Mostrando o pau e depois matando a cobra? Mantega versus Malan

Por Leonardo Palhuca

"É uma piada. Vai ser muito mais que isso"

        Guido Mantega sobre a previsão de crescimento da economia brasileirade 1,5% feita pelo banco suíço Credit Suisse para o ano de 2012. Naquele ano o país cresceu 1,03%

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O futuro ex-ministro Guido Mantega rindo da piada do Credit Suisse.

As eleições estão cada vez mais próximas e as comparações entre as gestões do PSDB e do PT cada vez mais fortes. "Vocês plantam inflação para colher juros" disse a presidenta Dilma Rousseff. "Você vai na feira hoje e compra com o mesmo dinheiro o que comprava há 6 meses?", indagou o candidato Aécio Neves.

Tais comparações são bastante úteis aos candidatos e nos garantem bons momentos nos debates. Porém, omitem muitas diferenças existentes entre períodos em que um ou outro partido governou, escondem demais fatores que afetam o resultado econômico de um governo e torna desonesta a comparação.

Mas então, como comparar o desempenho econômico do país sob as rédeas de diferentes partidos em períodos distintos? É quase impossível a comparação. O que se pode fazer é verificar o desempenho brasileiro em relação a outros países tanto no período tucano quanto no período petista. Mas isso já foi feito com maior competência por alguns economistas: Alexandre Schwartsman, Mansueto Almeida, Roberto Ellery e o ótimo artigo de Isabela Duarte, João Manoel Pinho de Mello e Vinicius Carrasco aqui.

Há alguma outra forma de comparar? Difícil lembrar de mais alguma. Mas aqui proponho ver o desempenho da economia brasileira em relação ao que foi prometido pelo chefe da política econômica.

Como assim?

Façamos uma comparação entre o que o Ministro da Fazenda do governo FHC prometeu e se ele cumpriu versus o que o Ministro da Fazenda do governo Lula/Dilma prometeu e se ele cumpriu.

O exercício é o seguinte: fui atrás de notícias e entrevistas nas quais Pedro Malan (Ministro da Fazenda no período 1995-2002) indicava qual seria o crescimento econômico do Brasil para cada ano de seu mandato. Fizemos o mesmo para o período no qual Guido Mantega ficou no Ministério da Fazenda (2006-2014).

Aqui cabem duas ressalvas: 1) O ministro Pedro Malan não era de dar declarações muito precisas sobre qual seria o crescimento brasileiro. Mas confirmava as previsões de outras instituições ou as oficiais e em muitas vezes utilizamos essas confirmações na análise; 2) Mantendo o embate político, a internet na época do PSDB não era tão evoluída quanto na época do PT , então as fontes para as declarações de Malan não são tão diversas.

Dito isso, vamos as quadros que mostram a projeção feita pelos ministros para o PIB, o crescimento real do produto no referido ano e a diferença entre a projeção e o acontecido:

Ano Projeção do Malan Crescimento Real Diferença
1995 5.00% 4.22% 0.78%
1996 3.00% 2.15% 0.85%
1997 4.00% 3.38% 0.62%
1998 2.00% 0.04% 1.96%
1999 -4.00% 0.25% -4.25%
2000 3.90% 4.31% -0.41%
2001 2.20% 1.31% 0.89%
2002 2.50% 2.66% -0.16%

Fonte: Banco Central (1) e notícias na imprensa (2)

Ano Projeção do Guido Crescimento Real Diferença
2006 4.00% 3.96% 0.04%
2007 5.00% 6.09% -1.09%
2008 5.50% 5.17% 0.33%
2009 2.00% -0.33% 2.33%
2010 5.20% 7.53% -2.33%
2011 4.00% 2.73% 1.27%
2012 4.00% 1.03% 2.97%
2013 4.00% 2.49% 1.51%
2014 2.30% 0.52% 1.78%

Fonte: Banco Central (1) e notícias na imprensa (3)

O que observamos?

