Fora das expectativas: a ascensão de Jair Bolsonaro

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No dia 06 de setembro, véspera de feriado, recebi algumas notícias no Whatsapp que o candidato Jair Bolsonaro teria sofrido um atentado. Confesso que, de imediato, pensei ser fake News, conforme já estou habituado a receber. Comprovada a veracidade, naqueles dois dias de feriado prolongado só se falava do ocorrido em todas as rodas de conversa, de família à amigos, de mesa de negócios a mesa de bar.

Dentre os resultados dessas discussões, uma frase me chamou muita a atenção: “o que não mata, elege” (em alusão a um ditado popular que diz: “o que não mata, aleja”). Muito me surpreendeu que muitos – e aqui eu digo sobre aquele seu parente que mal mal vê o noticiário noturno - já cravaram naquele momento a vitória do candidato nas urnas, ainda que faltasse um mês, exatamente, para as eleições. Ao mesmo tempo, estes mesmos já declaravam que a partir daquele momento, seriam eleitores de JB. Sobre o que ocorreu neste mês e que leva a um resultado quase que já declarado, para o próximo domingo, tecerei alguns comentários à luz de conceitos da economia e sociologia.

Conta-se que as pessoas do mundo antigo tinham convicção de que todos os cisnes eram brancos, uma que vez que por séculos e gerações, os europeus conviviam com aquela espécie do animal, de cor branca. Bastou-se a descoberta de um cisne negro para anular uma tradição e convicção que prevaleceu por anos a fio. Nassim Nicholas Taleb classifica que estamos suscetíveis a eventos considerados cisnes negros no nosso cotidiano, o que ele classifica como fenômenos que estão fora das nossas expectativas, que exercem um impacto extremo no curso da história e que após o ocorrido, as pessoas empenham-se em explicá-lo, na tentativa de tentar prever suas ocorrências futuras.

Nem o mais pessimista dos seres humanos imaginaria que um candidato à presidência poderia levar uma facada naquela situação. Contudo, o fato ocorreu e alterou drasticamente o panorama das eleições, uma vez que alterou as estratégias dos candidatos: do próprio JB, dos seus adversários e o arranjo na qual eles se interagem, e a percepção da população quanto a este.

Um dos fatores cruciais foi que, anteriormente ao atentado, já havia começado a série de sabatinas e debates com os presidenciáveis, e para o deputado JB, a sua exposição pública tinha um efeito dual: reforçava o seu eleitorado ao passo que aumentava sua rejeição. Ciente disso, diversas foram as cogitações de sua equipe para que esse não fosse mais aos debates. Passado o atentado, o deputado ficava inviabilizado de comparecer aos debates e foi beneficiado pela complacência da população perante ao seu estado, o que rendeu-lhe uma escalada de 18% nas pesquisas de intenção de voto entre antes e o depois do ataque. Evidentemente que este efeito sentimental tem um curto espaço de duração, porém os votos angariados dificilmente migrarão, passado o clímax.

Após sua recuperação, liderando sua campanha em um ambiente controlado, o candidato foi pouco exposto às contradições do seu plano de governo. Além disso, no debate real, os candidatos moldaram suas estratégias para não criticar o candidato, temerosos de que isso lhes acoplasse uma imagem de insolidarismo ao seu estado de saúde, o que novamente inibe as possibilidades de colocar em discussão as incongruências de JB.

Em 1949, um fenômeno era analisado por Robert K. Merton: quando difunde-se um rumor de que um banco está próximo à falência, seus correntistas se apressam em sacar os seus depósitos o que de fato leva o banco a fechar as portas. O autor então cunhou o termo profecia autorrealizável: uma definição falsa da situação, que suscita um novo comportamento e assim faz com que a concepção originalmente falsa se torne verdadeira. Na nossa realidade, isso ficou evidente de se observar durante e após a greve dos caminhoneiros, no qual rumores de uma nova interrupção no abastecimento geraram filas nos postos de gasolina e supermercados que de fato provocaram problemas no abastecimento.

Isto posto, questiono: estaria mesmo Jair Bolsonaro já eleito em 06 de setembro?  Para analisar como os eleitores moldaram suas expectativas a partir de suas próprias crenças, é preciso inserir um novo elemento, que em verdade, foi o fator determinante nesta campanha: o sentimento anti-petismo. Cinco dias após o atentado contra JB, o Partido dos Trabalhadores oficializava Fernando Haddad como o cabeça de chapa e Manuela D’ávila (PC do B) como candidata a vice. Na pesquisa Ibope divulgada em 20/09, a chapa petista apresentou um crescimento de 138% em comparação com a última pesquisa.

