Como fazer a USP lucrar R$ 1,2 bilhão ao ano sem precisar vender tudo....

Quando um aluno chega à Fundação Getulio Vargas, Insper ou Fundação Dom Cabral logo percebe que não está em uma universidade qualquer...

Salas mantidas pelo setor privado, uma lista com as empresas doadoras estampadas na parede e um fundo de bolsas mantido por ex-alunos, são alguns dos exemplos que aproximam estas faculdades brasileiras das universidades de ponta como Yale, Harvard, Cambridge e Stanford.

Mas além da Infraestrutura moderna, essas faculdades têm em comum o fato de serem particulares (e põe particular nisso!). Um curso de graduação em uma faculdade desse nível não sai por menos de R$ 2.800 ao mês.

Apesar desse preço exorbitante, engana-se quem acredita que essas faculdades sejam apenas para pessoas ricas. No próprio site de bolsas da FGV é possível ver em letras garrafais: “Em toda a sua história, nenhum aluno deixou de cursar a graduação por motivos financeiros”. Bolsa Material Escolar, Alimentação e Bolsa Transporte estão entre os exemplos de financiamentos.

Além dos financiamentos restituíveis, os quais os alunos devem pagar após um ano de formado, essas universidades oferecem bolsa por mérito não-restituível, para os melhores alunos do vestibular. Para manter a bolsa, no entanto, este aluno deve permanecer entre as melhores da sala. Ou seja, é um sistema totalmente voltado para a meritocracia.

As consequências desse modelo vêm através dos resultados: A FGV foi eleita pela “The New York Times” uma das 100 melhores universidades do mundo que formam os profissionais preferidos na hora de contratar. Já a Fundação Dom Cabral e o Insper estão entre as 50 melhores escolas do mundo em educação executiva, segundo ranking do Financial Times.

Insper 2Sala de aula do Insper em formato auditório. Fonte: Insper

Na contramão da evolução
Do outro lado da balança estão nossas universidades públicas que, embora sempre apresentaram um dos melhores ensinos do país e formaram excelentes alunos, hoje deixam a desejar com a infraestrutura precária. As poucas exceções estão nos cursos que, não por coincidência, recebem investimentos do setor privado, como é o caso da Direito – UERJ e FEA – USP.

Fosse somente a infraestrutura precária, não estaríamos tão mal. Porém, na semana passada a reitoria da USP informou que o déficit orçamentário da universidade está em R$ 90 milhões ao mês. Isso quer dizer que, dos R$ 360 milhões mensais que ela recebe através de repasses do governo (por lei, 5% do ICMS), são gastos R$ 450 milhões.

A dificuldade de gerar receita tem consequências diretas no dia a dia dos alunos. Há menos de um mês a USP deixou de ser a melhor universidade da América Latina e perdeu 20 posições no “top 100” de ranking de reputação universitária. Outra consequência são as frequentes greves. Hoje mesmo está tendo uma, alunos reclamam da infraestrutura, professores reclamam dos salários, todos pedem algum tipo de melhora...

No entanto, pior do que a queda no ranking e as inúmeras greves, é a incapacidade da universidade em aumentar o número de vagas nos cursos. A população cresce, o país cresce, a demanda por engenheiros, médico e advogados cresce, mas as vagas continuam praticamente as mesmas. Com isso, coube às universidades privadas suprir essa falta de oferta por parte das universidades públicas. Não essas universidades que citamos acima, mas aquelas de qualidade duvidosa, que volta e meia o MEC se vê obrigado a fechar por não atenderem as condições mínimas de exigência.

matrículasNúmero de matrículas no ensino superior em milhões de aluno.
Elaboração: Terraço Econômico. Fonte: MEC

Há saída para o problema financeiro
Diante desse cenário de infraestrutura precária e déficit nas contas da universidade, nossos companheiros de blog Economista X listaram 10 alternativas para a USP gerar receita. Vamos, porém, destacar as que acreditamos serem as cinco mais importantes:

Extras 2Fonte: Economista X

Como é possível ver, através de leilões, serviços de consultoria e cursos de especialização a USP conseguiria arrecadar aproximadamente R$ 3,5 bilhões ao ano.

