Por que eu não deixo meu dinheiro na mão de (quase) nenhum gestor...

“Investir deve ser mais como assistir uma pintura secar ou acompanhar a grama crescer. Se você quiser emoção, pegue US$ 800 e vá para Las Vegas”
(Paul Samuelson – Prêmio Nobel em Economia)

Eu sou uma decepção para os meus amigos ou familiares que me abordam pedindo uma dica de investimento com rápido e alto retorno. Eu sou uma decepção porque eu não dou esta dica, simplesmente porque eu não acredito que exista esse tal investimento milagroso que vai fazer você dobrar o seu patrimônio em 6 meses.

A minha dica é sempre a mesma: “invista em renda fixa, por exemplo tesouro direto que vai te pagar algo como 4% de juros real (rendimento acima da inflação). O Brasil é o país da renda fixa. Se ainda assim, você quiser mesmo o mercado de ações, coloque no índice Bovespa e vá para o parque passear”.

Essa dica frustra muita gente. Muitos queriam que eu desse uma super dica, como uso de opções, derivativos, estratégias butterfly, mas o que vem é uma estratégia simples e “sem graça”.

Por que eu não sugiro um super-investimento para os amigos?

Eu não correspondo às expectativas dos meus amigos por um simples motivo: eu não acredito na gestão ativa! Eu não acho que escolher algumas ações (o chamado stock picking) dê melhores resultados do que a gestão passiva, na qual a pessoa apenas escolhe algum índice como o Ibovespa, por exemplo.

Se alguns amigos meus preferem percorrer a estrada menos viajada, tudo bem! Mas eu prefiro basear as minhas opiniões e os meus passos nos ombros de gigantes.

Um destes gigantes é o prêmio Nobel Eugene Fama, um dos primeiros a demonstrar que a gestão ativa não consegue gerar mais retorno do que gestão passiva. Em um artigo acadêmico chamado “Luck versus Skill in the Cross Section of Mutual Fund Returns”, Fama e Kenneth Rogoff analisaram fundos de investimento nos Estados Unidos de 1984 a 2006.

Neste paper, descobriram que a quase totalidade dos fundos de investimentos não conseguiram bater o mercado, mesmo sem considerar sequer os custos de administração e transação. Após incluir os custos, a situação ficou pior ainda, com muitos fundos ficando abaixo do desempenho de mercado.

Ou seja, a grande maioria dos gestores “especialistas” não apenas não ajudavam, como ainda pioravam o retorno da carteira de investimentos.

Em um estudo semelhante realizado na universidade de Genebra, três professores analisaram 2.076 fundos americanos geridos ativamente entre 1976 e 2006. Neste caso, considerando a rentabilidade após as taxas de administração, os resultados foram:

  • 75% dos fundos não obtiveram retorno adicional algum em relação ao índice de referência;
  • 24% dos fundos obtiveram retornos abaixo do mercado, e;
  • Apenas 0,6% mostrou alguma verdadeira habilidade em bater o mercado de forma consistente.

Mesmo esses 0,6% são irrelevantes, pois, como os pesquisadores lembram: “0,6% é estatisticamente indistinguível do zero”.

Por gestores, leia-se alguém com formação acadêmica em economia, business ou finanças. Muitos com MBA ou mestrado, todos vivendo a indústria financeira por no mínimo 12 horas por dia.

Há evidências suficientes, portanto, para no mínimo suspeitar desses superinvestimentos e dessas falsas promessas. Se os GESTORES têm um resultado insatisfatório, imagine aquele seu tio que resolver comprar algumas ações da Petrobrás sem sequer ter aberto um balanço da empresa.

O EFEITO IKEA...

A realidade é que esses estudos não são novos. Este conceito de que a gestão ativa não consegue ser melhor do que a gestão passiva é extremamente difundido. Então por que, mesmo com diversas pesquisas relevantes, estes investidores insistem que escolher as próprias ações é uma boa estratégia?

Todo dia que abrimos o e-mail ou entramos em um site de finanças a tela fica cheia de anúncios como: “Invista na ação que rendeu 300% nos últimos 12 meses”, “Copie a estratégia de investimento de Warren Buffet”. Essas propagandas são extremamente sedutoras.

Por trás disso tudo, há um motivo. As pessoas se sentem atraídas por coisas complexas. É o que chamamos de efeito IKEA... Explico.

Qualquer pessoa que tenha morado nos Estados Unidos ou em algum país da Europa e precisou comprar algum móvel já ouviu falar da IKEA, uma empresa sueca fundada em 1943 e hoje a maior empresa de móveis do mundo.

A IKEA faz sucesso porque vende todo tipo de móvel extremamente barato e a pronta entrega. O segredo para reduzir os custos e ser ágil na entrega é que, diferentemente de uma loja tradicional, os móveis devem ser montados pelo próprio cliente, em casa. Assim, você compra o móvel e já o leva na mesma hora para montá-lo sem precisar esperar por 40 ou até 60 dias como algumas lojas tradicionais.

