Precisamos falar lei da oferta e demanda: a greve dos caminhoneiros

As últimas semanas no Brasil todo noticiário, redes sociais e conversas entre amigos foram tomadas pela microeconomia. Embora a maioria das pessoas nem saibam o que significa microeconomia, e o quanto isso afeta suas vidas.

Microeconomia é o ramo da economia que trata o comportamento das unidades – consumidores, empresas, e investidores -, assim como os mercados formados por essas unidades. Através do sistema de preços esses agentes econômicos (todos nós) fazemos escolhas de como alocar nossos recursos escassos, através do sistema de preços. 

Imagine-se como um navegador no oceano aberto seguindo por uma bússola e a estrelas. O sistema de preços é a bússola que orienta o consumidores, empresas e investidores nas decisões de como gastar sua renda. Em uma economia de mercado os preços são determinados pelo mercado, o mercado nada mais é que a interação entre compradores e vendedores. Ou numa definição mais ampla, na interação entre consumidores, trabalhadores e empresas. E esse conjunto de pessoas e empresas que determinam o preço dos bens.

O instrumento mais básico para análise dos mercados é a lei de oferta e demanda. Essa é uma lei quase natural inferida do comportamento dos humanos nos mercados.

Não surtem muitos efeitos leis normativas dos governos sob essa lei, porque isso causa apenas o surgimento de mercados paralelos, talvez até moedas paralelas, ou até de imperfeições crônicas nesse mercado. Nota-se que curva de oferta é a relação entre a quantidade que os produtores de um bem querem produzir e podem vender.

O nível de preços vai definir a quantidade vendida, se o preço do tomate sobe, é mais provável que os agricultores decidam produzir mais tomates. Isso fará com que o preço do tomate caia a um novo preço de mercado. Uma vez que os mercados são dinâmicos até certo ponto.

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PASSA O TOMATE!

Já a curva de demanda é a relação entre a quantidade de um bem que os consumidores desejam consumir e seu preço, por exemplo, havendo uma alta no preço dos tomates a demanda por tomates caíra, em função da restrição orçamentária de cada consumidor. Cada vez que vamos as compras usamos a lei da oferta e demanda para decidir como e a quantidade que vamos consumir, mesmo que inconscientemente.

Por que essa lei é tão importante no momento? Em 2012 a então presidente Dilma Roussef liberou via BNDES uma linha de crédito de R$ 439 milhões para o financiamento na compra de caminhões e ônibus, com juros de cerca de 2,5% a.a. e prazos maiores de 96 meses para 120 meses. Como a inflação do período era de 5,84%, o governo estava dando dinheiro para os compradores de caminhões e ônibus, cujo objetivo de era acelerar o crescimento da economia brasileira.

Cobrava-se taxas de juros bem abaixo do mercado para a compara de caminhões atraindo assim mesmo quem era de fora do mercado. Sabe-se que esse crescimento não chegou, e percebe-se também com o dito acima que se é aumentada a oferta de um bem ou serviço seu preço cai. Agora vamos a dois fenômenos antagônicos: houve um estimulo ao aumento do frete, com o aumento da frota de caminhões.

No entanto, houve no mesmo período do governo Dilma uma crise econômica que reduz a demanda por bens e serviços. Lembrando mais uma vez que os preços são dinâmicos não estáticos. A vida é um filme, não uma fotografia. Como uma característica comum ao governo Dilma foi se criando uma tempestade perfeita na economia, como estímulos indevidos, contabilidade criativa e a celebrada nova matriz econômica, uma espécie de revival do governo Geisel, e de todo aquele desenvolvimentismo ou neodesenvolvimentismo.

A partir daí a inflação segue uma linha ascendente e o crescimento uma linha descendente, dando a impressão que o planejamento da nova equipe economia falhou miseravelmente. Em 2013 a crise se agrava, no ano eleitoral é maquiada e a partir desse ponto todos nós conhecemos bem a história recente. Estelionato eleitoral em 2014, impeachment em 2016. Isso culmina no presente! A atual crise dos caminheiros exigindo redução artificial do diesel para manutenção da taxa de lucro. A ameaça de greve dos petroleiros embargada pela TST a assim por diante.

Mas o que isso tudo tem a ver com oferta e demanda? Vai-se direto ao ponto, uma política pública mal planejada causou o aumento na oferta de caminhões prestando serviço de frete. Do lada contrário na demanda, o desaquecimento da economia em 2015 e 2016,  a lenta retomada em 2017, seguindo em marcha lenta em 2018 impactou fortemente o preço do frete (para baixo), com o preço do diesel variando livremente (para cima). Mas por que subiu?

O preço do petróleo no mercado internacional subiu nos últimos meses, não só subiu, mas aumentou vigorosamente, indo de cerca de US$ 40,00 na época da política dilmista, para atuais US$ 78,00 o barril do petróleo Brent. Principal componente na produção de diesel, insumo para produção de diesel. Derrubando assim a taxa de lucros dos caminheiros autônomos e empresas de transportes.

No entanto, quem paga a conta? Todo o povo brasileiro subsidiando de novo preço do diesel? O Estado deixa o mercado funcionar normalmente e decidir os ganhadores e vencedores? Os caminheiros autônomos e empresas trabalhando no curto prazo com uma taxa de lucro menor no curto prazo? O Estado subsidiando o diesel através da venda de refinarias de petróleo, como já fazia parte do planejamento, e deixando o mercado de refino mais livre para que haja mais concorrência e o preço caia naturalmente no médio prazo, e permitindo também a revenda direta de etanol aos postos de gasolina? Qual é o maior aprendizado da crise dos caminhoneiros?

O maior aprendizado foi perceber que uma política de curto prazo pode ser extremamente prejudicial no longo prazo, e que o mesmo Keynes que disse no “longo prazo estaremos todos mortos” também disse:

“(...) e a sabedoria de longo prazo é mais necessária do que a conquista imediata. Será erguendo alto o prestígio de sua administração pelo sucesso na Recuperação de curto prazo, que você terá a mobilização de forças necessária para a Reforma a longo prazo”.

Essa é uma habilidade nunca demonstrada por Dilma Rousseff, que chamou o plano de ajuste fiscal de longo prazo do ministro Antônio Palocci de rudimentar.

Todas essas escolhas equivocadas de políticas públicas de curto e longo prazo nos trouxeram hoje para beira do abismo político, institucional e econômico que nos encontramos atualmente.

Guilherme Lima
Graduando em Economia pela UERJ

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