ela e também acaba sendo culpado. Michel Temer foi vice de Dilma Rousseff, Marco Antonio Zago era da equipe que ajudava João Grandino Rodas a gerir a USP. Como diria uma máxima: são culpados, mas não responsáveis.


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Em relação a Romeu Zema, a missão complexa então é a seguinte: mostrar que o estado de MG tem atualmente muitas dificuldades em suas contas públicas sem permitir que ele se torne, subitamente, o culpado de toda a situação. No caso, parece mais fácil porque ele realmente não fez parte nenhuma dos governos que levaram a tal situação.

Porém, este diferencial de saber apresentar ao povo do estado essa questão de maneira a gerar um efeito positivo - um real “vamos fazer cortes, mas é para que todos saiam beneficiados” - pode ser a diferença entre um primeiro governo do Partido NOVO que marca positivamente e um retorno ao triste “esse partido aí é igual aos outros, não muda nada”.

A importância de, caso eleito, Zema conseguir fazer esse diálogo propositivo para melhoria da situação de MG, é dupla. Primeiramente, ao Partido NOVO, que pode apresentar-se como uma real novidade se conseguir levar esse discurso às vias de fato e deixar MG como um exemplo de que o diálogo é possível mesmo quando as notícias não são boas e envolvem restrições.

Em segundo lugar, àqueles que nunca ocuparam cargos públicos mas têm vontade, abre-se a esperança de que não será o raso “estou anunciando a má situação e me confundirão como gerador de tudo isso” - o que pode contribuir bastante com uma renovação da política ainda maior nos próximos anos.

As pesquisas eleitorais mais recentes indicam que Romeu Zema será eleito no segundo turno como governador de MG. Pode ser que não aconteça, mas caso acontecer, junto disso nos próximos anos podem ocorrer mudanças que, como dizem os economistas, gerarão uma cascata de externalidades sociais positivas dentro da política nacional.

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Sobre Caio Augusto 74 Artigos
Formado em Economia Empresarial e Controladoria pela Universidade de São Paulo (na maravilhosa FEA-RP), é apaixonado por discutir economia/política e acredita que é possível discorrer sobre tais assuntos de maneira descontraída - o que talvez tenha origem em sua vontade, desde os 12 anos de idade, de ser economista e de pesquisar sobre assuntos afins assiduamente desde a crise econômica mundial de 2008. Atualmente trabalha como gestor financeiro em uma empresa de pequeno porte do interior de São Paulo, acumula recursos para projetos futuros, escreve para o Terraço Econômico e arquiva suas publicações em seu blog pessoal, o Questão de Incentivos. Sonha em deixar algum legado para a discussão econômica e adora o campo das políticas públicas.