Credibilidade do BC

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Alexandre Tombini, presidente do Banco Central do Brasil. Fonte: Wall Street Journal

O Banco Central divulgou, nessa semana, a ata da última reunião do Copom[1] realizada no dia 2 de abril, em que decidiu aumentar a taxa básica de juros (SELIC) em 25 bps[2]. O tom da ata foi bem dovish[3], mas o mercado já esperava algo parecido após o comunicado junto à decisão[4]. Nas próprias palavras do BC: “O Comitê irá monitorar a evolução do cenário macroeconômico até sua próxima reunião, para então definir os próximos passos na sua estratégia de política monetária.” Historicamente, a expressão “O Comitê irá monitorar” indica alteração no passo ou na direção da política monetária. Ou seja, o BC já mostrava sinais de que quer parar de subir os juros.

Nos detalhes da ata, o BC utilizou dois argumentos para sinalizar que irá interromper o ciclo de alta brevemente: a taxa de câmbio vem se comportando bem e os efeitos da política monetária são cumulativos e defasados, sendo que podem ser potencializados devido ao baixo nível das confianças.

O real, de fato, performou melhor que se esperava no último mês (ver gráfico 1). Isso ocorreu principalmente por três motivos: a continuidade das atuações do BC no mercado de derivativos (sinalizando que não há piso no qual o BC parará de atuar), a queda da presidente Dilma nas pesquisas de opinião (mercados reagiram bem ao fato de a oposição ter maiores chances de ganhar) e os fluxos de capitais para países emergentes (investidores que trouxeram dólares em busca de retornos maiores). O atual patamar de R$/US$ 2,20 - 2,30 faz com que o BC se sinta um pouco mais confortável com a inflação. Mesmo que haja uma nova onda de valorização do dólar devido ao fim dos estímulos monetários nos Estados Unidos, ele dispõe de instrumentos (reservas e derivativos) para conter volatilidades desnecessárias.

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Fonte: Bloomberg

O segundo argumento advém do parágrafo 32 da ata:

32. Para o Copom, considerando-se a experiência brasileira na vigência do regime de metas, infere-se que, de modo geral, as trajetórias de importantes indicadores econômicos durante o atual ciclo de ajuste da taxa Selic, bem como as perspectivas para essas trajetórias nos próximos trimestres, apresentam-se em linha com o que se poderia antecipar. Dessa forma, as informações disponíveis sugerem que os impulsos monetários introduzidos na economia desde abril de 2013 têm se propagado normalmente por intermédio dos principais canais de transmissão e que assim tendem a continuar nos próximos trimestres. Nesse sentido, como os efeitos das ações de política monetária sobre a inflação são cumulativos e se manifestam com defasagens, o Comitê entende que parte significativa da resposta dos preços ao atual ciclo de aperto monetário ainda está por se materializar. Além disso, é plausível afirmar que, na presença de níveis de confiança relativamente modestos, os efeitos das ações de política monetária tendem a ser potencializados.  

Apesar de já ter comunicado em atas passadas que os efeitos da política monetária são cumulativos e defasados, a presença da preocupação com os níveis de confiança na economia mostra um viés muito forte para que não ocorram mais aumentos na taxa de juros. Desde que começou o ciclo de alta em abril de 2013, as confianças, tanto dos empresários quanto dos consumidores, têm diminuído (ver gráfico 2). Isso tem impactos fortes sobre os investimentos e consequentemente sobre a atividade. Diante disso, o peso do baixo crescimento ganhou relevância maior nessa ata.

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Fonte: FGV

A mudança, no entanto, veio em tempo ruim. O índice de inflação ao consumidor (IPCA) de março veio acima das expectativas (0,92% ante 0,84% esperado). Desse modo, as expectativas de inflação não param de subir. Várias instituições financeiras renomeadas atualizaram seus modelos e divulgaram projeções bem altas, algumas estourando o teto da meta de 6,5%.

O BC até divulgou projeções maiores de inflação nos seus últimos documentos. Apesar de admitir que a inflação possa ultrapassar o teto da meta no meio do ano, justifica esse evento por meio de choques dos preços de alimentos causados por secas atípicas. Segundo entrevista do presidente Alexandre Tombini para o jornal Wall Street Journal, esses choques têm efeitos transitórios e se dissiparão até o final do ano, quando a inflação voltará para dentro da banda de 2,5%-6,5% estabelecido pelo regime de metas de inflação[5] brasileiro. O engraçado dessa entrevista foi o comentário do presidente: “Em 2014, nós estaremos abaixo do teto da banda, o que é compatível com o regime de metas de inflação” (traduzido).  E o compromisso do BC com a meta de 4,5%, que o mesmo presidente repetiu inúmeras vezes ano passado?