Ainda há a opção das mensalidades
Além das diversas formas de financiamento, a USP pode fazer uso do método tradicional: as mensalidades. Se utilizássemos como base a mensalidade cobrada na FGV, por exemplo, (R$ 2.884) considerando um total de 58 mil alunos totais na graduação dos quais 10% receberiam bolsas por questões socioeconômicas (e não de cor), a USP poderia arrecadar cerca de R$ 1,8 bilhão apenas com mensalidades.

Mensalidade 2Elaboração: Terraço Econômico. Fonte: USP

Esse valor, somado às estimativas acima de R$ 3,5 bilhões, nos dão um total de R$ 5,3 bilhões, ou seja, R$ 1,4 bilhão de superávit nas contas da USP.

Mas a cobrança de mensalidade se justifica?
Visto que a cobrança por mensalidade é uma solução técnica para os problemas financeiros, surge uma pergunta de cunho social. Seria eficiente e justo cobrar a mensalidade dos alunos?

Acreditamos que sim, basicamente por três motivos. Primeiramente, 6 em cada 10 alunos tem condições de pagar a universidade.

Segundo: O sistema de ensino superior brasileiro faz com que estudantes que tiveram acesso ao ensino básico de qualidade, leia-se pago, consigam acessar boas universidades gratuitas. Já, aquela grande maioria que não teve dinheiro para estudar nessas instituições no ensino médio acabam não cursando o ensino superior ou então se matriculam em universidades particulares, muitas vezes de má qualidade.

Ou seja, o ensino superior público, que em teoria deveria diminuir as desigualdades sociais, só as aumenta e esse modelo acaba sendo um instrumento de transferência de renda de pobres para ricos.

O terceiro motivo é que a cobrança de mensalidade aumenta a eficiência da universidade à medida que o aluno passa a ter mais responsabilidade com o curso. Os alunos vão pensar duas vezes antes de se formarem em 7 anos ao invés de 5 e não vão se matricular em cursos que não estão realmente interessados, como é frequente hoje em dia.

Há o mundo que gostaríamos que existisse e o mundo que realmente temos...
Diante desse cenário todo e à medida que o brasileiro cada vez mais vai tomando consciência de que não existe almoço grátis, ele começa a se questionar se esse modelo existente hoje realmente é o melhor.

Acreditamos que não. Apenas com essas mudanças a USP e todas as outras universidades brasileiras vão poder oferecer um ensino de melhor qualidade, uma infraestrutura de ponta e responder a crescente demanda por profissionais no mercado.

O mundo ideal seria aquele que as pessoas tivessem ensino de qualidade, infraestrutura de ponta e tudo isso fosse gratuito. Esse seria o mundo perfeito mas infelizmente ele não existe...

Fast Read

  1. As melhores universidades do mundo são as que oferecem ensino de qualidade e infraestrutura de ponta mas cobram por esse serviço para que ele seja sustentável
  2. Os que possuem condições de pagar as mensalidades devem financiar aqueles que não possuem. E não o contrário como acontece hoje
  3. A USP pode arrecadar R$ 5,3 bilhões por ano: R$ 1,8 bilhão com mensalidades e R$ 3,5 com outras fontes, tornando-se superavitária em R$ 1,2 bilhão ao ano
  4. Não existe o mundo perfeito com ensino de qualidade, infraestrutura de ponta a um custo zero

Leonardo de Siqueira Lima
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Comentários

