Por que a concorrência perfeita não é bem vinda para a mobilidade urbana?

Não é necessário conhecer a fundo a microeconomia para entender, ainda que intuitivamente, os benefícios de um mercado em concorrência perfeita. Não porque os agentes são altruístas, mas porque há motivações diferentes. Como dito por Adam Smith “não é da benevolência do açougueiro, do cervejeiro e do padeiro que esperamos o nosso jantar, mas da consideração que ele tem pelos próprios interesses”.

Assim, uma empresa na tentativa de sobreviver à competição inerente ao capitalismo, quando em mercado de concorrência perfeita, não tem outra alternativa senão a busca pela inovação, a tentativa de diferenciação de seus produtos e o investimento em pesquisas. Esses fatores, somados à constante ameaça dos concorrentes, resultam em redução dos preços finais beneficiando o consumidor.

Mas, é sabido também que há casos no qual a o monopólio é melhor alternativa. Os monopólios naturais, por exemplo, são situações na qual um setor apresenta elevados custos fixos e a necessidade de altos investimentos. Dessa maneira, somente quando a exploração se dá em regime de exclusividade, a maximização de resultados e a alocação eficiente de recursos são alcançadas. Nesses casos o governo, a fim de evitar abusos sobre o consumidor, deve permitir o monopólio e atuar como um agente regulador.

É o caso, por exemplo, do fornecimento de energia. Neste ambiente é melhor que haja poucas empresas operando neste mercado do que inúmeros players. Isso acontece, pois poucas quanto menor o número de empresas operando no mercado de energia, maior a quantidade produzida por cada empresa. Dessa maneira, há uma diluição dos custos fixos, uma rentabilidade maior e o incentivo ao investimento. Consequentemente, o bem chega ao consumidor a um preço menor.

Mas há outras situações em que a concorrência não é bem vinda além dessa que envolve o monopólio natural: é o caso em que há efeitos de rede. Definimos efeitos de rede como o benefício que obtemos quando acrescentamos mais um cliente a um serviço. Este é o caso do Facebook: quanto mais amigos seus estiverem usando essa rede social, mais útil será pra você. Você usaria o Facebook se fosse o único usuário da rede social? Com certeza não. Além desse caso das redes sociais, podemos citar efeito semelhante na malha ciclística. Mas antes vamos entender o caso.

Bike Sampa x Ciclo Sampa
Com o objetivo de Introduzir a bicicleta como modal de transporte público saudável e não poluente, em maio de 2012, a prefeitura de São Paulo inaugurou o Bike Sampa. Um sistema operado pelas empresas Serttel/Samba e apoiado pelo Banco Itaú. Composto de estações inteligentes, conectadas a uma central de operações via wireless, alimentadas por energia solar, onde os clientes cadastrados podem retirar uma bicicleta, utilizá-la em seus trajetos e devolvê-la em uma das mais de 150 estações. Em 15 de dezembro de 2013, uma parceria entre o Movimento Conviva e a Bradesco Seguros deu início ao CicloSampa, com a mesma finalidade, porém com bicicletas mais modernas, sem correia e com pneus modernos sem câmaras de ar.

1Fonte: CET

Mas, o que parecia ser mais uma solução pode ser um entrave ao desenvolvimento das bicicletas como meio de transporte. Isso porque a existência de mais uma empresa diminui os efeitos positivos de uma rede. Ou seja, como essas duas empresas competem entre si, tendem a se concentrar nas áreas mais ricas da cidade. O mapa abaixo nos mostra que há grande sobreposição de estações, deixando as áreas periféricas em segundo plano com pouquíssimas estações.

Itaú BradescoEstações do Itaú à esquerda e à direita estações do Bradesco. Alta concentração no centro da cidade

Com isso muitas pessoas que poderiam utilizar o serviço, não têm essa alternativa por não encontrar uma estação próximo de casa ou do trabalho. Dessa forma, o que temos é uma demanda abaixo do socialmente ótimo. Ou seja, o mercado competitivo cria uma competição nas áreas de maior demanda

Exemplos de um sistema único e integrado são os das cidades de Londres e Paris. Nestas cidades as estações estão igualmente distribuídas em todas as regiões e são mais numerosas, portanto, o cidadão se sente mais propenso a optar por esse meio de transporte. Assim, um cidadão sabe que encontrará diversas estações espalhadas pela cidade.

Paris LondresEstações do Barclays em Londres à esquerda e à direita estações em Paris. Estações igualmente distribuídas

Caso houvesse a integração entre os dois sistemas presentes em São Paulo, teríamos ao todo 180 estações e mais de 1.500 bicicletas.

É fato que algumas medidas importantes foram tomadas no quesito mobilidade urbana. São Paulo já criou mais de 300 km de faixas exclusivas de ônibus e pretende chegar até o final de 2015 a 400 km de ciclovias. Além disso, a ótima notícia é a integração do Bike Sampa com o bilhete único.

Apesar desse avanço, porém, o governo poderia repensar a questão da livre concorrência e migrar para um outro modelo único, integrado. Se não o fizer é natural que, em setores em que existem economias de rede, uma empresa tende a ser vencedora e a outra a ser extinta, exatamente como aconteceu com no caso Facebook x Orkut.  Modelos como de Londres ou mesmo Paris podem ser vistos como referência em cidades que estão à frente na questão da mobilidade urbana. Não precisamos de mais empresas nesse segmento, precisamos de um modelo integrado!

Leonardo de Siqueira Lima
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Sobre Leonardo Siqueira 54 Artigos
Exilado em Barcelona - Espanha Saído das camadas baixas da população brasileira, com muito esforço (e uma dívida imensa) conseguiu se formar na tão sonhada Escola de Economia de São Paulo da FGV. Não satisfeito com sua dívida da FGV resolveu fazer mais uma para cursar o Mestrado em Economia na Barcelona Graduate School of Economics, e fez o maior crowdfunding de educação da história do país. Nos tempos vagos tem o estranho hábito de assistir discursos de políticos como Collor, Barack Obama, John Kennedy e também do pastor Silas Malafaia, pois segundo ele, “esses caras vendem areia na praia”. O máximo que conseguiu com essas técnicas de persuasão, entretanto, foi uma cobertura extra no McDonald's. No ensino médio foi monitor de matemática e entrou pra história como primeiro monitor a ficar de “recuperação” com o restante da sala, mostrando desde cedo seu espírito de equipe. Tirando esses percalços da vida, possui diversos artigos nos principais veículos como: Valor Econômico, Folha de São Paulo, G1, UOL etc.

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