A "bomba" que não era bomba: mais um caso de sensacionalismo da Empiricus

O Fim do Brasil. O Novo Brasil. O que vem aí se o Temer sair. Você, leitor, já viu diversos títulos sensacionalistas que levavam a cartas imensas e cheias de informações não correlacionadas, indicando, ao final, que a “resposta para isso” estava em assinar um relatório mensal da Empiricus.

Mas dessa vez a questão é mais ampla e não resistimos, tivemos de dar uma resposta: a suposta explosão de uma “bomba” financeira deixada pela ex-presidente Dilma Rousseff.

https://sl.empiricus.com.br/fn25-denuncia/?xpromo=XE-ME-AV-FN25-SUBAV-20180420-EMAIL-X-X&utm_medium=cpc&utm_source=advfn&utm_campaign=cons-vd-fn25

Em se tratando dos diversos esqueletos esquecidos do governo de Dilma Rousseff, mesmo após dois anos de seu afastamento, seria tolo imaginar que algo de impacto tão grave - e gerado necessariamente por algum equívoco dela diretamente - tenha ficado esquecido ou no limbo curioso do que “a mídia não quer mostrar”. A equipe econômica que entrou logo com sua saída analisa as questões que envolvem despesas e receitas do governo com afinco e, certamente, dez bilhões de reais não passariam despercebidos.

Vamos ao caso. Qual seria a “armadilha covarde - nos termos do comunicado - para a Nação” que Dilma Rousseff nos preparou em maio de 2012? Seria uma grande dívida com alguma “nação amiga” travestida de empréstimo do BNDES? Ou então algum acordo com os bancos de que alguns tipos de investimentos passariam a ter uma tributação imensa e excessiva que inviabilizaria tudo que você guardou durante a vida inteira? Não. A bomba é essa aqui:

E afinal, a que se refere esta bomba? A alteração da remuneração da poupança, de 2012. Antes desta Medida Provisória, a Poupança tinha o rendimento de Taxa Referencial (T.R.) adicionada a 0,5% ao mês. Após esta mudança, para o caso da taxa Selic estar abaixo de 8,5% ao ano, a remuneração da poupança passa a ser de 70% desta taxa. Atualmente, nossa taxa de juros está abaixo deste patamar.

Colocar a culpa em Dilma é baseada no fato da alteração ter sido feita por meio de uma Medida Provisória - e portanto assinada por ela - mas foi pensada pelo Ministério da Fazenda, encabeçada à época por Guido Mantega. Então, a tal “bomba” nada mais é do que o fato publicamente conhecido que a poupança está rendendo menos do que o costume porque a taxa de juros caiu. Se esta mudança não tivesse ocorrido, o rendimento da poupança seria hoje, virtualmente falando, superior ao da própria taxa Selic, e a diferença de valor do rendimento anterior da caderneta para a atual seria a "bomba" de R$ 10 bilhões.

Mais calmo? Com a sensação de que você já sabia disso? Nós também, por isso decidimos escrever esta resposta pública a isso. Acreditamos que em nada acrescenta ao debate sobre finanças pessoais (o famoso “o que você pode fazer com o dinheiro que sobra, como pode investir para se salvaguardar no futuro”) fazer alardes e mais alardes sobre situações que não são nem próximas da realidade.

A própria estatística nos ensina isso, com a explicação do que é regressão à média. Podemos ter em alguns momentos desempenhos excepcionais e, em outros, terríveis; mas, ao longo do tempo, o que importa é a média. Quando o assunto é o mercado financeiro e sua imensa possibilidade de investimentos, você pode até acertar (e a Empiricus realmente o fez com seu relatório “O Fim do Brasil” que, apesar de exagerado, descreveu as nuances da péssima situação econômica enfrentada pelo Brasil nos últimos anos), mas não estará sempre certo. É importante lembrar que reputações são construídas durante longos períodos e podem ser destruídas em pequenas atitudes.

Em um mundo de desinformação constante e diversos avisos diários de “isso aqui você não verá em outra grande fonte de informação”, é importante notar que até meios alternativos de discussão político-econômica podem cometer grandes erros.

Retomando 2014: os economistas mais pessimistas previam um crescimento zero para 2015 e gargalhavam das previsões apocalípticas da Empiricus, que outrora acertou e entrou no jogo como grande player da informação. Se o interesse da empresa for o de permanecer nessa instância e não perder a credibilidade perante suas dezenas de milhares de assinantes, precisa focar mais nos conteúdos que apresenta e menos nas “previsões de fim do mundo” que andam divulgando.

Quem acompanha o Terraço Econômico sabe que nós temos nossas críticas com relação ao governo Dilma Rousseff. Mas distorcer fatos e fazer sensacionalismo barato em uma informação que foi amplamente divulgada e de conhecimento público é um desserviço à sociedade.

E com isso não compactuamos, de forma alguma.

Arthur Solow e Caio Augusto
Editores do Terraço Econômico

ATUALIZAÇÃO 1: A própria Empiricus informou hoje que está sendo cobrada para dar uma posição pelo tom utilizado no texto original:

 

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Sobre Caio Augusto 70 Artigos
Formado em Economia Empresarial e Controladoria pela Universidade de São Paulo (na maravilhosa FEA-RP), é apaixonado por discutir economia/política e acredita que é possível discorrer sobre tais assuntos de maneira descontraída - o que talvez tenha origem em sua vontade, desde os 12 anos de idade, de ser economista e de pesquisar sobre assuntos afins assiduamente desde a crise econômica mundial de 2008. Atualmente trabalha como gestor financeiro em uma empresa de pequeno porte do interior de São Paulo, acumula recursos para projetos futuros, escreve para o Terraço Econômico e arquiva suas publicações em seu blog pessoal, o Questão de Incentivos. Sonha em deixar algum legado para a discussão econômica e adora o campo das políticas públicas.

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