Sobre Leonardo Siqueira 53 Artigos
Exilado em Barcelona - Espanha Saído das camadas baixas da população brasileira, com muito esforço (e uma dívida imensa) conseguiu se formar na tão sonhada Escola de Economia de São Paulo da FGV. Não satisfeito com sua dívida da FGV resolveu fazer mais uma para cursar o Mestrado em Economia na Barcelona Graduate School of Economics, e fez o maior crowdfunding de educação da história do país. Nos tempos vagos tem o estranho hábito de assistir discursos de políticos como Collor, Barack Obama, John Kennedy e também do pastor Silas Malafaia, pois segundo ele, “esses caras vendem areia na praia”. O máximo que conseguiu com essas técnicas de persuasão, entretanto, foi uma cobertura extra no McDonald's. No ensino médio foi monitor de matemática e entrou pra história como primeiro monitor a ficar de “recuperação” com o restante da sala, mostrando desde cedo seu espírito de equipe. Tirando esses percalços da vida, possui diversos artigos nos principais veículos como: Valor Econômico, Folha de São Paulo, G1, UOL etc.

29 Comentário

  1. Faço mais uma sugestão: fechar os cursos que não agregam valor e ainda servem como pólo de doutrinação marxista: filosofia, história, sociologia, etc.

    • A USP nao tem um curso de sociologia - este faz parte do curso de Ciencias Sociais, que, diga-se de passagem, é a formação do nosso ex-presidente FHC.

    • Discordo totalmente. Sou bacharel em ciências sociais, com especialização em pesquisa e análise de mercado, com pós-graduação e mestrado em Administração de Empresas. Tenho vários amigos bachareis em história, filosofia que são professores, administradores de empresas e que executam brilhantemente as suas funções. Outro exemplo, o presidente do Bradesco é bacharel em filosofia pela USP. O problema está na estrutura educacional que começa na educação básica de baixa qualidade. Você vai me desculpar, vejo um certo preconceito na sua maneira de ver o problema.
      Cleómenes E. Gonçalves

  2. Atenção: a imagem postada acima não é de uma sala de aula do Insper, mas de uma sala de aula do Aldrich Hall da Harvard Business School. Mais cuidado com a fonte!

    • Bom dia Mahat Mahes, você tem razão. Fomos traídos pelo search do images rs.
      Mas agora está correto, e o interessante aqui é que praticamente não há diferença nas fotos...
      Grande Abraço, obrigado por acompanhar o blog.

      • Por que, quando se discute sobre universidade no Brasil, só se menciona os EUA? Por que não olhar para o sistema alemão, por exemplo, em que as universidades são públicas e gratuitas e de altíssima qualidade, sem custo exorbitante? Há um outro lado a se considerar. O texto, com respeito que tenho pelo ponto de vista, encara a universidade apenas como uma escola, com a função de formar profissionais. Ignora-se a pesquisa científica que se faz nela. As universidades públicas respondem por algo em torno de 80% da pesquisa e inovação feita no Brasil, sendo que a USP sozinha, salvo engano, por 25%. Acho a discussão sobre cobrança de mensalidade um erro, especialmente no contexto atual em que a Universidade é mal administrada e pouquíssimo transparente. Além do que, ignora-se completamente a Constituição Federal, em seu artigo 206, inciso IV. Ou o autor não o conhece, ou acredita que se pode colocar a Constituição entre parênteses. Não se pode esquecer ainda que, poucos anos atrás, logo antes da gestão do ex-reitor Grandino Rodas, que foi meu professor na faculdade de Direito e por quem tenho apreço, a USP acumulou significativos superávits. Respeito a opinião do autor do texto, porém encarar a USP ou qualquer outra instituição de ensino superior como uma simples escola de formação, e desconsiderar variáveis fundamentais (como a ordem constitucional) ao propor "soluções" é bater na tecla do reducionismo. O que se precisa discutir a fundo é a qualidade da gestão das universidades (e da Administração Pública como um todo) e não a escolha político-social que a sociedade fez em 1988.

