Lugares comuns da esquerda brasileira, uma pincelada de realidade em um quadro de loucura

Por Victor Candido

Os apoiadores da presidenta Dilma Rousseff parecem acreditar em argumentos rasos e em lugares comuns que a esquerda brasileira fabricou nos últimos anos, sempre para fugirem de sua real responsabilidade, a estagnação econômica e a crise política-institucional, pontos para onde se apontam todos os holofotes da mídia nacional. Discuto aqui algumas ideias equivocadas desse grupo de esquerda, petista ou qualquer outra adjetivação que se queira usar.

Se o problema é grave demais, independente da natureza, sua origem remete aos anos FHC, se algo benéfico acontece é louvado como invenção petista. Quando a economia crescia a taxas robustas se creditava o sucesso ao governo, agora que estagnou se convencionou dizer que não é necessário crescimento econômico forte, afinal de contas, o país está com a menor taxa de desemprego da história, o salário mínimo se valorizou substancialmente nos últimos 12 anos, criando relativo conforto aos trabalhadores, sem contar a farta oferta de crédito que permitiu o acesso a bens inimagináveis ao brasileiro ‘médio’, logo vencemos a guerra da pobreza e qualquer ataque aos governos petistas é quase um crime contra a nação.

Sobre as críticas ao período FHC, não quero me aprofundar, mas é sempre preciso lembrar que era uma época de uma macroeconomia recém saída do hospício, a volta da sanidade a vida econômica era prioridade máxima, infelizmente muitos recursos foram alocados nessa missão, como os recursos são escassos (ponto frequentemente ignorado pela esquerda nacional) setores essenciais como educação, inevitavelmente sofreram cortes, mais uma vez, infelizmente.

Atribuir a melhora da economia brasileira e por consequência a redução da pobreza, aos 12 anos de PT é um erro grosseiro. Primeiro o país surfou extrema bonança externa, o boom das commodities gerando superávits crescentes na balança comercial e acumulando reservas internacionais importantes. Saldo o qual se tornou negativo ao longo dos 4 primeiros anos do governo Dilma. Cabe aqui dizer que nenhum grande pacote de mudanças estruturais na economia foi feito, ao longo desses 12 anos, nenhum, chance desperdiçada. Sobre a pobreza, o fim da inflação descontrolada contribui enormemente para a redução da desigualdade de renda, dinâmica quase sempre ignorada.

Detalhe para a contínua redução do GINI, em velocidade quase constante desde de 1994. [1]
Detalhe para a contínua redução do GINI, em velocidade quase constante desde de 1994. [1]

O bolsa família é de fato um programa maravilhoso[2], mas que tem efeitos limitados no longo prazo, ele foi pensado como um paliativo para famílias vulneráveis de forma a ajudar no desenvolvimento das crianças e para que as famílias tenham o mínimo para uma existência digna. Logo imagina-se que as crianças vão receber uma educação de qualidade, muito superior àquela recebida por seus pais e se desenvolverão profissionalmente e as gerações seguintes não necessitarão do benefício. Na teoria é um plano maravilhoso, porém a educação brasileira não avançou o suficiente para permitir isso, vide os resultados deploráveis do Brasil no PISA (Programme for International Student Assessment), em matemática somos piores que países como Albânia.

Evolução do investimento em educação % do PIB. Fonte: ONG todos pela educação
Evolução baixa do investimento em educação % do PIB. Fonte: ONG todos pela educação

Ainda na esfera econômica o crescimento econômico é sim condição necessária ao combate à pobreza, principalmente em um país com elevado gasto público, logo um amplo fluxo de receitas é necessário para o equilíbrio fiscal e tais arrecadações dependem do crescimento da produção, principalmente no quadro atual de um governo que gastou muito nos últimos anos. Infelizmente dispêndios que não refletiram no crescimento do produto e nem na redução da desigualdade, sendo que a última aumentou ligeiramente na primeira gestão Dilma.

Outro imenso problema são os intervencionismos ou micro gerenciamentos que só geraram problemas: Redução da conta de luz que foi um verdadeiro fracasso e colocou em risco a saúde financeira das empresas de energia (várias estatais inclusive) e causou desequilíbrios entre oferta e demanda. Não seria melhor cortar impostos sobre a energia? Além das várias pequenas desonerações fiscais, sendo essas grandes responsáveis pelo déficit primário de 2014. Ao contrário do que se pensa não foi o gasto o vilão e sim reduções na receita. Desonerações que deveriam impactar positivamente o PIB, como CIDE e PIS/COFINS, tiveram efeito nulo no crescimento. A inflação que já vinha namorando o teto da meta agora de fato a estourou, 7,36%a.a segundo o último IPCA-15, em um cenário de crescimento projetado sendo zero. E o Banco Central já jogou a toalha para o ano de 2015.

Inflação e PIB (Variação% Anual) Fonte: IPEADATA. *Para 2014 se usou uma média dos últimos 4 trimestres/média dos 4 trimestres anteriores.
Inflação e PIB (Variação% Anual) Fonte: IPEADATA. *Para 2014 se usou uma média dos últimos 4 trimestres/média dos 4 trimestres anteriores.
Detalhe para a 'acomodação' das receitas nos últimos anos, enquanto o déficit primário cresce a uma velocidade preocupante. Fonte: Secretaria de Política Econômica.
Detalhe para a 'acomodação' das receitas nos últimos anos, enquanto o déficit primário cresce a uma velocidade preocupante. Fonte: Secretaria de Política Econômica.

