Contra tudo e contra todos!

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Por Victor Cândido*

Nas últimas semanas o noticiário brasileiro pegou carona nos protestos contra o UBER, o aplicativo que conecta passageiros a motoristas particulares, criando uma espécie de mercado de ”caronas”, a preços mais baixos e com muito mais comodidade que o taxi ao usuário e permite inclusive o pagamento da corrida via dedução no cartão de crédito, mesmo que ele esteja sem o cartão, basta estar cadastrado no sistema.

Claro que os taxistas, os únicos afetados, não deixaram barato e foram às ruas protestar nas principais cidades do país, e conseguiram que o uso do serviço do na cidade de São Paulo fosse suspenso. Os únicos beneficiados na suspensão são o taxista e a prefeitura que lucra com a venda de licenças para táxis. E quem mais perde é o usuário.

O mercado de táxis é complicado e cheio de imperfeições, sendo a principal a barreira à entrada de novos competidores. Para circular na cidade de São Paulo, por exemplo, o condutor precisa desembolsar 40 mil reais em uma licença que é ligada ao veículo e pode ser compartilhada por até dois motoristas.

A tarifa do táxi é rígida e composta por uma bandeirada (parte fixa) mais uma variável por distância e tempo rodado, a bandeirada e a tarifa variável são diferenciadas em horários noturnos, fins de semana e feriados, a famosa bandeira 2. Na hora do pagamento a maioria dos motoristas só aceita dinheiro vivo, poucos aceitam cartão, reclamam do custo das maquininhas. E se você pensa em operar um táxi, calma, existe uma vantagem que é o desconto de quase 30% na compra do carro, o IPI e o ICSM são zero para taxistas. Mas o valor das licenças pode superar esse desconto.

Já no UBER é só ter o carro, se cadastrar e sair pegando os passageiros que o aplicativo lhe envia. Não tem licença, não tem burocracia. A tarifa não é fixa, ela é dinâmica, muda de acordo com a oferta e demanda de carros na cidade. Assim, se você pegar um carro do UBER as 14:00 vai pagar mais barato que um taxi, porque a demanda é menor (ou oferta é maior, como queira). Agora, se você quiser um carro quando estiver saindo da balada, vai pagar mais caro. Existe um ajuste instantâneo no preço, que o mercado já se encarregou de ajustar, com o preço elevado da madrugada, a oferta de UBERs aumentou e o preço, naturalmente, já anda caindo em várias cidades onde o aplicativo é permitido.

E quem regula tudo isso? O próprio usuário, que qualifica os motoristas após a corrida, não tem fiscal de prefeitura, e tudo é instantâneo, bons motoristas são beneficiados com melhores qualificações e os ruins, caso não melhorem, serão alijados do mercado pelo próprio público.

O UBER é só um colateral do que a tecnologia da informação trouxe no sentido de melhor utilização dos recursos e de forma dinâmica. Em uma era de flexibilização do trabalho, uma pessoa que trabalha meio período em um emprego “comum” pode dirigir a outra metade do dia pelo UBER e complementar sua renda.

O aplicativo é uma afronta positiva à regulação do mercado de táxis, do qual a prefeitura não tem o pouco controle da conservação dos veículos e da qualidade do serviço prestado.Logo, o usuário fica refém do sistema. Em dias de chuva os carros regulados não são suficientes para atender a demanda, não existem incentivos para que os taxistas fiquem mais tempo na rua, pois o preço é o mesmo sempre, estático. Não é incomum que existam cartelizações de alguns pontos, onde um grupo de taxistas toma conta e é extremamente difícil pegar passageiros caso o motorista não faça parte da “panelinha”, além de relatos sobre taxistas que recusam corridas por motivos obscuros. Já com o UBER, a cidade toda é um ponto, sem malandragens para operar.

Em uma cidade como São Paulo, onde o serviço de transporte público não responde à altura a demanda da cidade, somente benefícios privados da regulação podem explicar que a prefeitura esteja agindo contra uma solução que, teoricamente, custa zero para ela e melhora o bem-estar da populacao. Pelas taxas, cartéis e dificuldade de operação o taxista deveria repensar sobre o UBER, talvez possa ser até mais lucrativo passar a utilizar o aplicativo.

Se o UBER é o futuro ou não, ninguém sabe. Mas ir contra qualquer mudanca que a própria sociedade se organiza para utilizar melhor os próprios recursos em prol da melhora coletiva, é um retorno ao ludismo, é uma atitude no melhor estilo: Contra tudo e contra todos!

*Victor Candido é economista formado pela Universidade Federal de Viçosa

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Sobre Victor Candido 44 Artigos
Mestrando em economia pela gloriosa Universidade de Brasília (UnB). Já pesquisou nos campos de economia ecológica, história econômica e política monetária, tem artigos publicados na Folha de São Paulo, Gazeta do Povo, UOL e revista de Economia da Faap. Atualmente é pesquisador assistente do CPDOC (O Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil) da FGV-RJ. Já trabalhou no mercado financeiro na área de operações e pesquisa macroeconômica. Graduou-se em economia pela Universidade Federal de Viçosa (UFV-MG).

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