Eleições Municipais 2016: você reparou que estão logo ali?

Com finais de Olimpíadas, Paralimpíadas, uma presidente "impichada", (ex)políticos presos dia sim dia não no âmbito da Lava Jato, além de números diários sobre a ainda persistente crise econômica tomando conta do noticiário – e de nossa atenção – no último mês, as eleições municipais deste outubro não foram pauta nem de papo de elevador. Porém, apesar de quase despercebidas, tiveram início no meio do agitado mês de agosto (dia 16) as campanhas eleitorais para vereadores e prefeitos nas 5.568 cidades brasileiras. Sim, isso significa que daqui uma semana, mais precisamente no dia 2 de outubro, teremos que lembrar do que ouvimos no último mês naquelas musiquinhas irritantemente memorizáveis, no horário eleitoral gratuito no rádio e televisão e, claro, daquele amigo polêmico do facebook (já voltaram a ser amigos?).

Tendo em vista a enorme quantidade de municípios brasileiros (e minha honesta ignorância sobre o cenário político de cada um deles), e sem negligenciar a importância de vereadores, o foco do presente artigo serão candidatos à prefeitura de São Paulo. Que rosto será a "nova cara da cidade"? Do hype das ciclofaixas ao magnata almofadinha e à ativista social sênior, passando pelo advogado do povo e pela mãe do CEUs, a disputa que se aproxima pode ser tudo, menos entediante. Abaixo, uma breve análise dos principais candidatos à prefeitura de São Paulo em 2016.

Fernando Haddad (PT): candidato à reeleição, Haddad tornou-se famoso por políticas como a implementação de ciclo faixas, a redução da velocidade nas marginais e outras vias centrais, e o fechamento para veículos da Av. Paulista aos domingos - apesar de seu legado incluir conquistas importantes de cunho econômico, como o retorno do grau de investimento ao município de São Paulo, mesmo após a perda do selo de bom pagador por parte do governo federal. O atual prefeito é popular entre os jovens, especialmente de classe alta [1], e elogiado por veículos internacionais (como o New York Times) [2], mas perdeu espaço em grande parte do eleitorado da periferia, que julga ter sido negligenciada pelo sucessor de Gilberto Kassab. Propostas para um novo mandato incluem a criação de um canal de televisão e rádio municipais focados na comunidade como alternativa aos canais abertos de comunicação e a ampliação da faixa exclusiva de ônibus, e da “faixa verde” exclusiva de pedestres. Atualmente, encontra-se em  quarto lugar na disputa, com 10% da intenção de votos segundo última pesquisa Datafolha [3].

João Dória (PSDB): carregando em sua candidatura uma fratura no PSBD paulista, Dória saiu vitorioso diante de seu até então colega de partido Andrea Matarazzo (que, após derrota, deixou o partido e filiou-se ao PSD para concorrer como vice na chapa de Marta Suplicy), apoiado por tucanos de peso como FHC e Serra. O empresário tem ao seu lado o duas vezes governador do Estado, Geraldo Alckmin, e grande parte do eleitorado tucano considerado mais conservador por boa parte de analistas políticos, e sua taxa de rejeição é menor do que do adversário petista, mas continua desconhecido entre as camadas mais pobres da sociedade paulistana. Se eleito, Dória promete “enxugar” o aparato público em secretarias e prefeitura, privatizar o Estádio do Pacaembu, além de revogar a redução de velocidade nas marginais e criar um portal online com informações a respeito de gastos públicos na cidade. Com uma campanha que destaca as origens humildes e a experiência como gestor do empresário, Dória passou de 16% das intenções de voto em pesquisa realizada no fim de agosto, para 25% em mais recnete pesquisa Datafolha, empatando tecnicamente no primeiro lugar ao lado de Marta e Russomano [4].

Celso Russomanno (PRB): recentemente absolvido pelo STF do crime de peculato (desvio de dinheiro público) supostamente conduzido durante seu mandato como deputado federal entre 1997 e 2001, Russomanno liderava as pesquisas de intenção de voto até meados de agosto - hoje, encontra-se em empate técnico com Dória e Marta, com 22% das eleições de voto [5]. Popular entre as camadas de classe média e considerada de cunho mais conservador, o advogado tornou-se famoso nos anos 1990 como defensor dos direitos do consumidor em programa de televisão, elegendo-se deputado federal em 1994. Russomano tenta angariar votos de ex Malufistas, e não desconversa ao ouvir ecoar o velho mantra “rota na rua”. Provável adversário no segundo turno de quaisquer outros desta lista, suas propostas incluem ampliar o efetivo da GCM, revogar a autorização do Uber e aumentar o controle sobre o consumo e venda de drogas na cidade.

Marta Suplicy (PMDB): ex-prefeita e ex-petista, Marta Suplicy é popular na periferia de São Paulo, mas possui alta taxa de rejeição entre eleitorado de renda mais alta. Está dando trabalho ao petista Fernando Haddad, sendo vista por vezes como “aquilo que o PT perdeu” na gestão do atual prefeito. Seu legado inclui a criação do Bilhete Único e do CEU (Centro Educacional Unificado) e a ampliação do transporte escolar, além do imposto sobre a taxa do recolhimento de lixo e a construção do túnel que corta a Av. Faria Lima. Agora filiada ao PMDB, Marta admite o erro de elevar impostos municipais e promete reverter os índices de velocidade impostos por Haddad e acabar com a suposta “indústria de multas”. Propõe também padronizar os serviços de táxi e criar centros de abstinência para usuários de crack e indivíduos com transtorno mental, substituindo a atual política de Haddad para a região conhecida como Cracolândia. Com eleitorado relativamente cativo, encontra-se hoje quase com o mesmo nível de intenções de voto do começo do páreo - passando de 21% para 20% nas duas últimas pesquisas Datafolha [6].

