Antes de tudo, é preciso ter estratégia...

O ano era 1940, o cenário a II Guerra mundial e o momento era decisivo. Os britânicos haviam acabado de decifrar o código secreto militar nazista conhecido como “Enigma” e descobriram que os alemães estavam prestes a bombardear a cidade de Coventry, a 150 km de Londres.

Diante disso, era esperado que Churchill - então primeiro-ministro britânico - evacuasse toda a cidade o mais rápido possível, a fim de evitar a morte de milhares de inocentes daquela região.

Mas não foi isso que aconteceu. Ao invés de agir rapidamente, o primeiro-ministro permaneceu imóvel! E na noite de 14 para 15 de junho, centenas de bombardeiros atacaram a cidade de Coventry com mais de 500 toneladas de poderosos explosivos. O ataque, além dos evidentes danos materiais, acabou por matar alguns cidadãos inocentes ingleses que não tinham absolutamente nada a ver com aquilo.

Diante disso, uma pergunta natural surge: por que Churchill permitiu que milhares de pessoas inocentes morressem quando tinha o poder de evitar aquele desastre? Por que decidiu por não evacuar a cidade? Será que ele não se importava com seu povo? A resposta é sim, claro que Churchill se importava. Aliás, se havia alguém interessado em manter a integridade do seu povo, este alguém era o primeiro-ministro.

A grande questão é que Churchill, como estrategista que era, não estava pensando na manhã seguinte, nem em vencer somente aquela batalha, ele estava pensando em vencer a guerra! E resolveu tomar aquela dificílima decisão por um simples motivo: caso escolhesse a saída mais óbvia de evacuar a cidade, ele estaria mostrando indiretamente aos alemães que havia decifrado o poderoso código nazista. Ou seja, embora ele salvasse a vida de algumas pessoas, perderia uma grande arma a seu favor. Desse modo, foi necessário haver algum sacrifício.

Mais tarde essa atitude do primeiro-ministro inglês mostrou-se fundamental para que eles descobrissem e se antecipassem a diversas operações nazistas futuras...

Churchill_CCathedral_H_14250
Churchill visitando as ruínas da Catedral de Coventry ... Fonte: Wikipedia

Ora, mas se este não é um blog de história, por que estamos falando disso? Pois vamos falar de economia e política...

Se naquela época no lugar de Churchill comandando a Inglaterra estivesse o governo brasileiro, adivinhem o que eles fariam? Evacuariam a cidade de Coventry, protegeriam a vida de 10 mil ingleses, mas perderiam a guerra.

Digo isso, pois é exatamente o que está acontecendo com o Brasil atualmente. O governo, com o “belo” discurso de levar bem-estar à população, de maneira extremamente forçada controla o preço da gasolina, controla o preço da energia, colocou os juros em queda forçada em 2012 e aumentou ainda mais os incontáveis programas sociais. Em outras palavras, estão querendo salvar Coventry.

Mas para saber quais as consequência disso no futuro, basta olhar os números...

Nos últimos cinco anos a Petrobrás perdeu 60% do seu valor de mercado (e assim emprega menos pessoas e arrecada menos impostos), a queda forçada da taxa de juros nos levou a uma inflação de 6% muito próxima do teto da meta e resiliente (corroendo o poder de compra do trabalhador), e os diversos programas sociais têm aumentado de maneira preocupante os gastos do governo (e levado a quedas sucessiva do superávit primário obrigando o governo a usar de sua famosa contabilidade criativa).

Alguns podem criticar esse raciocínio por ser frio e calculista, a isso eu chamo de sacrifícios. Sacrifícios que devemos fazer hoje para obtermos algo maior no futuro, assim como Churchill os fez ao tomar aquela atitude.

É um sacrifício, pois é óbvio que ninguém, muito menos o primeiro-ministro, queria que os cidadãos de Coventry morressem inocentemente. De maneira análoga para o nosso caso brasileiro, também é um sacrifício pois é óbvio que ninguém quer preços altos para a gasolina, altas taxas de juros ou redução dos programas do governo para diminuir a desigualdade social (principalmente este último).

Ou seja, não são nos fins desse governo que estamos discordando, mas nos meios utilizados para se chegar aos objetivos.

Assim como salvar Coventry daria uma ilusão de que o país estava reagindo bem no cenário de guerra, reduzir de maneira forçada o preço dos combustíveis, a taxa de juros e aumentar os gastos com a população também criam a ilusão de que as coisas estão indo bem no atual momento.