    • Desculpe-me, mas você está errado. Como ex-aluna do Insper posso falar de primeira mão que aquela sala de aula é sim da instituição. Não posso afirmar com absoluta certeza, até porque a maioria das salas são neste molde, mas me parece a maior delas, financiada pelo Jorge Paulo Leman.
      De qualquer forma, você está correto ao compara-la com as salas de Harvard, uma vez que estas serviram de exemplo para a construção das salas do Insper

  3. Eu acho que o melhor modelo de sustentabilidade de universidades públicas é aquele onde o ingressante paga de acordo com o que pode pagar. Existe uma faixa com mínimo e máximo e o estudante que obteve sucesso no vestibular deverá se encaixar em algum lugar nesta faixa de acordo com a sua renda ou de sua família.
    Este modelo é amplamente utilizado na Europa, por exemplo.

  4. A USP tem uma receita de RS 3,5 bi por ano e um total de 92.000 alunos (graduação + pós-graduação). Portanto, a USP recebe cerca de R$ 3.200,00 por aluno / mês. Vocês estão sugerindo que ela cobre mais R$ 2.800,00 de cada aluno por mês? O nome disso é insanidade!

    Não encontrei a frase “Em toda a sua história, nenhum aluno deixou de cursar a graduação por motivos financeiros” no site da FGV.

  5. Só discordo - ou não entendi - a questão das mensalidades. Apenas 10% teriam bolsa por questões socioeconômicas? Nesse caso, você retira completamente a meritocracia. Quem, hoje, tem condições de pagar R$ 2800,00/mês em uma mensalidade?

    A USP é de interesse de toda sociedade brasileira. Grande parte dos artigos científicos vem de lá. Penso que a gestão financeira deve ser reestruturada como um todo. Hoje. inclusive, tem uma artigo interessante no Estadão a respeito disso. A USP gastou/gasta acima do que pode. Um exemplo disso foram os ajustes bem acima da inflação.

    • O falecido ex ministro Paulo Renato deixou o minesterio da educação há mais de treze anos. O atual governo não aprimorou nada o nivel da educação. Tanto que, abriram várias universidades federais, pagam bem os professores e não investem em laboratórios, pesquisas e etc.
      A educação neste país é uma piada de mal gosto.

  6. Esses valores são totalmente irreais. Dá até pena de ver.

    Doação de 800 milhões. No Brasil é piada.

    Vocês conhecem o Brasil? Conhecem esses mercados?
    240 milhões de latu sensu, a 1000 por aluno por mês são 240.000 mês-aluno, ou 20.000 alunos mensais. Onde arranjar isso? Em quanto tempo? Com que investimento?

    1,7 bilhões em cursos de curta duração. Em um mercado de 40000 por turma (fechada), são 42.5 mil turmas. Quem vai vender isso, quem vai comprar?

  7. As pessoas aqui acham que educação é mercadoria e não um direito…

    Universidades públicas devem ser gratuitas, de qualidade e POPULARES. Só com gratuidade ativa (com bolsas pagas aos estudantes mais pobres) e uma política agressiva de cotas chegaremos a um ensino público realmente justo.

    Como estudante e trabalhador da USP considero o sistema norte-americano e suas cópias mal feitas nacionais (Insper, etc) como os principais adversários da educação como direito. Não passarão.

  8. Em complemento ao meu comentário anterior. Segundo o argumento colocado: "Não existe o mundo perfeito com ensino de qualidade, infraestrutura de ponta a um custo zero"

    De fato. O custo deve ser repassado às elites por meio de impostos progressivos e alta taxação das grandes fortunas e heranças. Não deve ser repassado aos estudantes: educação não é mercadoria.

    Para que o sistema seja justo, a taxação progressiva das grandes fortunas e das altas rendas deverá arcar com gratuidade ativa (bolsas, moradia e alimentação para todos os estudantes que necessitarem).

