O peso da economia na (im)popularidade presidencial

Presidente Michel Temer e os ministros Henrique Meireles (Fazenda), Blairo Maggi (Agricultura), senador Eunicio de Oliveira (presidente do Senado) e o Moreira Franco (Sec. Geral da Presidência da República), participam da cerimônia de Anúncio da liberação de milho dos estoques governamentais para venda a criadores e agroindústrias de pequeno porte do Nordeste. Foto: Sérgio Lima/PODER 360

A avaliação do desempenho do governo é tema na mídia sempre que um dos principais institutos de pesquisa divulga seu levantamento mais recente. Entretanto, as reportagens se limitam a registrar as variações na comparação com a pesquisa anterior e levantam ilações acerca da relação do resultado com a situação econômica e política momentânea.

Se a aprovação presidencial é importante para a estratégia de agentes políticos e da economia, é essencial entender o que interfere nesta variável para tentar antecipar sua variação. Uma dissertação de mestrado fez esse papel[1] usando dados de 1995 a 2010. Por um lado, o autor procurou medir o impacto na popularidade de mudanças em variáveis econômicas como inflação, desemprego, crescimento, endividamento público, câmbio e Ibovespa. Por outro, procurou capturar o efeito do período de lua de mel com um presidente recém-eleito, da campanha e de eventos relevantes como o apagão de 2001 e o mensalão de 2005.

Expandindo o estudo para encampar dados até abril de 2017 e variáveis adicionais, como a percepção dos eleitores em relação à cobertura da mídia sobre o governo, encontra-se que inflação e desemprego se mantêm como as variáveis econômicas mais significativas. Cabe a ressalva de que, em face à forte aceleração da inflação e do desemprego ao longo de 2015, também foi necessária a inclusão de uma restrição para evitar projeções de aprovação negativa durante esse período.

O passado é interessante, mas será que se os economistas estiverem corretos em relação à recuperação da atividade nos próximos trimestres, o governo pode esperar algum alento até a eleição de 2018?

Reconhecendo a grande dificuldade de estimar o impacto das variáveis políticas, resta alimentar o modelo com hipóteses acerca do desempenho da economia até o período eleitoral. O crescimento forte do primeiro trimestre de 2017, o efeito da injeção de renda através da liberação do FGTS e o crescente impacto da redução de juros (ora em curso) devem gerar uma expansão do PIB ao redor de zero neste ano, vencendo a herança estatística (carry over) de -0,8 p.p. da recessão de 2016. Para 2018, com a intensificação do efeito benéfico da queda da Selic, adotou-se a hipótese de crescimento de 2,6%. Tal cenário é compatível com a redução da taxa média de desemprego em 0,3 p.p. entre um ano e o outro, com perceptível melhora ao longo de 2018. Para a inflação, a enorme ociosidade da economia e o choque favorável de alimentos corroboram a hipótese adotada de 3,8% para 2017. Já em 2018, passado o choque de alimentos, a inflação deve ir a 4,3%. Tais hipóteses se distanciam moderadamente do consenso coletado através da pesquisa Focus no momento em que este texto foi escrito [IPCA: 3,71% para 2017 e 4,37% para 2018; PIB: 0,41% para 2017 e 2,3% para 2018].

Sob essas hipóteses, fica claro que a recuperação econômica é insuficiente para fazer reagir a aprovação presidencial até a eleição de 2018. De maneira direta, o elevado ponto de partida do desemprego é o que impede uma elevação da aprovação, mesmo diante de alguma melhora ao longo do período. Para os otimistas, a história até sugere uma melhora pontual durante a campanha eleitoral, mas vale lembrar que dessa vez esta será mais curta e modesta.

Se por um lado, seja qual for o desfecho da atual crise em Brasília, os políticos não podem esperar grande alívio na popularidade devido ao desempenho da economia até 2018. Por outro, o presidente que assumir em 2019 terá a força do resultado eleitoral (efeito lua de mel) e a queda mais forte do desemprego como motores de popularidade. É importante ressaltar que, apesar de eventual impopularidade das reformas econômicas, estas são e serão essenciais para garantir a estabilidade das contas públicas, da inflação e do emprego no longo prazo. Portanto, são vitais para a manutenção das oportunidades eleitorais futuras de qualquer coalizão política.

 

Disclaimer a pedido do autor: qualquer opinião emitida é apenas do autor e não reflete visão oficial da PUC-SP, do BNP Paribas ou de qualquer de suas empresas.

Victor Scalet Alves - Economista da BNP Paribas Asset Management, tem mestrado em Economia e Finanças pelo Insper e é doutorando em Ciências Sociais e Política na PUC-SP.

[1] Pinto, André Jácomo de Paula. Os enigmas da popularidade presidencial no Brasil: economia ou política? UNB(2013). http://repositorio.unb.br/handle/10482/15140?mode=full.

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