Quando acreditamos que nossos valores são melhores que os dos outros...

O propósito do Terraço Econômico, como o sugere o nome, é tentar abordar assuntos do cotidiano relacionados principalmente à economia, mas não só a ela. Portanto, sendo fiel ao nosso propósito, vamos falar sobre liberdade de expressão. Sem ter a pretensão de tentar convencer as pessoas, gostaríamos apenas de trazer a reflexão sobre este tema, mesmo porque como diria José Saramago "Aprendi a não tentar convencer ninguém. O trabalho de convencer é uma falta de respeito, é uma tentativa de colonização do outro".

Pois bem, há aproximadamente um mês, um acontecimento ganhou a página dos jornais e de todas as redes sociais. Tratava-se de um grupo de alunos da faculdade de direito da USP que invadiu a aula do professor Eduardo Gualazzi, quando este resolveu ler um texto enaltecendo o golpe militar. Como o professor já havia antecipado o tema, no horário da aula dezenas de alunos começaram a bater na porta e depois de alguns minutos entraram todos encapuzados e interromperam o professor. Alegaram ter feito isso por um motivo nobre, pois estavam protestando contra um regime de censura e autoritário.censura

Outro exemplo recente em que a liberdade de expressão foi atacada, aconteceu com a jornalista Rachel Sheherazade do SBT. Após emitir opiniões conservadoras, ela, pressionada por diversos grupos contrária às suas ideias, teve diminuída a sua parte “Opinião” no jornal em que apresenta no SBT, por serem considerados posicionamentos radicais.

Citei apenas esses dois casos, mas poderia citar diversos outros, pois o importante aqui não é o caso, mas o ato em si da censura e da falta de liberdade de expressão. É importante ressaltar que não estamos defendendo a ditadura ou qualquer outro sistema, estamos defendendo o direito das pessoas manifestarem apoio ao que elas quiserem. Nas palavras de Voltaire isso se resume em "posso discordar de tudo o que disseres, mas defenderei até à morte o teu direito de dizer".

Mas, diante desse contexto, alguns poderiam argumentar que a censura deve ser evitada, mas é válida se for por um bom motivo. Eu não poderia estar de mais acordo! Porém, o grande problema é que o conceito de “bom motivo” é muito abrangente e impreciso, podendo mudar de país pra país, de regime para regime.

Por exemplo, por acaso Kim Jong-Um, ditador da Coréia do Norte, acredita que a censura dele seja por um mau motivo? Por acaso, quando Vladimir Putin bloqueou recentemente sites de Internet de seus conhecidos críticos, ele acredita que esteja fazendo um mal pra nação? Muito pelo contrário, segundo eles, essas pessoas perturbam a ordem do país. Frase dita repetidamente também por Nicolás Maduro nas manifestações venezuelanas.

Sendo assim, todo pessoa que comete um ato contra a liberdade de expressão, acredita que está fazendo isso pelos motivos mais nobres do mundo, pois acreditam que os valores deles são melhores do que o das outras pessoas. Isso aconteceu com os alunos da USP e com os críticos de Rachel Sheherazade.

Portanto não podemos de modo algum permitir a censura sob o pretexto de que ela é por um bom motivo. Não existe censura do bem, existe censura, ponto!

Mas em alguns casos, podemos abrir exceções? Ora, a partir do momento em que se concede o poder de censura a um grupo, este grupo poderá utilizar esse poder para agir contra qualquer discurso que seja diferente do seu.

Por exemplo, capitalistas vão dizer que devemos proibir os socialistas de se expressarem porque eles querem destruir a economia e a propriedade privada. Do outro lado, socialistas vão proibir os capitalistas de defenderem suas ideias por explorarem a classe trabalhadora e não pensar nas classes menos favorecidos.

Cristãos também vão proibir o discurso gay porque eles querem subverter a juventude e não respeitam os valores da família. Homossexuais, por sua vez, vão proibir o cristianismo porque são homofóbicos e porque não respeitam as diferenças. E assim por diante...

Mas então o que fazer com meu vizinho que é um neo-nazi-satanista que prega o sacrifício de bebês? O que fazer com alguém que enaltece a ditadura militar como o professor Galluazi ou quem defende o socialismo? Ou mesmo o que fazer com este que vos escreve defendendo a liberdade de expressão?

Em um mundo livre, que ainda é o caso do Brasil, existiria a opção do ostracismo social, ou seja, você não precisa conviver com ele, não precisa contratá-lo e se você for dono de algum estabelecimento não precisa deixá-lo entrar. Você pode excluir da sua vida quem você quiser. Ou seja, não o convide para a festa de aniversário do seu filho. Acredite, você pode, inclusive, deletá-lo do facebook.

Nós não podemos nos esquecer de que defender a liberdade de expressão implica conviver pincipalmente com opiniões que sejam divergentes das suas. Até onde entendo, pensar “você pode dizer o que quiser, desde que eu esteja de acordo”, não é liberdade de expressão.

Pelo contrário, as opiniões divergentes são justamente o objetivo de se ter liberdade de expressão. Pois, em um país livre de que adianta a liberdade de expressão senão para dar voz àqueles que possuem opiniões contrárias às do governo? Pensando nisso, lembrei-me de figuras opostas na política brasileira que representam diferentes grupos da sociedade: Bolsonaro e Jean Willys.

Enquanto existirem esses dois grupos, podemos dormir tranquilos, pois é sinal de que a democracia está funcionando e ideias divergentes estão convivendo no Brasil. Quando passarmos a ter apenas um pensamento dominante, aí sim teremos motivos de nos preocupar. E mais, quem quiser calar qualquer um deles sob o pretexto de que eles estão falando besteira e de que seus valores são melhores do que os dessas pessoas, está cometendo uma censura como outra qualquer.

Leonardo de Siqueira Lima
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Sobre Leonardo Siqueira 61 Artigos
Exilado em Barcelona - Espanha Saído das camadas baixas da população brasileira, com muito esforço (e uma dívida imensa) conseguiu se formar na tão sonhada Escola de Economia de São Paulo da FGV. Não satisfeito com sua dívida da FGV resolveu fazer mais uma para cursar o Mestrado em Economia na Barcelona Graduate School of Economics, e fez o maior crowdfunding de educação da história do país. Nos tempos vagos tem o estranho hábito de assistir discursos de políticos como Collor, Barack Obama, John Kennedy e também do pastor Silas Malafaia, pois segundo ele, “esses caras vendem areia na praia”. O máximo que conseguiu com essas técnicas de persuasão, entretanto, foi uma cobertura extra no McDonald's. No ensino médio foi monitor de matemática e entrou pra história como primeiro monitor a ficar de “recuperação” com o restante da sala, mostrando desde cedo seu espírito de equipe. Tirando esses percalços da vida, possui diversos artigos nos principais veículos como: Valor Econômico, Folha de São Paulo, G1, UOL etc.

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