Inicialmente, Pedro Malan superestimou o resultado da economia brasileira em 5 dos 8 anos como ministro, enquanto Guido Mantega o fez em 7 dos 9 anos no cargo. Talvez o Ministro da Fazenda tenha um viés para declarar um crescimento maior, gerando expectativas positivas? Não creio! Ainda sou adepto de Expectativas Racionais (e acho que os ministros também) e penso que tenha sido erro de previsão, calibragem errada dos modelos utilizados ou puro chute mesmo para responder à imprensa.

Pedro Malan errou por muito (diferença maior que 1 ponto percentual) suas previsões em dois anos: 1998 e 1999. Para o primeiro ano, superestimou o crescimento em quase 2 pontos percentuais, enquanto no segundo ano previu uma recessão brava que não veio - subestimou o crescimento da economia em 4,25 pontos percentuais. Nos demais anos as projeções ficaram bem próximas do realizado.

Guido Mantega, por sua vez, chegou perto em suas previsões somente em 2 anos durante seu mandato - 2006 e 2008. Nos demais anos, superestimou o crescimento econômico 5 vezes e o subestimou 2 vezes por larga margem (maior que 1 ponto percentual para mais ou para menos), sendo que uma delas em 2009, durante a crise que atingiu o mundo.

Agora vejamos ao longo de seus mandatos, qual foi o resultado da economia versus qual teria sido o PIB brasileiro de acordo com as previsões dos ministros.

 PIB Real do Pedro Malan (em bilhões de R$ de 2013)

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Fonte: Banco Central (1)

PIB Real do Guido Mantega (em bilhões de R$ de 2013)

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Fonte: Banco Central (1)

Podemos ver que o Pedro Malan prometia mais do que entregava no começo de seu mandato, mas ajustou seu modelo e seu discurso e entregou praticamente aquilo que prometeu. O crescimento não foi robusto, nem as previsões foram exageradas.

Guido Mantega começou bem e até 2011 mantinha um excelente desempenho tanto na economia quanto nas previsões. Mas algo aconteceu: ou ele esqueceu de re-calibrar seu modelo ou esqueceu de entregar o que prometia.

Mas como ficou o bolso do brasileiro médio, já que nos gráficos anteriores estamos considerando o PIB e não o PIB per capita? Como os ministros indicam o quanto o PIB vai crescer e não quanto o PIB per capita vai crescer, precisamos recorrer aos dados do IPEA sobre a população em cada ano para calcularmos o PIB per capita.

Os demais gráficos mostram quanto a renda média do brasileiro foi (ou é no caso do Guido Mantega) e quanto seria caso as previsões dos ministros tivessem se concretizado.

PIB per capita do Pedro Malan (em R$ de 2013)

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Fonte: Banco Central (1) e IPEADATA (4)

PIB per capita do Guido Mantega (em R$ de 2013)

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Fonte: Banco Central (1) e IBGE (4)

Ao considerarmos o crescimento populacional, novamente Pedro Malan começou prometendo mais e entregando menos. Porém, o prometido não era muito e a renda média do brasileiro ficou praticamente estagnada principalmente com o efeito dos anos de 1998 e 1999, justamente quando as previsões do ministro se descolaram da realidade. Ao longo do período a renda média passou de R$ 18.500 para R$ 19.000 ao ano.

Já Guido Mantega seguiu o caminho inverso, começou prometendo e entregando, mas conforme citado, esqueceu de re-calibrar seu modelo e a partir de 2011 começou a prometer muito e entregar pouco. Mas no geral, sob a batuta dele, a renda real média do brasileiro passou de R$ 20.300 para R$ 24.000 - patamar que foi atingido por volta de 2011 e desde então mantém-se estagnada.

Novamente a estagnação da renda média coincide com o descolamento das previsões do Ministro da Fazenda. Porém, no caso de Guido Mantega a previsão fica acima do resultado da economia desde 2011 enquanto no caso de Pedro Malan o descolamento oscilou entre a super e a subestimação.