    Não há lugar para capitalismo selvagem na universidade pública. Não façam na vida pública o que vocês fazem na privada (perdoem a grosseria, mas é inaceitável tentar acabar com ensino público gratuito para elitizar ainda mais nossas universidades).

  9. A única questão que senti falta, é justamente a mais importante para mim.

    A grosso modo, em 2013 a Estacio teve um custo por aluno, mensal, de R$ 392,00.
    A USP, R$ 7.718,30, também mensal.
    Será que a qualidade da USP é quase 20x melhor que a da Estácio? Seus alunos saem 20x melhor preparados? Para formar um aluno padrão USP é necessário 20x o que é preciso para formar um aluno padrão Estacio?

    Ou este fato é o óbvio indicador de que há um enorme gargalo a ser trabalhado com gestão?
    Simplesmente trabalhar na geração de receitas é dar uma retroescavadeira para quem há muito tempo cava sua própria cova com uma grande pá.

    A cobrança é algo muito válido a se discutir, pois quem disse que universidade pública tem que ser gratuita? Em muitos países desenvolvidos não é. Brasileiro quer tudo com qualidade de país desenvolvido mas não aceita deveres iguais aqueles que vivem nos países mais avançados.

    E tem mais.
    A USP não sofre tanto com o loteamento político, pois tem um déficit de mais de 1 bilhão anual.
    Inverta o cenário para um superávit de igual valor para ver a briga na base aliada para indicar os "jestores".

    Colocar mais dinheiro só vai somar a atual incompetência, diversas mazelas presentes em outras "entidades" públicas.

    Parabéns a todos pelo blog.
    Menos ao Léo Siqueira!
    ; )

    • "Há, no Brasil, uma série de mitos sobre a educação, muitos deles fortemente enraizados e que servem, até mesmo, como base para a tomada de decisões políticas em escala nacional.

      Um desses mitos é quanto ao custo supostamente alto de um estudante em uma instituição pública de ensino superior, quando comparado com valores típicos cobrados por instituições privadas. A conta que dá substância a esse mito corresponde a dividir o orçamento de uma universidade pública pelo número de estudantes. Mas isso é totalmente inadequado.

      Para compararmos duas coisas devemos colocá-las no mesmo pé de igualdade. Para isso, devemos considerar dois aspectos importantes. Primeiro, é necessário ver o que está contemplado nos orçamentos das instituições públicas e privadas para que possamos comparar seus custos.

      Segundo, precisamos saber o investimento por estudante em cada curso, pois instituições privadas concentram seus alunos naquelas áreas onde os investimentos por estudante são menores e, portanto, médias gerais podem esconder informações relevantes.

      Assim, vamos estimar qual o investimento necessário para manter um estudante de graduação em uma universidade pública de qualidade, no caso a USP, considerando os diferentes tipos de cursos.

      Inicialmente, devemos lembrar que boa parte do orçamento da USP corresponde a pagamentos de aposentadorias. Esses gastos têm que ser desconsiderados se queremos analisar os investimentos necessários para sua manutenção e, também, se o objetivo é a comparação com a realidade das instituições privadas, onde essas despesas são feitas pelos órgãos previdenciários.

      Os cálculos foram feitos considerando-se os orçamentos das diferentes unidades, excluídos os pagamentos de aposentadorias. Os investimentos por estudante de graduação e de pós-graduação foram supostos iguais. Parte dos orçamentos das unidades que oferecem uma quantidade significativa de cursos para outras unidades foi transferida para essas últimas na proporção do número de disciplinas oferecidas (entre as unidades estudadas neste trabalho, o Instituto de Matemática e Estatística, IME, e o Instituto de Física, IF, fazem parte desse conjunto). O orçamento do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) foi distribuído pelas várias unidades da área de saúde na proporção do número de disciplinas de cada uma delas.

      Considerou-se que metade dos orçamentos dos hospitais corresponde a atendimento da população e metade a investimentos educacionais. Esta última foi então rateada entre as várias unidades que utilizam os hospitais na proporção do número de disciplinas de cada uma delas.