Caso o BC pare de subir os juros como está indicando, isso será um tremendo erro. Digo isso, pois todo o ganho de credibilidade que ganhou ano passado ao combater a inflação e rompendo mitos como “a Dilma não deixa o BC voltar os juros para dois dígitos” será posto por água abaixo. Mas seria muita ingenuidade descartar essa possibilidade. Em outubro temos nada menos do que eleições presidenciais e, em anos eleitorais, poderes obscuros sempre rondam o BC, fazendo com que tome decisões equivocadas. Coincidência ou não, sempre decisões populistas, ou seja, leniente com a inflação e pró atividade econômica.

Back to Basics
Tentarei aqui explicar alguns conceitos técnicos do mercado financeiro e também detalhar um pouco de eventos econômicos que são relevantes para o mercado.

  1. Copom: Comitê de Política Monetária. O Copom é o ente do Banco Central do Brasil responsável por determinar os passos da politica monetária através de 8 reuniões por ano com datas pré determinadas. Nessas reuniões são analisados todos os dados econômicos relevantes para o cumprimento do regime de meta de inflação definido por lei.
  2. bps (base points): 1 bp equivale a 0,01%. Ou seja, no texto, 25 bps equivalem a dizer 0,25%. Esse termo técnico existe, pois é uma forma de simplificar a comunicação entre os agentes do mercado. Ao invés de falar 0,25%, falamos 25 bps.  Tentem ler em voz alta e entenderão o que eu digo.
  3. dovish: termo técnico derivado da palavra dove (pomba em inglês). Esse neologismo é usado para ilustrar a forma leniente de combate à inflação dos bancos centrais, uma vez que a pomba tem uma natureza calma e pacífica. Hawkish seria o termo oposto. Derivado da palavra hawk (falcão em inglês), o termo é utilizado para caracterizar o tom agressivo ao combate à inflação.
  4. Ordem dos eventos relevantes para o mercado:
    O Copom divulga a decisão da reunião junto ao comunicado e ao número de votos a favor da decisão. Isso ocorre à noite quando os mercados já estão fechados. Dessa forma todos têm tempo de assimilar o comunicado que tenta direcionar e esclarecer a decisão tomada até a divulgação da ata que ocorre apenas na semana posterior à reunião. Por ser apenas um parágrafo, o Copom tenta utilizar palavras chaves já usadas na história do BC para guiar os agentes do mercado. Além disso, o número de votos a favor da decisão é relevante, pois caso não haja consenso, o rumo da politica monetária pode facilmente mudar de direção ou intensidade.
    Uma semana posterior à reunião é divulgada a ata. Nela, contém um resumo dos indicadores econômicos relevantes para a politica monetária, além das hipóteses de suas projeções de inflação e dos motivos pelos quais foi tomada a decisão de subir/manter/diminuir a taxa básica de juros. Normalmente o mercado faz um comparativo da ata da reunião passada com a da que acabou de ser realizada. Qualquer mudança entre as duas é essencial para entender os próximos passos da politica monetária.
  5. Regime de meta de inflação: é um plano para a política monetária, caracterizado pelo anúncio público de uma meta específica oficial (ou de uma banda) para a taxa de inflação, em um determinado horizonte de tempo e por um conhecimento explícito de que a inflação baixa e estável é o principal objetivo da política monetária. No caso brasileiro, essa meta é de 4,5% com uma banda de 2% para cima e para baixo. Dentro desse sistema, as autoridades monetárias se esforçam constantemente em comunicar ao público os planos e objetivos, assim como os mecanismos para fortalecer a transparência do banco central, criar credibilidade para a instituição e desse modo encontrar seus objetivos. Por esses motivos são divulgados documentos como a ata das reuniões, a cada 45 dias, e o relatório de inflação, trimestralmente.

Victor Wong
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Sobre Victor Wong 26 Artigos
Mestrando pela Escola de Economia de São Paulo da FGV. Já trabalhou no mercado financeiro na área de Pesquisa Econômica. Interessa-se pelas questões fiscais e monetárias, além do fator político de cada uma das decisões tomadas no âmbito nacional e internacional. Em outras palavras, a "macro" é com ele! Porém, bons argumentos nem sempre são suficientes para ganhar discussões. Dessa forma, utiliza-se de suas (poucas) habilidades de barman para embriagar as contrapartes. Nada como saber o ponto fraco de seus adversários... 

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