Façamos uma reflexão: todas as vezes que você tenha montado algo em casa que leva tempo e exige muito esforço, embora seja um processo um tanto quanto chato, ao final do processo, é bem provável que você goste mais daquilo do que de outras peças que não deram trabalho nenhum. Afinal, você fez aquilo sozinho.

É como pessoas que pescam o próprio peixe para assar na brasa ou plantam a própria salada em uma pequena horta em casa. Todo o processo com início, meio e fim parece trazer uma sensação maior de prazer. Este é o efeito IKEA. Essa ideia de que quanto mais esforço colocamos em uma tarefa, mais prazer teremos.

Dan Ariely, professor de Economia Comportamental da Duke University, testou o Efeito IKEA em seus alunos. Ariely e outros dois pesquisadores deram uma folha de papel a um grupo de alunos, pediram que fizessem origamis e deram as instruções de como criá-los. Eram todos principiantes.

Como resultado, obviamente saiu algo muito feio, muito diferente de um sapo ou uma garça que costumamos ver em origamis feitos por pessoas experientes.

Com os origamis prontos, os pesquisadores disseram: "Imagine agora que esses origamis que vocês fizeram na verdade pertencem a nós. Mas vocês podem comprá-los de volta. Quanto você quer pagar por ele?" E, assim, eles mediram quanto os alunos estavam dispostos a pagar pelos origamis.

No grupo havia dois tipos de pessoas: as que fizeram o origami (grupo de tratamento) e as pessoas que não fizeram o origami, mas também daria um preço (grupo de controle). Os grupos eram semelhantes, a única coisa que o diferenciava era que uma parte fez e a outra não. Se o efeito IKEA existe é de se esperar alguma diferença entre os dois grupos.

E houve! As pessoas que fizeram os origamis pensavam que aquelas eram lindas peças e estavam dispostos a pagar por elas até cinco vezes mais do que as pessoas que apenas avaliaram externamente, sem os terem criado!

O grupo que fez os origamis não apenas gostava mais deles, como também pensavam que todo mundo veria o mundo pela mesma ótica. Pensavam que todas as outras pessoas também gostariam dele. É como montar algum móvel da IKEA e achar que todos vão achar ele mais bonito.

Ou seja, de fato todo o esforço colocado ali se traduziu em uma oferta maior por aqueles que o fizeram. As pessoas associavam tarefas complexas com o resultado esperado. Não é possível que algo tão complexo, - pensavam elas - não seja bom.

O problema é que não necessariamente esforço e resultado estão correlacionadas. Os móveis da IKEA de fato podem ser bonitos. Mas os origamis eram feios, da mesma forma que gestores ativos empiricamente não conseguem bater o mercado. Quem dirá então o seu tio médico e tantos outros simples aventureiros no mercado de ações, recheados de profissionais.

Recentemente um amigo meu resolveu abrir uma gestora para gerir recursos de terceiros. Ele tem pouquíssimo conhecimento. Mas o seu escritório é sedutor: mais de três telas de computador, gráficos complexos e estratégias que parecem ser sofisticadas.

Apesar do seu esforço diário, eu não tenho coragem de deixar meu dinheiro com ele. Fazer uma gestão ativa te faz sentir poderoso. Isso cria emoções intensas: ganância, medo, raiva. Mas se for para sentir isso, é melhor apostar em Las Vegas ou em uma corrida de Cavalos. Para gerar retorno no longo prazo, eu prefiro a gestão passiva e ir caminhar no parque. As chances de resultados melhores são muito maiores.

Leonardo Siqueira
Editor do Terraço Econômico

Referências

* BARRAS, Laurent; SCAILLET, Olivier; WERMERS, Russ. False discoveries in mutual fund performance: Measuring luck in estimated alphas. The journal of finance, v. 65, n. 1, p. 179-216, 2010.

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Exilado em Barcelona - Espanha Saído das camadas baixas da população brasileira, com muito esforço (e uma dívida imensa) conseguiu se formar na tão sonhada Escola de Economia de São Paulo da FGV. Não satisfeito com sua dívida da FGV resolveu fazer mais uma para cursar o Mestrado em Economia na Barcelona Graduate School of Economics, e fez o maior crowdfunding de educação da história do país. Nos tempos vagos tem o estranho hábito de assistir discursos de políticos como Collor, Barack Obama, John Kennedy e também do pastor Silas Malafaia, pois segundo ele, “esses caras vendem areia na praia”. O máximo que conseguiu com essas técnicas de persuasão, entretanto, foi uma cobertura extra no McDonald's. No ensino médio foi monitor de matemática e entrou pra história como primeiro monitor a ficar de “recuperação” com o restante da sala, mostrando desde cedo seu espírito de equipe. Tirando esses percalços da vida, possui diversos artigos nos principais veículos como: Valor Econômico, Folha de São Paulo, G1, UOL etc.