Expectativas desancoradas: O que o Focus nos diz?

Economia em Pílula. Uma dose rápida de economia no seu dia | por Victor Wong*

Já é sabido que a política monetária brasileira é muito confusa. A comunicação do Banco Central, através de atas e relatórios de inflação, sempre foi enigmática e cheia de palavras “chave” que mais confundem do que guiam as expectativas dos agentes econômicos.  Qual a função reação do BC em relação à inflação? Muito difícil saber.. Mais simples que isso, qual a real meta do Banco Central? 4,5% ou 6,5%?

Não é para menos que as expectativas de inflação apresentadas pelo Focus estão desancoradas em relação à meta (4,5%).

Elaboração Própria
Fonte: BCB, Bloomberg. Elaboração Própria

O gráfico acima mostra a dinâmica das expectativas de inflação nos últimos anos. As linhas representam as expectativas de um determinado ano sempre começando um ano antes. Por exemplo, a  expectativa do ano de 2011 (linha laranja) começa em janeiro de 2010 e termina em dezembro de 2011. A bolinha separada ao lado direito do gráfico mostra o resultado efetivo da inflação (IPCA) no ano.

Até 2011, as expectativas estavam bem alinhadas, sempre começando o ano em 4,5%. No entanto, após consecutivas surpresas para cima e a falta de compromisso do BC com a meta,  os agentes começaram a esperar inflações cada vez maiores. O que antes começava o ano em 4,5% passou para 5%, 5,5%.

Além disso, nesses últimos 5 anos, as expectativas sempre foram surpreendidas por pelo menos 0,90% de inflação:

2010 (linha verde lima): Começou em 4,5% e o IPCA foi 5,92% 2011 (linha laranja): Começou em 4,5% e o IPCA foi 6,50% 2012 (linha vermelha): Começou em 4,5% e o IPCA foi 5,84% 2013 (linha preta): Começou em 5% e o IPCA foi 5,91% 2014 (linha azul): Começou em 5,5% e o IPCA foi 6,41%

Dessa forma, o que esperar de 2015? O relatório já mostra uma expectativa de 6,99% e as casas mais renomadas do mercado já apontam inflação acima de 7%. O cenário inflacionário parece desafiador? Sim, parece. Porém nem tudo está perdido.. por quê?

Não devemos nos guiar exclusivamente pelo relatório Focus. Ele é só uma consolidação de um cenário defasado que o mercado financeiro já estimava há algum tempo. O mercado por sinal já estima uma inflação em 2016 bem menor e essa informação ainda não foi inserida no relatório Focus, por ser um indicador muito atrasado. Em outras palavras, o relatório Focus tem seus problemas. Assim como as expectativas foram subindo ao decorrer do tempo, elas podem rapidamente mudarem o rumo, como o mercado já começa a precificar lentamente. Outros sinais também parecem seguir essa direção, como a política fiscal que tem se mostrado mais transparente. Agora falta a comunicação mais clara do BC. Esperemos pela ata dessa semana..

  * Victor Wong Economista

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Sobre Victor Wong 26 Artigos
Mestrando pela Escola de Economia de São Paulo da FGV. Já trabalhou no mercado financeiro na área de Pesquisa Econômica. Interessa-se pelas questões fiscais e monetárias, além do fator político de cada uma das decisões tomadas no âmbito nacional e internacional. Em outras palavras, a "macro" é com ele! Porém, bons argumentos nem sempre são suficientes para ganhar discussões. Dessa forma, utiliza-se de suas (poucas) habilidades de barman para embriagar as contrapartes. Nada como saber o ponto fraco de seus adversários... 

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