2019: o ano em que “mudar isso daí” vira realidade (ou não)

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Após um período eleitoral sui generis, com direito a atentado, campanha sendo levada basicamente por redes sociais e ausência de debates no segundo turno, chegamos ao Presidente Bolsonaro, eleito com pouco menos de 58 milhões votos. A esperança de muitos, desconfiança de outros mais, a partir de primeiro de janeiro de 2019, presidência de todos.

Liderado pelo sentimento de mudança (e pelo antipetismo), Jair Bolsonaro conseguiu o impressionante feito de, sem um grande partido, sem tempo de TV, sem recursos enormes do fundo partidário, sem ter feito campanha ativa e sem ter anunciado um plano com profundidade, conseguir ser eleito presidente do Brasil.

Agora a questão não se dá mais sobre quem deveria ocupar o cargo mais alto do executivo e os porquês disso, mas sim sobre o que aquele que irá ocupá-lo fará em termos práticos.

A empolgação no curto prazo é notável: bolsa de valores superando recordes nominais, investimentos que aguardavam desde meados de 2014 começam a ser anunciados, expectativa de juros começa a diminuir na ponta futura. Tal animação advém do fato de que o PT, cujo plano era economicamente destrutivo (um verdadeiro emulador do primeiro mandato de Dilma, o que poderia ser chamado facilmente de Plano “Agora Vai”), não ter vencido o pleito. Isso já basta para o mercado respirar aliviado.

Esquece-se (seletivamente, talvez) que o plano elaborado pela equipe de Bolsonaro não é de uma riqueza de detalhes que chame a atenção. Não que isso seja novidade, já que a maioria dos programas de governo dos treze candidatos era razoavelmente vaga. Mas, de novo, para não nos perdermos: aqui falamos daquele que ganhou, que irá assumir o posto no primeiro dia de 2019.

Uma das expressões mais ditas - e até imitadas - do presidente eleito é “tem que mudar isso daí”. Tal fala enche de esperança muitos dos que decidiram depositar sua confiança por meio do voto nele. Se pararmos para pensar, realmente o Brasil tem muitas coisas que poderiam ser alteradas para que fosse possível termos vidas melhores: a burocracia poderia ser menor, o peso e a interferência do Estado, o retorno de nossos impostos poderia ser mais perceptível, a violência poderia ser muito menor, a educação melhor, etc. Nisso, estou de acordo com o Bolsonaro. Porém, o que será que significa em termos práticos esse “mudar isso daí?”.

O país vive uma grave crise fiscal que já dura mais da metade desta década. Se isso for mantido, a corda orçamentária logo arrebentará. Isso não é novidade para quem acompanha a economia brasileira e o drama de quem, como já ocorre em estados como MG, RJ ou RS, nos quais os servidores recebem até o salário parcelado porque não há recurso suficiente para o tamanho dos gastos. Este parece ser um dos pontos principais de mudança que devem ser enfrentados, uma vez que, com o orçamento público apertado, o poder de atuação do Estado acaba também se limitando - no caso, o orçamento está cada vez mais direcionado ao pagamento de aposentadorias e menos a todas as outras áreas.

Sim, ainda há muito a se anunciar e a transição entre Temer e Bolsonaro ainda precisa avançar bastante para que o plano de mudanças possa ser enfim encaminhado para a realidade. Porém, com anúncios hoje muito mais focados no objetivo do que nos aspectos que práticos de como isso ocorreria (como esse, de Paulo Guedes, afirmando que o Brasil sairá do déficit fiscal em apenas um ano, o que parece improvável), é preciso que se mantenha os pés no chão quando tratamos do futuro do país.

Não, não está tudo resolvido só porque o PT não foi eleito. A situação é muito complicada e demanda esforços reais muito maiores do que os empenhados em discursos inflamados e frases feitas. O corporativismo brasileiro (empresarial e político) ainda é forte demais para que pensemos que o liberalismo econômico terá passagem livre.

E, por mais que alguns possam discordar veementemente, há sim uma chance real de que “mudar isso daí” seja mais uma das soluções fáceis, rápidas e quase sempre ineficientes que o brasileiro tanto ama declarar apoio.

Acompanhemos os próximos capítulos, mas tenhamos certeza de que o ano que vem será um belo indicativo de tudo que ocorrerá nos próximos quatro anos - se será mais do mesmo (o que resultará em grande decepção) ou se veremos mudanças positivas que impactarão as próximas gerações, como todos nós esperamos.

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Caio Augusto
Formado em Economia Empresarial e Controladoria pela Universidade de São Paulo (na maravilhosa FEA-RP), é apaixonado por discutir economia/política e acredita que é possível discorrer sobre tais assuntos de maneira descontraída - o que talvez tenha origem em sua vontade, desde os 12 anos de idade, de ser economista e de pesquisar sobre assuntos afins assiduamente desde a crise econômica mundial de 2008. Atualmente trabalha como gestor financeiro em uma empresa de pequeno porte do interior de São Paulo, acumula recursos para projetos futuros, escreve para o Terraço Econômico e arquiva suas publicações em seu blog pessoal, o Questão de Incentivos. Sonha em deixar algum legado para a discussão econômica e adora o campo das políticas públicas.