A cortina de fumaça: o caso das 'fake news' no Whatsapp

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Bastou a Folha de SP estampar reportagem, na qual acusa empresas de pagarem pelo impulsionamento de conteúdo favorável ao presidenciável Jair Bolsonaro (PSL) no Whatsapp, para que a campanha de Fernando Haddad passasse a tratar a questão como fato político grave e com alto impacto.

Primeiro, porque a prática configuraria recebimento de doação de empresas via caixa 2, o que é crime e poderia ocasionar na cassação da chapa. Além disso, tal impulsionamento seria de fake News, as quais seriam as responsáveis pela boa votação de Bolsonaro no primeiro turno e pela vantagem no segundo turno.

De fato, a denúncia trazida pelo jornal é grave e necessita ser apurada e investigada pelos órgãos competentes para esclarecimento, e possível ação futura na Justiça Eleitoral, talvez até na Criminal.  

Entretanto, apenas a matéria não pode ser lida como um fato consumado e comprovado, sendo necessária cautela. O esforço do PT e seus apoiadores para aumentar a história contada pela Folha deve-se a uma tentativa desesperada de virar uma eleição já praticamente definida em favor de Bolsonaro (PSL).

Há de se destacar a força do candidato Bolsonaro nas redes sociais. Contando com apenas 8 segundos na TV e sem poder fazer campanha de rua após a facada que levou, o candidato baseou toda a sua campanha nas redes sociais, conseguindo manter o núcleo duro de seu eleitorado, ampliando sua votação na reta final de campanha.


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Há quase uma década, Bolsonaro veio construindo essa penetração virtual, através da viralização de vídeos com discursos e opiniões polêmicas suas. Com isso, conseguiu construir grupos de apoiadores espalhados pelo país, que atuam como guerrilheiros virtuais na defesa de Bolsonaro. Os famosos “bolsominions”.

Desta forma, mesmo sem alianças partidárias e tempo na TV, a candidatura de Bolsonaro tinha organicidade, inclusive promovendo grandes atos faltando uma semana para o primeiro turno.

O candidato Bolsonaro conseguiu emplacar a narrativa de que seria uma ruptura com o atual sistema político brasileiro, encarnando não apenas o antipetismo, mas o desejo de mudança presente no eleitorado. Desejo, aliás, captado em detalhada pesquisa Ibope, em março de 2018. Basta observar, na página 11, quais eram as características mais desejadas pela população em relação ao novo Presidente e admitir que Bolsonaro teve sucesso em aproximar de boa parte delas.

Porém, para a campanha de Fernando Haddad (PT), a rejeição ao nome do petista passou a aumentar devido à veiculação de Fake News no Whatsapp e isso teria sido decisivo para o bom desempenho de Bolsonaro.

Mas ainda em agosto, bem antes de Haddad assumir oficialmente a candidatura, o Ibope já detectava uma rejeição altíssima para o candidato apoiado pelo ex-presidente Lula. Natural, então, que à medida em que se tornasse conhecido e identificado como candidato de Lula, Haddad passaria a herdar os votos de eleitores fiéis do ex-presidente, como também passaria a ser rejeitado.

Ao dizer que as fake News são as responsáveis pelos resultados da eleição, a campanha petista trata o eleitorado brasileiro como imbecil, incapaz de raciocinar e buscar outras fontes de informação para checar aquilo que receberam em redes sociais. Preconceito equiparável ao daqueles que creditam as expressivas votações do PT no Nordeste ao programa Bolsa-Família. Outros intelectuais, ao pedirem para o Whatsapp limitar funcionalidades, querem manter a massa popular dirigida por mentes supostamente superiores, que fariam um filtro nas informações.

Não custa lembrar, entretanto, que no debate político brasileiro as Fake News não são novidade, tampouco exclusividade de um grupo político. A esquerda brasileira cria Fake News com sofisticação, ao distorcer dados e criar fatos, sempre expostos por um especialista, que abusa do argumento de autoridade. Pode ser um ex-ministro da Previdência dizendo que a mesma não é deficitária; ou uma ex-auditora da Receita Federal dizendo que os juros da dívida pública consomem metade do orçamento federal ou uma professora universitária renomada dizendo que o juiz Sergio Moro foi treinado no FBI para roubar o pré-sal brasileiro. Ou seja, não há mocinhos quando se trata da disseminação de notícias falsas.

Ao invés de criar uma nova narrativa para justificar a derrota, o PT deveria olhar para o passado e entender o que, de fato, fez o partido perder a eleição presidencial. Admitir os casos graves de corrupção que envolvem seus dirigentes, admitir a péssima gestão econômica no governo Dilma e reconhecer a importância da política econômica responsável do primeiro governo Lula. Também admitir que o impeachment de Dilma Rousseff não foi um golpe, sendo a própria ex-presidente derrotada de maneira humilhante na disputa pelo Senado em Minas Gerais e livrar-se das amarras de Lula, a âncora do PT nas eleições.

Atribuir o sucesso de Bolsonaro às Fake News e ao Whatsapp soa elitista e desconectado da realidade. É o discurso que vai manter o PT e a esquerda em um gueto cada vez menor do eleitorado.

Além disso, há uma gritante hipocrisia no partido protagonista do maior escândalo de caixa 2 já registrado em uma eleição presidencial, em 2014, que por pouco não resultou na cassação da chapa pelo TSE, exigir a impugnação de uma candidatura com base nesse argumento, e (até o momento) sem nenhum lastro em provas. É como se o Neymar ficasse bravo com algum jogador por tentar cavar um pênalti...

Victor Oliveira
Mestrando em Instituições, Organizações e Trabalho (DEP-UFSCar). 

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