Quando o futuro nem é tão incerto assim...

Há aproximadamente seis meses, publiquei um artigo chamado “A crise nem chegou e o pior ainda está por vir” juntamente com o economista Samy Dana em sua página da Folha de São Paulo. Nele falávamos de nossas impressões a respeito do futuro da economia brasileira para 2014 e 2015. Seis meses passados, acreditamos que seja um tempo razoável para uma análise do quanto efetivamente ocorreu ou não. Abaixo o texto na íntegra.

A crise nem chegou e o pior ainda está por vir
03/08/2013

Protestos e greves pelas ruas, crescimento sendo revisado para baixo a cada dia, popularidade da presidente despencando, rebaixamento de nota de dívida pela Fitch e o índice Bovespa atingindo o menor nível em quatro anos…

O Brasil vem apresentando um grande problema nos últimos anos, baixo crescimento e inflação elevada. O chamado voo de galinha já é responsável por fazer o governo Dilma apresentar um crescimento médio do PIB de apenas 1,8% e inflação de 6,2%. Sim, o pior desempenho desde o governo Collor…

Diante desse tenebroso cenário, surge uma pergunta: existe saída para se livrar dessa maldição que o assombra o Brasil há anos?

Sim, e os economistas, pelo menos dessa vez, parecem ter um consenso para solucionar esse problema: é necessário um ajuste fiscal urgente para combater a inflação!

A notícia triste é que já sabemos que esse ajuste não será feito… Reduzir gastos do governo significaria no curto prazo, desaquecer a economia. Tarefa indigesta já que amargamos um crescimento de 0,9% em 2012. As projeções também não nos dão motivos para animar: para 2013 e 2014 espera-se um crescimento do PIB de apenas 2%.

Além disso, não podemos esquecer que o governo já entrou em campanha eleitoral e medidas impopulares como corte de gastos não parecem ser politicamente viáveis nas atuais circunstâncias. Dessa maneira abre-se espaço para outras medidas menos impopulares como um aumento significativo dos juros, dessa vez para a casa dos dois dígitos.

O problema nessa segunda alternativa é que com juros maiores, o custo de captação das empresas aumenta e diversos investimentos deixam de ser viáveis. Investimentos esses que são extremamente importantes para melhorar a infraestrutura do país.

Para piorar, o cenário de baixo crescimento acabará desaquecendo o mercado de trabalho e direciona o país para uma situação das mais críticas: inflação alta, baixo crescimento e aumento do desemprego.

Ou se faz esse ajuste, ou podemos afirmar que a crise ainda nem chegou e o pior está por vir. Se o governo continuar postergando a necessidade de reforma para depois das eleições em 2015, essa conta chegará com juros e correção monetária para toda sociedade. Nós não somos a prova de crise!

Embora queiramos fazer uma análise crítica do cenário econômico atual, é importante ressaltar que não é nosso objetivo aqui ficar nos vangloriando sobre os acertos e tampouco o desempenho de papel reservado ao irmão mais velho, que profere, com cínica superioridade, seu clássico “eu avisei”. Mesmo porque como diria o cientista Niels Bohr “fazer previsões é muito difícil, especialmente sobre o futuro”, uma vez que o futuro é incerto por definição.

Feito essa ressalva, nada resta senão constatar, para nossa tristeza, que o cenário econômico e político atual que vivemos parece estar próximo daquilo que esperávamos, há seis meses.

Como previsto, o governo não realizou o ajuste fiscal, pois, embora fosse essencial, essa seria uma tarefa indigesta em ano de eleição. Como o ajuste fiscal não foi realizado e a inflação precisava ser combatida sobrou então a segunda alternativa menos impopular: a alta dos juros, que desde agosto de 2013 até a última reunião do Copom em abril deste ano, subiu de 8,5% para 11,0%, retornando à casa dos dois dígitos.

SelicFonte: Banco Central

Apesar dessa alta de juros de 2,5 p.p., a inflação mostrou-se resiliente e continua dando sinais de que não irá ceder como o esperado. Se em agosto do ano passado o mercado projetava uma inflação para o final de 2014 de 5,87%, hoje se fala em 6,47%, segundo o relatório Focus do Banco Central.

Com este cenário de juros elevados e inflação próxima ao teto da meta, a estimativa de crescimento se reduziu passando de 2,6%, há seis meses, para um tímido 1,6%. Aos olhos das agências de risco essa receita não tem outra consequência senão o rebaixamento do grau de investimento da dívida soberana brasileira.

FocusFonte: Relatório Focus - Banco Central

Curiosamente a deterioração da economia brasileira não foi seguida pela redução dos postos do trabalho. Ao contrário, a taxa atingiu a mínima histórica de 5,0%, segundo dados do IBGE divulgados hoje.

Entretanto, esse "bom desempenho" é explicado em parte pelo aumento da nova geração "nem-nem" (não trabalham, nem procuram emprego). Desde 2012, 8.700  jovens entraram para esse grupo e, ao optar por não procurar um trabalho, esse grupo colabora para a queda da taxa de desemprego¹. No entanto, essa situação não deve permanecer assim por muito tempo caso o país continue apresentando o crescimento econômico médio de 2% ao ano, uma vez que não é comum ter desemprego baixo numa economia fraca.

Reiterando: para os que acreditam que temos o prazer em criticar a economia brasileira, estão enganados. Melhor seria falhar em nossos diagnósticos e publicar pedidos de desculpas, utilizando este espaço para tratar das grandes reformas que o país deveria estar fazendo

Mas com a copa do mundo chegando e as eleições se aproximando, o governo tem optado por deixar essas grandes questões apenas para 2015. O problema é que, como todos sabem, quem não cuida da saúde diariamente pode acabar parando na mesa de cirurgia. E no pós-operatório, quem vai sofrer para se recuperar é a população.

[1] Ler artigo de Ilan Goldfajn, Economista Chefe do Itaú, no Estadão

Leonardo de Siqueira Lima
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Sobre Leonardo Siqueira 61 Artigos
Exilado em Barcelona - Espanha Saído das camadas baixas da população brasileira, com muito esforço (e uma dívida imensa) conseguiu se formar na tão sonhada Escola de Economia de São Paulo da FGV. Não satisfeito com sua dívida da FGV resolveu fazer mais uma para cursar o Mestrado em Economia na Barcelona Graduate School of Economics, e fez o maior crowdfunding de educação da história do país. Nos tempos vagos tem o estranho hábito de assistir discursos de políticos como Collor, Barack Obama, John Kennedy e também do pastor Silas Malafaia, pois segundo ele, “esses caras vendem areia na praia”. O máximo que conseguiu com essas técnicas de persuasão, entretanto, foi uma cobertura extra no McDonald's. No ensino médio foi monitor de matemática e entrou pra história como primeiro monitor a ficar de “recuperação” com o restante da sala, mostrando desde cedo seu espírito de equipe. Tirando esses percalços da vida, possui diversos artigos nos principais veículos como: Valor Econômico, Folha de São Paulo, G1, UOL etc.

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