Agora, qual ministro se saiu melhor na condução da política econômica, fica a seu critério. Alguns dados estão ai e as opiniões vão divergir de acordo com as demais informações para interpretá-los. Aqui sugiro algumas: crises externas, desvalorizações cambiais, política macroeconômica e taxa de desemprego.

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Armínio Fraga, cotado para o cargo, vendo a discussão entre o prometido e o entregue.

Fontes:

(1) https://www3.bcb.gov.br/sgspub/localizarseries/localizarSeries.do?method=prepararTelaLocalizarSeries

(2) http://www1.folha.uol.com.br/fsp/1995/10/13/dinheiro/2.html

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/1996/6/18/brasil/4.html

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/1997/5/24/dinheiro/10.html

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/1997/12/20/dinheiro/21.html

http://www12.senado.gov.br/noticias/materias/1999/03/24/memorando-tecnico-preve-inflacao-de-168-e-dolar-a-r-170-este-ano/imprimir_materia

http://noticias.uol.com.br/economia/ultnot/2000/06/30/ult29u1430.jhtm

http://www1.folha.uol.com.br/folha/dinheiro/ult91u30624.shtml

http://www.old.pernambuco.com/diario/2002/04/02/economia4_1.html

(3) Notícias na imprensa:

http://g1.globo.com/Noticias/Economia_Negocios/0,,AA1299724-9356,00-MANTEGA+MANTEM+PROJECAO+DE+PARA+PIB+DE.html

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi2609200606.htm

http://www.jb.com.br/economia/noticias/2008/12/09/mantega-projeta-pib-de-55-para-2008/

http://economia.estadao.com.br/noticias/geral,mantega-previsao-para-pib-em-2009-esta-mais-para-2,371961

http://www.brasil.gov.br/economia-e-emprego/2010/03/previsao-oficial-do-pib-para-2010-e-de-5-2-diz-mantega

http://www.gazetadopovo.com.br/economia/conteudo.phtml?id=1165398

http://economia.estadao.com.br/noticias/geral,e-uma-piada-diz-mantega-sobre-projecao-do-credit-suisse-para-o-pib,116726e

http://www.valor.com.br/brasil/2812704/previsao-para-2013-e-de-crescimento-do-pib-de-4-ou-mais-diz-mantega

http://www.cdldf.com.br/geral/576-mantega-preve-alta-do-pib-entre-2-3-e-2-5-em-2014

(4)http://www.ipeadata.gov.br/ExibeSerieR.aspxoper=export&serid=1776285356&MINDATA=1994&MAXDATA=2002&TNIVID=0&TPAID=1

Comentários

Sobre Leonardo Palhuca 87 Artigos
Mestre em Economia pela Albert-Ludwigs-Universität Freiburg (apóstolo de Hayek). Após a graduação trabalhou no Instituto Brasileiro de Governança Corporativa tentando fazer as empresas brasileiras se comportarem. Em vão! Também foi pesquisador o Walter Eucken Institute onde tentou fazer os estados alemães controlarem suas dívidas. Em vão! De quebra, sofreu lavagem cerebral da doutrina do ordoliberalismo para retornar ao Brasil e implantar ideias pouco ortodoxas como: respeito às leis que regem as atividades econômicas, liberdades individuais e pouca intervenção direta do estado na economia (e rigor fiscal, adicionalmente). Interessado em macroeconomia - política monetária e política fiscal - e no buraco negro das instituições.

1 Comentário

  1. Não concordo com essa análise. As análises feitas no início do ano devem ser revistas à medida que o tempo flua e fatores inéditos, e imprevisíveis, surjam. Lula teve bons ventos internacionais, o que justifica o fato de o crescimento real superar o presumido por Guido no início do ano. Dilma, ao contrário, não teve, o que explica o fato do crescimento real superar o presumido por Guido no mesmo período.

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