O reflexo disso é que nas pesquisas de opinião, a presidente Dilma continua vencendo a eleição no primeiro turno. Isso porque o cidadão comum - de maneira natural - olha pro “hoje”. Mas os investidores olham para o futuro e se olharmos adiante veremos que as coisas não estão nada bem. Prova disso são as agências de classificação de risco que acabam de rebaixar o rating do país.

É um cenário que faz todo sentido, porque o governo se concentra apenas nos dias de hoje, e isso alegra a alguns brasileiros (especialmente aqueles de Coventry) mas não se dá conta de que isso poderá causar problemas maiores.

E não precisamos ir muito longe para perceber onde isso pode nos levar. Basta olhar para nossos vizinhos, pois foi sob o mesmo pretexto de levar o bem-estar à população que Argentina e Venezuela por um período curto de tempo conseguiram manter a população satisfeita, porém o modo como fizeram - controlando preços, fechando a economia, sendo leniente com a inflação - mostra o porquê chegaram à situação que estão.

Se de fato acreditamos que manter o código nazista sob segredo foi fundamental para os países aliados vencerem a guerra, eu me arrisco a dizer: “Se Dilma fosse a presidente da Inglaterra na II Guerra Mundial a Alemanha teria vencido”, pois não há como salvar Coventry e vencer a guerra ao mesmo tempo. É necessário algum sacrifício e nós brasileiros pedimos: não vença a batalha de Coventry, precisamos vencer a guerra...

Leonardo de Siqueira Lima
10170219_10203335365288648_276252663_o

Comentários

Sobre Leonardo Siqueira 54 Artigos
Exilado em Barcelona - Espanha Saído das camadas baixas da população brasileira, com muito esforço (e uma dívida imensa) conseguiu se formar na tão sonhada Escola de Economia de São Paulo da FGV. Não satisfeito com sua dívida da FGV resolveu fazer mais uma para cursar o Mestrado em Economia na Barcelona Graduate School of Economics, e fez o maior crowdfunding de educação da história do país. Nos tempos vagos tem o estranho hábito de assistir discursos de políticos como Collor, Barack Obama, John Kennedy e também do pastor Silas Malafaia, pois segundo ele, “esses caras vendem areia na praia”. O máximo que conseguiu com essas técnicas de persuasão, entretanto, foi uma cobertura extra no McDonald's. No ensino médio foi monitor de matemática e entrou pra história como primeiro monitor a ficar de “recuperação” com o restante da sala, mostrando desde cedo seu espírito de equipe. Tirando esses percalços da vida, possui diversos artigos nos principais veículos como: Valor Econômico, Folha de São Paulo, G1, UOL etc.

2 Comentário

  1. Achei muito interessante esta analogia. Por isso mesmo fiquei curiosa em saber mais a respeito das estratégias que podem ser tomadas e dos impactos (positivos e negativos) que poderiam causar. Como tomar decisões a longo prazo e ter aprovação da população ao mesmo tempo?

  2. Boa noite, Maisa.
    Sobre as estratégias que causam impactos a longo prazo são diversas. Para a Petrobrás poderíamos citar a variação do preço do combustível de acordo com o mercado e não de acordo com o governo, isso aumenta as expectativas de lucro e incentivaria o aumento do investimento por parte dos credores e investidores. No longo prazo reduziriam o preço do combustível devido a melhores técnicas de extração.
    Quanto aos juros, o governo deveria diminuir os gastos a fim de permitir que pudessem reduzir os juros, exatamente como sugere nosso Amigo Victor Wong no nosso penúltimo post.
    Quantos aos programas sociais, eles são necessários porém deve ser paliativos e não um fim em si.
    Concordo que essas soluções do ponto de vista técnico são fáceis porém do ponto de vista político são difíceis, afinal o político tem que pensar nas próximas eleições e precisa de resultados a curto prazo.

    A principal conclusão que fica, é que não há como obter ganhos futuros sem abdicar de algo no presente. E por isso muitas vezes elas são impopulares e não contam com o apoio da população. Isso vale para os investimentos, para a política ou até para uma dieta que precisamos fazer para perder alguns quilos rs.
    Em outras palavras: pra alguém estar na sombra hoje é porque um dia outra pessoa plantou uma árvore.

    É isso. Ainda que tarde da noite e cansado da labuta diária rs espero ter respondido a pergunta.

    Um grande abraço! Volte sempre ao Terraço!

Faça um comentário

Seu e-mail não será divulgado.


*