Luiza Erundina (PSOL): outra antiga filiada do PT e uma vez prefeita de São Paulo, Luiza Erundina concorre ao lado de Ivan Valente pelo PSOL. Seu legado entre 1989 e 1993 inclui mudanças na educação, como aumento do salário de professores e a atuação de educadores de renome como Paulo Freire e Mário Sergio Cortella. Com inesperados 10% das intenções de voto no início da disputa, a candidata de 81 anos angariava votos de Marta na periferia e de Haddad entre jovens, e ocupava o terceiro lugar na disputa paulistana em meados de agosto (ao lado de Dória e Haddad, com 9% da intenção dos votos). Hoje, ocupa quinta posição no páreo, com reduzidos 5% das intenções de voto [7]. Ernudina chamou atenção da mídia ao ter sua participação em debates televisionados barrada pela justiça, devido ao número insuficiente de deputados na Câmara, a não ser que 2/3 dos candidatos concordassem em aceitá-la nos debates [8]. Não contente com a decisão, a candidata evocou seus defensores e conduziu um protesto em frente à sede da TV Bandeirantes na noite do primeiro debate entre seus adversários (em 22 de agosto). A decisão foi revogada pelo STF, e a candidata passou a participar dos debates desde então [9]. Se eleita, Erundina defende a Tarifa Zero no transporte público, a cobrança progressiva do IPTU e o combate à terceirização e a privatização.

E eu com tudo isso?

Como se pode notar, não há nada de previsível na cena eleitoral paulistana deste outubro. Até então, a realidade estampa candidatos não tão fortes para criar um cenário definitivo, nem tão fracos para dar espaço a novas lideranças.  Completando a peculiaridade da disputa deste ano estão as recentes mudanças na legislação eleitoral aprovadas em 2015, que determinam (entre outras mudanças) o fim do financiamento de empresas, um limite para gastos, além da redução do tempo de campanha e espaço nas redes nacionais de televisão e rádio [10].

Entretanto, independente de quem levar o páreo, há pouco espaço para mudanças radicais. Com as finanças apertadas para usar o selo de bom pagador e tomar muito mais empréstimos (após renegociação com a União em Fevereiro deste ano, a dívida com encontra-se em R$ 27,5 bilhões, o que permite crescimento do endividamento em R$ 15 bilhões [11]) e as mãos atadas – mesmo que parcialmente - perante problemas como mobilidade urbana (a lembrar, o metrô é de responsabilidade do governo do estado) e segurança, o próximo a ocupar a cadeira no Viaduto do Chá, 15, assumirá certo abacaxi, além de uma população nada contente. De acordo com recente pesquisa, sete em cada dez habitantes mudariam de São Paulo se pudessem, enquanto o número de cidadãos satisfeitos em morar na cidade caiu quase pela metade entre abril de 2013 e julho deste ano [12].

Com perspectivas pouco animadoras em meio a uma crise política nacional, menos dinheiro e menos tempo para vender o peixe, e diante de um eleitorado de ressaca das Olimpíadas e cada vez mais descrente da classe política, só nos resta uma coisa a dizer aos candidatos: May the odds be ever in your favour.

 rachel

Referências                                                                     

[1]http://spressosp.com.br/2015/06/23/situacao-de-haddad-no-cenario-eleitoral-e-ruim-mas-pode-melhorar/ http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2015/11/1701267-a-um-ano-da-reeleicao-gestao-haddad-atinge-maior-reprovacao.shtml

[2] http://exame.abril.com.br/brasil/noticias/apos-wall-street-journal-the-new-york-times-elogia-haddad

[3]http://g1.globo.com/sao-paulo/eleicoes/2016/noticia/2016/09/doria-tem-25-russomanno-22-e-marta-20-diz-pesquisa-datafolha.html

[4]Ibidem;[5]Ibidem;[6]Ibidem;[7]Ibidem

[8]http://politica.estadao.com.br/blogs/fausto-macedo/justica-nega-a-erundina-participacao-em-debate-na-tv/http://www1.folha.uol.com.br/poder/2016/08/1803467-campanha-de-erundina-vai-a-justica-para-tentar-participacao-em-debates.shtml

[9]http://eleicoes.uol.com.br/2016/noticias/2016/08/25/maioria-do-stf-vota-por-participacao-de-nanicos-em-debates-de-radio-e-tv.htm

[10]http://veja.abril.com.br/politica/sob-novas-regras-campanha-eleitoral-municipal-comeca-hoje/

[11] http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2016/02/1743985-com-renegociacao-divida-da-cidade-de-sp-cai-de-r-74-bi-para-r-275-bi.shtml

[12] http://opiniao.estadao.com.br/noticias/geral,sao-paulo-sustentavel,10000071125

 

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mm
Sobre Rachel de Sá 33 Artigos
Formada em Relações Internacionais pela PUC-SP (onde aproveitou para dar um pulinho no Master da Sciences-Po Paris), rendeu-se ao seu interesse por economia, e concluiu um mestrado em Economia Política Internacional na London School of Economics. Contrastando com os outros membros do terraço, que segue com afinco desde o primeiro post, veio para dar uns pitacos diferentes a partir do olhar de alguém que vê além dos números, e decidiu explorar a linha tênue entre economia e ciência política. Tem experiência no setor de compliance, e atualmente trabalha como analista econômica no Consulado Britânico em São Paulo.