[Fábula] Fulano e Cicranos, os filhos do Brasil

João tem 10 filhos. O mais velho, o queridinho, se chama Fulano. Os outros 9 todos são chamados de Cicrano, os Cicraninhos.

João, junto com vários amigos, abriu uma empresa de exploração de madeira, a Madeirojão. Obviamente, quanto maior for o lucro da Madeirojão, mais ricos ficam todos na família do seu João, além dos seus amigos e sócios, que pagarão cada vez mais para fazer negócios com o seu João, pois sabem que ganharão dinheiro. Ou, ainda, cobrarão menos juros para emprestar a ele, pois cientes de que ele sabe ganhar dinheiro, tem menos medo de que ele não consiga pagar seus compromissos.


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O custo médio de exploração da tora nas diferentes florestas é R$20. Com o preço da tora no mercado em R$100, a Madeirojão tem lucrado bastante, para a alegria da família do João e seus amigos.

O problema é que o filho queridinho do João, o Fulano, resolveu abrir uma empresa de móveis. Ele compra madeira da empresa da família, fabrica móveis e vende. Só que como Fulano é novo no ramo, ele é muito mais ineficiente do que as empresas que fabricam móveis a mais tempo, isto é, ele não consegue agregar valor da mesma forma que seus competidores que possuem mais experiência. Além disso, Fulano decidiu que sua empresa teria salários e benefícios muito acima da média, pois ele alega que “merece” por trabalhar tanto.

Fulano se deu conta que tem um problema. Se precisar pagar R$100 por tora, ele não consegue ter lucro suficiente para pagar todos os investimentos que fez (com o dinheiro do próprio pai e seus amigos), nem seus altos benefícios. Então Fulano se revoltou, e em um belo dia pegou um mega fone e começou a gritar no meio da sala de sua casa, exigindo que a Madeirojão venda madeira exclusivamente pra ele a preço de custo, abrindo mão de todo lucro que teria se vendesse a preço de mercado.

Obviamente, se Madeirojão vendesse a preço de custo Fulano, estaria abrindo mão de um lucro que beneficiaria toda a família e amigos do João.

João até pode atender os desejos de Fulano, seu filho queridinho, se quiser. Basta que ele compense reduzindo gastos com todos Cicraninhos e mandando seus sócios – que apostaram o próprio dinheiro no negócio dele – para fora do negócio.

Fulano adora essa idéia, para ele pouco importa se a família de João e seus amigos vão ficar mais ou menos ricos, o importante mesmo é não depender de outras empresas de móveis. “Abram suas mentes meus irmãos Cicraninhos! Se eu receber madeira a preço de custo todos vocês vão ficar mais pobres, mas e nosso orgulho?? Já pensaram na alegria de poder estufar o peito e dizer que fabricamos todos os nossos móveis?? Os outros produtores de móveis vendem móveis melhores e mais baratos pra vocês, mas EU SOU DA FAMÍLIA! Eu que amo vocês! As outras empresas de móveis só querem nosso dinheiro” gritava Fulano no megafone no meio da sala, enquanto alguns Cicranos choravam emocionados.  

Como muitos Cicraninhos tem um histórico de esquecimento contínuo, vários choravam de emoção nos discursos do Fulano.

E assim todas as famílias equivalentes a do João iam ficando cada dia mais distantes das famílias mais ricas e prósperas. Todos iam empobrecendo juntos, menos os Fulanos dessas famílias, esses empobreciam um pouco menos que os outros, enquanto continuavam com seus megafones subindo na mesa na hora da janta gritando que “Essas empresas são nossas! Um orgulho pra todos nós! Um verdadeiro patrimônio nacional”

Em varios casos o empobrecimento foi impressionante, causando revolta entre os Cicranos. Não havia mais dinheiro pra nada. Quando Cicraninhos resolviam indagar os Fulanos do porquê a situação estar tão difícil pra eles, os Fulanos diziam que a culpa era dos amigos do João (aqueles que foram mandados à merda antes, lembram?), que passaram a cobrar juros altíssimos dos familiares do João. A teoria lançada pelos Fulanos é que a culpa era da ganância.

Vários Cicranos, ainda não percebendo a real situação, continuavam apoiando os Fulanos.

Andre Gazzi
Formado em Ciências Aeronáuticas, trabalha na GOL como piloto, fez pós-graduação em gestão financeira.

Personagens da história

Família do João: Brasil

João: Governo

Madeirojão: Petrobrás

Fulano: Burocratas e Políticos que defendem desesperadamente nossas refinarias (entre outras estatais)

Cicranos: Resto do povo

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