Manual Básico do Ataque Especulativo

Especulador

adjetivo substantivo masculino

que ou aquele que investiga, estuda, raciocina; estudioso, cientista.

investigador teórico de algum campo do conhecimento; pensador, teorizador, teórico.

que ou o que faz investimentos comerciais ou financeiros, visando obter lucros excepcionais de acordo com as flutuações do mercado.

que ou aquele que negocia de má-fé, enganando os outros ou se aproveitando da necessidade alheia, para obter lucros acima do aceitável.

Texto irônico, favor não levar (tão) a sério


Nós, especuladores financeiros, grupo silencioso e sem um representante formal, provedores da liquidez e da eficiência aos mercados globais, nos dirigimos ao conjunto da sociedade, em forma de um manual básico, para sedimentar conceitos e princípios da especulação financeira. Tomamos essa atitude porque novamente nossa classe é alvo de injúrias no que diz respeito ao comportamento das moedas globais, em especial do Real em relação ao Dólar. Entendemos que tal conhecimento é pouco difundido e mal versado na grande maioria da população. Vamos aos pontos:

  1. A secular sabedoria basicamente se resume em comprar barato e vender caro. O mercado então irá se resumir em uma enorme horda silenciosa de comprados e vendidos em diversos ativos, que irão trocar de posições, mentir sobre suas posições, aumenta-las, diminuí-las a todo momento, lembrando que o preço de qualquer ativo revela o pensamento médio da coletividade sobre o futuro.
  2. O futuro está no preço. O economista, o especulador, o analista, assim como o mercado, vive num mundo construído a partir de cenários e hipóteses, invariavelmente precários e irreais, ou mesmos levianos e adulterados, mas que valem como fato até que se provem o contrário, ou que histórias melhores estejam disponíveis. Afinal de contas, tudo que se faz no mercado tem a ver com previsões sobre o futuro, sem as quais nada funciona. Novamente, o futuro está no preço.[1]
  3. O especulador então é o óleo que lubrifica as engrenagens do mercado, oferecendo liquidez em troca de oportunidades de ganho. Sem especulador, não existe mercado para os investidores e para os tomadores de recursos, existiria apenas o entesouramento dos ativos, a falta de referência de preços e a incapacidade de transferência de recursos.
  4. A tendência deve ser seu aliado, mas você realmente verá o dinheiro de verdade mudando de mão quando antecipar a virada de grandes ciclos, que começam e se encerram na calada da noite.
  5. O mercado, no longo prazo, é eficiente. No mercado, os mais espertos ganham dos menos espertos, o problema é encontrar qual o seu papel naquele momento, se você não encontrar, talvez já saiba qual é. Todos tem seu dia de gênio das finanças, mas consistentemente você não pode bater o mercado, pois o mercado é global e você não tem completo domínio dos grandes movimentos e o mercado pode ficar “errado” por mais tempo que você pode ficar líquido.
  6. Você deve buscar proteção para eventos extremos, o problema que isso custa dinheiro e provavelmente quem as vende sabe mais do que você sobre esses assuntos.
  7. Não existe ideologia, o aplauso do mercado iguala todos os governantes, suas certezas e pré-conceitos acabam no momento que você for atropelado pela outra ponta.
  8. Tudo pode sempre ficar pior, o fundo de hoje pode ser o topo de amanhã, portanto a busca incessante por assimetrias positivas basicamente guia nossas vidas, onde a relação de risco-retorno é praticamente a linha mestra de qualquer raciocínio.
  9. Racionalidade coletiva e indeterminação são imperativos. Os especuladores podem catalisar um movimento, mas não são responsáveis pelas bases econômicas que tornam esse movimento possível, apenas afloram as fragilidades muitas vezes escondidas ou complacentes pelo coletivo inoperante.
  10. Quando a moeda de um país é desvalorizada, a causa raiz é da má administração desse país, e não especificamente dos especuladores, dos fundos abutres (essa é a minha preferida), estes que identificam a assimetria e assumem o risco. Uma dívida pública de mais de trilhões de dólares? Uma economia com diversas ineficiências e reformas por fazer? Um país sem reservas internacionais? Uma bomba fiscal da previdência? Um caos político causado por partidos extremistas? A racionalidade impera cedo ou tarde, e será evidenciada.

Por fim, alerta aos navegantes, considerando o cenário global recente, de exaurimento do elixir de dólares, ienes e euros que emanava dos banco centrais e da elevação das taxas de juros por todo mundo, os especuladores seguramente continuarão a ter muitas assimetrias para buscar.

[1] Referência retirada do livro: As Leis Secretas da Economia

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Sobre Pedro Lula Mota 53 Artigos
Mestrando em Macroeconomia pela FGV-SP, é economista pela UNICAMP como passagem pela Universidade do Porto - Portugal. Admirador da arte da fotografia, principalmente de lugares extremos e excêntricos.