      As despesas dos órgãos centrais - descontadas as despesas da Editora da USP (Edusp) e metade das despesas da Coordenadoria de Comunicação Social (CCS) -, as despesas correspondentes a "Outras atividades" e metade dos orçamentos dos museus foram distribuídas pelas diferentes unidades na proporção dos respectivos orçamentos.

      Não foram consideradas as despesas com sentenças judiciais. Da mesma forma, não foram considerados os orçamentos das unidades especializadas, uma vez que elas, embora fundamentais para o funcionamento de uma universidade de pesquisa e de alta qualidade educacional, se dedicam a atividades específicas.

      Foram analisados os investimentos por estudante de três grupos diferentes de unidades. Um desses grupos é formado por unidades cujos laboratórios são bastante simples e de fácil manutenção: Instituto de Matemática e Estatística (IME), Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) e Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA).

      O segundo grupo corresponde àquelas que têm laboratórios com equipamentos relativamente complexos: Escola Politécnica (EP), Instituto de Física (IF) e Instituto de Química (IQ).

      O terceiro grupo corresponde a unidades com laboratórios de manutenção complexa e que incluem seres vivos: Faculdade de Medicina (FM), Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) e Faculdade de Odontologia (FO).

      O investimento médio por estudante e por mês das unidades do primeiro grupo foi estimado em R$ 780,00. No caso do segundo grupo, o investimento médio foi de R$ 1.770,00. Para o terceiro grupo, obteve-se R$ 3.300,00.

      Esses investimentos médios são equivalentes às mensalidades de muitas das instituições privadas nos mesmos tipos de curso e mesmo abaixo das mensalidades daquelas consideradas de boa qualidade. Apesar de os valores serem totalmente aceitáveis, devemos considerar que neles estão incluídos os vários serviços prestados por uma universidade pública nas áreas cultural, científica, artística. Se a essas contribuições para a sociedade fossem atribuídos valores monetários a serem descontados do investimento educacional, este último se mostraria ainda menor.

      Se, ao invés de considerarmos os investimentos por estudante, considerássemos os investimentos por jovem formado, o resultado seria ainda mais favorável às públicas, onde as evasões são significativamente menores. Como as instituições públicas podem oferecer cursos de boa qualidade, nas áreas de conhecimento de que a sociedade precisa e nos locais geográficos adequados, os retornos social, econômico e cultural que propiciam são bem maiores do que os das instituições privadas.

      Outros aspectos importantes a favor das instituições públicas incluem as possibilidades de iniciação científica e pósgraduação, as atividades esportivas e culturais, o atendimento à saúde, alimentação e moradia subsidiadas, ótimas bibliotecas, acesso imediato aos docentes, bom ambiente de estudo e atividades culturais complementares.

      Cabe, portanto, a pergunta: por que o Brasil (e em particular o Estado de São Paulo) seguiu tão intensamente o caminho da privatização se ele é mais caro, menos eficiente e não responde adequadamente às necessidades do país?

      Certamente, não por uma impossibilidade econômica da sociedade, que em última instância é quem financia o sistema educacional, seja ele público ou privado. Talvez seja uma consequência da doença que nos assolou - e a muitos outros países -, cujo principal sintoma é a privatização, até mesmo nas áreas de interesse social, qualquer que seja seu custo."
      - Otaviano Helene.

  10. Para alguns ignorantes de plantão gostaria de informar que os cursos que elevam a USP a condição de melhor universidade da América Latina são justamente os que não possuem salas de aulas e auditórios no padrão Insper/FGV. São cursos como Filosofia, História, Geografia, Letras, dentre outros poucos, classificados entre os 50 ou 100 melhores do mundo. Sou contra a cobrança de mensalidade na USP mas a favor de que alunos formados naquela instituição, ainda mais em cursos que exigem altos investimentos em infraestrutura, como medicina por exemplo, prestem serviços voluntários durante algumas horas por semana, por determinado período de tempo. Nada mais justo do que retribuir para a sociedade, em especial às classes menos favorecidas e que percentualmente pagam mais impostos, os altos investimentos na formação desses profissionais.

