A política brasileira não muda - nem seus debates

No dia 09/08 ocorreu na Band o primeiro debate presidencial para as eleições deste ano. Apesar de ter contado com caras novas - algumas nem tanto -, esse debate foi bem parecido com os que foram realizados em eleições anteriores. É como um almoço de domingo em família: passam-se os anos e a macarronada talvez ganhe um pouco mais de parmesão com o tempo e o tiozão das piadas acrescenta uma ou outra piada nova em seu repertório. Mas, na média, esses almoços são sempre iguais.

Em um debate, guardadas as devidas proporções da comparação, não temos tantas diferenças de um almoço dominical. Sempre tem aquele candidato que se enrola com o próprio discurso, o que desvia de maneira quilométrica das perguntas, e claro, não podemos esquecer do candidato responsável pelo stand-up comedy.

É preciso mudar as regras dos debates

Talvez a palavra mais repetida nas propostas eleitorais seja “mudança”. “Precisamos mudar!”, “Eu represento a mudança!”, entre outras frases parecidas, que já viraram clichês. Apesar desse apelo, é complicado acreditar, visto que até a forma pela qual os candidatos debatem, parece não ter mudado muito com o tempo.

Grande exemplo disso, são as próprias regras que definem os debates de rádio e televisão, como a de candidatos que estão fora dos debates televisivos. Devido a ausência de congressistas representando a sua sigla partidária, mesmo candidatos com certa expressão em outros meios acabam ficando de fora.


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Apesar da última reforma política ter flexibilizando as regras de participação, ainda se faz necessário que o partido do presidenciável tenha ao menos cinco congressistas para que ele esteja presente. Tal medida pode ser considerada como um avanço - antes era necessário no mínimo nove deputados - e acabou ajudando partidos menores, com pouca representação no Congresso, como a Rede e o PSOL.

Mas esse avanço é limitado, dado que ainda impede a participação de candidatos provenientes de partidos novos que, por estarem estreando, não possuem representação no Congresso. É o caso de João Amoêdo, candidato à presidência pelo partido Novo.

Apesar de ter muitos seguidores nas redes sociais e de sempre aparecer pontuando nas principais pesquisas eleitorais, Amoêdo não participou dos debates da Band e da Rede TV. O motivo apresentado é o de que ele não obedece a lei pós-reforma.

Tal medida restringe a participação de novos candidatos, algo paradoxal em tempos onde se clama por profundas mudanças na forma de se fazer política.

Menos restrições e mais participação popular

Um bom argumento para restringir o número de candidatos, é que muitos candidatos acabariam deixando os debates fracos e sem conteúdo. O grande problema é que mesmo com as restrições, os debates no geral continuam sendo de um nível baixo em termos de apresentação de propostas e conteúdos.

Para contornar essa situação, evitando a superlotação nos debates, uma ideia seria ao mesmo tempo permitir a participação de novos candidatos através de uma consulta popular realizada pelas próprias emissoras, de modo escolhido por elas com foco nessa intenção, algo como “Quais candidatos você gostaria de ver em nosso debate?”.

Uma abertura como essa faria sentido por um motivo prático: provavelmente nem assim João Amoêdo participasse, mas, certamente, um candidato de zero apelo popular antes da participação inicial em debates como Cabo Daciolo, certamente estariam de fora. Pelas regras atuais, entretanto, é justamente o oposto que acontece: Daciolo tem presença confirmada e Amoêdo, mesmo com a presença que o mesmo tem em redes sociais.


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Em um país como o nosso, passar pela televisão faz muita diferença para quem participa de uma eleição - mesmo que esse diferencial pareça estar migrando para as redes sociais, a importância da TV ainda é notável. Um exemplo rápido: você provavelmente teria mais chances de conhecer ou ao menos ter ouvido falar de João Amoêdo do que de Cabo Daciolo antes do debate da Band, ao passo que, logo após ele, passou a saber de quem era o segundo; a presença na televisão importa bastante nas eleições brasileiras.

As ondas da mudança no mar das redes sociais

Mesmo com todas as suas imperfeições -  como o fake news -, as redes sociais, se bem utilizadas, constituem em um mar de oportunidades para melhorar o debate político e permitir que candidatos “fora do páreo” possam se fazer presentes.

Como a criação do abaixo-assinado online, para que Amoêdo possa participar dos debates. O abaixo-assinado já conta com mais de 500 mil assinaturas, o que demonstra que o apoio do candidato e o anseio de que este esteja presente em debates são dois fatores que não devem ser desconsiderados. Assim como o seu direito de também ter espaço para debater as suas ideias no mesmo patamar dos seus adversários, uma vez que o apoio recebido pelos apoiadores independe das coligações políticas que ele está envolvido - depende apenas da proximidade com as ideias ou vontade de conhecer o candidato, o que é bem diferente do cenário na TV, em que os candidatos que mais aparecem ficam mais em evidência apenas em função de terem feito maiores coligações.

Iniciativa semelhante foi feita na eleição para a prefeitura do Rio de Janeiro de 2016. O candidato à prefeitura pelo PSOL, Marcelo Freixo, não podia participar dos debates no primeiro turno. Como alternativa, o candidato começou a fazer lives no momento dos debates. Apesar de não ter vencido a eleição, Freixo que até então era considerado um candidato nanico, chegou a ir para o segundo turno.

Esses são alguns exemplos, de uma nova onda, que tende a modernizar - quase que de maneira compulsória - a forma dos debates. De dar espaço a candidatos, não pelo tamanho da sua bancada, mas pelo impacto das suas ideias.

Essa maior democratização poderia contribuir de maneira positiva com uma renovação de cenários e abertura para novas ideias, do que o sistema atual que, convenhamos, parece ter sido desenhado de modo a não permitir tantas atualizações assim.

Caio Augusto
Editor do Terraço Econômico

Lucas Adriano
Editor do Terraço Econômico

 

 

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Sobre Caio Augusto 71 Artigos
Formado em Economia Empresarial e Controladoria pela Universidade de São Paulo (na maravilhosa FEA-RP), é apaixonado por discutir economia/política e acredita que é possível discorrer sobre tais assuntos de maneira descontraída - o que talvez tenha origem em sua vontade, desde os 12 anos de idade, de ser economista e de pesquisar sobre assuntos afins assiduamente desde a crise econômica mundial de 2008. Atualmente trabalha como gestor financeiro em uma empresa de pequeno porte do interior de São Paulo, acumula recursos para projetos futuros, escreve para o Terraço Econômico e arquiva suas publicações em seu blog pessoal, o Questão de Incentivos. Sonha em deixar algum legado para a discussão econômica e adora o campo das políticas públicas.