A lua, a FIESP e o Brasil

Mesmo em época de Copa do Mundo, a vida não para 100%. A grande maioria lê com mais atenção o caderno de esportes do jornal. Para mim, é inevitável aquela olhadinha rápida no caderno de economia - força do hábito economicista. Para ser mais preciso, no último dia 17 me deparei com um artigo de Benjamin Steinbruch na Folha de São Paulo. Steinbruch é o presidente da CSN (Companhia Siderúrgica Nacional), e vice-presidente da FIESP (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo). Assim, suas opiniões refletem em grande parte os anseios da FIESP. Em seu artigo, foram emitidas opiniões bastantes desapontadoras.

Os homens de frente da FIESP. Paulo Skaff e Benjamin Steinbruch. Fonte: Desconhecida
Os homens de frente da FIESP. Paulo Skaff e Benjamin Steinbruch. Fonte: Desconhecida

O texto de título “Contramão” observa que o índice de produção industrial do IBGE vem mostrando sucessivas quedas. No ano passado, por exemplo, a queda foi de 5,8%. Ele mostra alguns dados do setor automotivo, segundo os quais 5.000 postos de trabalho foram fechados desde do início deste ano. E o valor das exportações caiu em torno 24%.

Ninguém discorda do cenário ruim que os dados citados buscam delinear. O desempenho da nossa indústria, de fato, é bastante preocupante, visto que ela gera enorme dinamismo em toda economia, emprega um número considerável de trabalhadores e gera encadeamentos em diversos setores, ou seja, a indústria atua de forma muito saudável na economia. Por exemplo, a indústria automotiva demanda aço, vidro, plástico, componentes eletrônicos e capital humano especializado, isto é, gera um ciclo virtuoso em toda a economia quando cresce, pois “traz” consigo diversas outras indústrias e aumenta a demanda por mão de obra. Sobre a importância da indústria e das preocupações com o dinamismo desse setor, não existe desacordo algum com a FIESP.

Mas são sobre os motivos dessa piora no cenário industrial que discordo dele; não só eu como diversos economistas de alto calibre, como Samuel Pessoa, Monica de Bolle e Edmar Bacha, já escreveram diversos textos a respeito desse assunto, sendo que os dois últimos escreveram um excelente livro, “O Futuro da Indústria no Brasil: desindustrialização em debate” sobre os problemas da indústria brasileira. Resumidamente, os problemas identificados por eles são de natureza diferentes das apontadas pelo senhor Steinbruch.

Tais problemas podem ser gerados por duas naturezas: a estrutural e a conjuntural. A primeira tem a ver com a estrutura da economia brasileira como infraestrutura, funcionamento das instituições privadas e públicas, nível educacional e tecnológico da nação, entre outras variáveis que impactam o longo prazo. A segunda natureza problemática tem relação com o curto prazo: taxa de juros, oferta de crédito, isenções fiscais e qualquer outra “carta na manga” do governo.

Segundo Steinbruch, o problema da indústria brasileira é conjuntural, e seu título “contramão” é no sentido de que o governo tem adotado políticas que vão contra o bom andamento da indústria. Ele começa argumentando o aumento na taxa básica de juros, a Selic, de 7,25% para 11%. Tal aumento foi feito para conter a inflação, que está bem próxima do teto da meta, mas para Steinbruch o efeito dos juros sobre a inflação foi nulo. Além disso, argumenta que o aumento da taxa de juros trouxe apenas efeitos negativos para a atividade econômica, principalmente a industrial. O que deve ser feito então? Para ele é simples: basta afrouxar novamente a política monetária e baixar outra vez os juros. A elevação da taxa teria aumentado em 33% os custos para capital de giro para indústrias. O autor diz, em seguida, que é preciso coragem política para tal afrouxamento, em ano de disputa eleitoral e contra a vontade do mercado financeiro.