  11. Por que, quando se discute sobre universidade no Brasil, só se menciona os EUA? Por que não olhar para o sistema alemão, por exemplo, em que as universidades são públicas e gratuitas e de altíssima qualidade, sem custo exorbitante? Há um outro lado a se considerar. O texto, com respeito que tenho pelo ponto de vista, encara a universidade apenas como uma escola, com a função de formar profissionais. Ignora-se a pesquisa científica que se faz nela. As universidades públicas respondem por algo em torno de 80% da pesquisa e inovação feita no Brasil, sendo que a USP sozinha, salvo engano, por 25%. Acho a discussão sobre cobrança de mensalidade um erro, especialmente no contexto atual em que a Universidade é mal administrada e pouquíssimo transparente. Além do que, ignora-se completamente a Constituição Federal, em seu artigo 206, inciso IV. Ou o autor não o conhece, ou acredita que se pode colocar a Constituição entre parênteses. Não se pode esquecer ainda que, poucos anos atrás, logo antes da gestão do ex-reitor Grandino Rodas, que foi meu professor na faculdade de Direito e por quem tenho apreço, a USP acumulou significativos superávits. Respeito a opinião do autor do texto, porém encarar a USP ou qualquer outra instituição de ensino superior como uma simples escola de formação, e desconsiderar variáveis fundamentais (como a ordem constitucional) ao propor “soluções” é bater na tecla do reducionismo. O que se precisa discutir a fundo é a qualidade da gestão das universidades (e da Administração Pública como um todo) e não a escolha político-social que a sociedade fez em 1988.

  12. O modelo americano já está se mostrando falido. Hoje em dia, os jovens pobres ou de classe média passam 10 anos ou mais para quitar as dívidas da faculdade. Ficam morando em repúblicas por esse tempo. Com isso, deixam de formar famílias e o mercado sofre, principalmente o imobiliário.
    Talvez você tenha razão quando diz que 6 em cada 10 jovens têm condições de pagar R$2800/ mês na faculdade, mas defende que apenas 1 em 10 receba bolsa. E os outros 3? Vão engrossar as estatísticas de recém-formandos endividados que não conseguem a independência financeira?

    • Na minha visão, o principal problema da USP e outras universidades públicas é o fato de serem mal administradas. O Fies existe porque é mais barato para o governo pagar uma universidade particular do que abrir uma vaga numa universidade pública.
      Concordo em aumentar a participação de faculdades particulares - desde que os que não tivessem condições fossem protegidos por bolsas, o que é muito maior que apenas 10% -, porque essas faculdades são mais bem administradas.
      Mas, até hoje, essas faculdades não se mostraram relevantes quando o assunto é pesquisa.Pesquisa não dá lucro, é só despesa, por isso somente faculdades públicas ou sem fins lucrativos gastariam com pesquisa. Então, se a ideia é manter a USP como um celeiro de pesquisa, esqueça esse superavit de US$1,2 bilhão.

  13. o autor desse texto parece estar fora da realidade. cobrar mensalidade para cursos da fflch, da geologia, biomédicas, etc? quem é que poderia pagar? e a meritocracia? convenhamos que apesar da super infraestrutura do insper, gv, espm, que é de se invejar, esses institutos selecionam muito mal seus alunos, na base de quem pode pagar. a lista de aprovados roda tando que grande parte do componente meritocratico desaparece. apesar de todos os problemas que a usp tem, a fuvest ainda seleciona os melhores alunos, e nao aqules que podem pagar. sim, uma parte considerável poderia pagar uma mensalidade de 500 reais, mas e aqueles que nao podem abrir mao disso?

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