Muitos não percebem que uma inflação de 7% para quem é de baixa renda, não é de fato 7%, é maior. Devido a composição da cesta de bens e serviços que essas pessoas consomem. Componentes que em sua maioria vem sofrendo grandes reajustes (alimentos, transporte e energia). Com uma inflação acima do teto da meta, os juros sobem, encarecendo crédito, contribuindo ainda mais para a retração da economia, um veneno remédio, porém necessário. Logo não é muito difícil concluir que a inflação alta gera desigualdade, tanto pelo impacto direto no preço dos produtos quanto pelo encarecimento do crédito, consequência do aumento dos juros.

Sobre a educação programas como o ProUni e Fies são avanços porem é preciso sempre ressaltar que o sistema de educação superior privado beira o desastre, universidades que ‘enlataram’ cursos de graduação em modelos que visam apenas lucro e não a qualidade, soma-se a isso o fato que é possível contar com os dedos quais instituições privadas colaboram para geração de ciência e tecnologia. O PRONATEC outro programa que parece maravilhoso, tem eficiência limitada, pois diversas escolas escolhidas são de qualidade duvidosa. As construídas com dinheiro público, as pressas, não possuem estrutura adequada. Sem contar o atraso no repasse de recursos, desde de outubro de 2014 que tais escolas não recebem[3].

Na esfera das Universidades Públicas a coisa continua bastante ruim, a maioria das novas universidades, criadas no ReUni(Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais),não possuem estrutura adequada foram feitas às pressas com os famosos prédios ‘caixão’ de concreto e aço, que mais parecem blocos de lego. Algumas nem refeitórios e alojamentos oferecem a seus alunos. Outras começaram as aulas em estruturas improvisadas, como a Universidade Federal de Ouro Preto com o seu novo campus na cidade de Mariana-MG[4]. O ciências sem fronteiras é um programa excelente, apenas para mestrado e doutorado, não faz o menor sentido mandar alunos de graduação que não produzem ciência para o exterior e ainda não cobrar o mínimo de desempenho acadêmico lá fora(dentro das universidades o programa é conhecido como turismo sem fronteiras, inclusive por alguns dos participantes), sem contar que o ensino superior público é ainda largamente dominado pela elite e recebe muito mais recursos por aluno quando comparado a outras esferas da educação brasileira. Estamos muito distantes de chegar a ser uma pátria educadora.

Fonte: Livro 'Porque o Brasil Cresce Pouco' de Marcos Mendes, Campus Elsevier.
Fonte: Livro 'Porque o Brasil Cresce Pouco' de Marcos Mendes.

Em relação a Petrobras, dizem que existe um ‘inimigo externo’ até o momento não se sabe do envolvimento de algum outro país ou personalidade estrangeira no caso e muito menos de aliens. O único inimigo do Petrobras é a estrutura institucional que a empresa se encontra, que deveria ser mudada o mais rápido possível, inclusive dando autonomia à empresa em relação à escolha de sua diretoria, independentemente de privatizar ou manter a empresa como economia mista. O descaso em relação a isso foi provado pela demora da presidente Dilma em trocar a diretoria e pela indicação no mínimo estranha do senhor Bendini. Se existem indícios de corrupção em outros governos, que os casos sejam investigados e punidos, ninguém está contra isso. Argumentar em favor da Petrobras usando outros casos de corrupção é acreditar que com duas prostitutas se faz uma donzela.

Diversos outros pontos negativos poderiam aqui ser listados, mas acredito que já existem argumentos suficientes. A atual situação que o país se encontra: PIB estagnado, inflação acelerando e crise política, mostram a incompetência do atual governo, não existe inimigo externo nenhum, o governo é vítima das próprias escolhas feitas nos últimos anos.

Notas:

[1] CUNHA e VASCONCELOS; Evolução da desigualdade na distribuição dos salários no Brasil. http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1413-80502012000100005&script=sci_arttext

[2] Para maiores informações sobre o Bolsa Família recomendo fortemente o seguinte texto: http://terracoeconomico.com/2014/08/28/por-que-o-bolsa-familia-e-bom-e-deve-ser-ampliado-2/

[3] MEC admite atraso no Pronatec; http://g1.globo.com/educacao/noticia/2015/02/mec-admite-atraso-no-pronatec-e-libera-r-119-mi-para-regularizar-situacao.html

[4] O autor do texto estudou na instituição no referido período.

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Sobre Victor Candido 44 Artigos
Mestrando em economia pela gloriosa Universidade de Brasília (UnB). Já pesquisou nos campos de economia ecológica, história econômica e política monetária, tem artigos publicados na Folha de São Paulo, Gazeta do Povo, UOL e revista de Economia da Faap. Atualmente é pesquisador assistente do CPDOC (O Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil) da FGV-RJ. Já trabalhou no mercado financeiro na área de operações e pesquisa macroeconômica. Graduou-se em economia pela Universidade Federal de Viçosa (UFV-MG).

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