Vamos por partes. Em primeiro lugar, o aumento da taxa de juros demora um certo tempo para surtir efeitos sobre a inflação: é preciso esperar alguns meses, e o próprio Banco Central já afirmou isso repetidas vezes em suas atas e em algumas apresentações feitas por membros de sua diretoria. Em segundo lugar, existe o componente da obstrução dos canais de transmissão de política monetária, devida ao descompasso entre a política fiscal e monetária (ler o texto do Victor Wong, publicado no Terraço Econômico, que já explorou isso). Dessa forma, baixar os juros não parece uma medida muito indicada.

O problema da indústria no Brasil é de outra natureza: não são os juros, não é o custo de capital de giro e muito menos a falta de crédito. Logo, não é um problema conjuntural como argumenta Steinbruch. O problema é estrutural, tendo em vista a complexidade tributária, a dificuldade na formação de capital humano de qualidade, baixo investimento em infraestrutura e necessidade de maior abertura da economia brasileira (tema já debatido aqui no terraço, no texto do João). Tudo isso precisa ser planejado e bem pensado; é um plano de execução lenta, mas com benefícios incríveis ao final. A teoria econômica recomenda e os dados comprovam, diversos países, como Coréia do Sul e Japão, que seguiram a receita de bolo foram bastante felizes com seus crescimentos.

Se queremos ser uma nação com uma indústria pujante e de elevado dinamismo tecnológico precisamos começar a pensar em medidas de longo prazo e com um eficaz planejamento. John Kennedy, ex-presidente americano, disse em 1962 “We choose to go to the moon, we choose to go to the moon in this decade and do the other things, not because they're easy, but because they're hard!” em bom português: Nós escolhemos ir à lua até o final dessa década e fazer outras coisas, não porque elas são fáceis, mas porque elas são difíceis. E de fato eles escolheram, desenvolveram novas tecnologias e instituições de fomento à pesquisa, e chegaram à lua em 1969, antes do final da década, apenas sete anos depois.

Nós precisamos escolher qual é a nossa lua e quando vamos chegar até ela, 2020? 2025? Não sei, é preciso pensar e planejar. E isso envolve todos nós, estudantes, economistas, governos, think thanks e industriais do calibre do senhor Benjamin Steinbruch e dos demais membros de peso da FIESP. É preciso parar de pedir medidas imediatistas, conjunturais de efeito baixo sobre o longo prazo.

Esse mesmo coro de curto prazo foi o que incentivou a FIESP (da qual Steinbruch é vice-presidente) a pressionar para que o governo aprovasse a MP579, que causou um enorme estresse no mercado de energia elétrica. O que foi possível perceber é que a redução das tarifas no final das contas não surtiu efeito desejado, pois a capacidade de geração foi comprometida pela falta de investimentos devido a piora na expectativa das firmas geradoras e pelas chuvas decepcionantes. O que levou a energia no mercado a vista sair da casa dos R$250,00 por MWh, para R$800,00 por MWh. E a indústria é a maior consumidora de energia em termos proporcionais, logo se tornou vítima de seu próprio lobby.

Paulo Skaff e Benjamin Steinbruch, os homens mais poderosos da FIESP
O trio do curto prazo, o Ministro Guido Mantega, o presidente da FIESP Paulo Skaff e o vice presidente Benjamin Steinbruch. Fonte: FIESP

Se fosse possível, gostaria de ouvir do senhor Steinbruch e da FIESP o que almejam para o futuro e não apenas para o agora. Acredito que eles queiram o mesmo que eu, mas o presente não nos deixa muita margem para um futuro promissor.

Victor Candido de Oliveira

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Sobre Victor Candido 48 Artigos
Mestrando em economia pela gloriosa Universidade de Brasília (UnB). Já pesquisou nos campos de economia ecológica, história econômica e política monetária, tem artigos publicados na Folha de São Paulo, Gazeta do Povo, UOL e revista de Economia da Faap. Atualmente é pesquisador assistente do CPDOC (O Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil) da FGV-RJ. Já trabalhou no mercado financeiro na área de operações e pesquisa macroeconômica. Graduou-se em economia pela Universidade Federal de Viçosa (UFV-MG).

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