Como estes fatores se interagem? Talvez todos consigam imaginar qual a relação dos fatos, mas tentarei esclarecer utilizando um arquétipo sistêmico que conhecemos como efeito bola de neve (loop de feedback positivo). A adsorção da imagem anti-establishment em JB lhe proporcionou uma grande adesão de votos daqueles que temiam a volta dos petistas ao poder. Neste passo, quanto mais o candidato pesselista crescia, mais concentrou-se em Fernando Haddad a esperança em tentar barrar a vitória de JB, o que demonstrou-se como um estabelecimento antecipado do voto útil. O crescimento de FH acirrava por outro lado a sua rejeição (que cresceu 135% entre 21 de agosto e 06 de outubro), e o temor da vitória dos petistas, que por sua vez, favorecia JB. Esta ciranda parece que não chegará a lugar algum, mas a chave para o seu entendimento reside nas proporções em que um fator leva ao outro.


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Entre a primeira pesquisa Ibope após o atentado e a última, na véspera da eleição, JB cresceu 38% em intenção de votos, enquanto FH cresceu 175%. Certamente esta última configura um viés da divulgação da chapa, contudo, este quadro demonstra que “a sombra” do PT voltou a aparecer. Por outro lado, a rejeição de JB no mesmo período cresceu apenas 5%, enquanto de FH, cresceu 57%, confirmando este efeito e demonstrando como o efeito antipetismo contaminou o primeiro turno. No segundo turno, este efeito se acirra, quando FH passa a ter maior rejeição que JB, 47% e 35% respectivamente, segundo a pesquisa Ibope divulgada dia 15/10.

No meio desta escalada, fica evidente que há um movimento de adaptação e readequação de expectativas quanto ao discurso de Jair Bolsonaro. Muito se pode explicar devido ao efeito ancoragem do segundo turno, uma vez que só há duas opções a serem escolhidas. Ao mesmo tempo, a exposição em um ambiente controlado dá outro tipo de enquadramento (framming) a JB, apostando na miopia do eleitor quanto aos seus torpes discursos que o fizeram ganhar fama, ainda que controvérsia. Gilberto Freyre já explicaria este fenômeno, em 1933, quando em seu livro seminal, Casa Grande e Senzala, explica sobre a plasticidade cultural do brasileiro, que permite naturalizar posições totalmente antagônicas como fatos rotineiros do seu cotidiano.

Esta série de fatores demonstra em suma dois fatores – e aqui imprimo as minhas percepções e visões ideológicas. O primeiro é relativo à como as pessoas assumem a irracionalidade generalizada (das quais elas fazem parte) como um efeito endógeno e alteram seu comportamento diante disso. Algo como estar consciente de que está caminhando em um efeito manada, e mesmo assim, optar por não desgarrar do bando. Este fato explica como a crença de que “o que não mata, elege” criou devotos em romaria pelo país, conquistando a beatificação da sua sacra ideia.

O segundo ponto ressalta a estratégia errônea do que se diz hoje como “frente democrática”. A ascensão do candidato JB teve como principal âncora o brado de que tirariam o PT do poder (embora já o tenham sido tirados há pouco mais de dois anos). Se o mote dos adversários a JB era realmente e primariamente a defesa da democracia, optar por uma estratégia que o desancorasse poderia surtir resultados diferentes no dia de hoje, e diante das possibilidades que foram apresentadas, sugestiono que Ciro Gomes (PDT) teria sido uma escolha mais adequada — o que só seria possível em um mundo onde não existam egos envaidecidos. Utilizando um jargão próprio das teorias de crescimento econômico, Jair Bolsonaro subiu no ombro de gigantes, isto é, aproveitou-se de um estoque já consolidado para estabelecer seu crescimento. O inesperado é que o gigante em que escalou fora seu adversário: o Partido dos Trabalhadores.

Estabelecer uma disputa entre dois candidatos a ordem de messias, aquele que promete fazer mais milagres angaria maior rebanho. Uma lástima é que entre a fé e a escolha pública, há um abismo que trespassa do místico ao real.

“O fato de que muitos políticos de sucesso são mentirosos, não é exclusivamente reflexo da classe política,é também um reflexo do eleitorado. Quando as pessoas querem o impossível somente os mentirosos podem satisfaze-las” (Thomas Sowell)

Formou-se frente que não fez frente. Estamos bailando a beira do abismo, e a música já está no fim.

Victor Barcelos
Graduado em Ciências Econômicas pela UFV.

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