Ruim com Temer, pior sem ele: 6 gráficos que mostram a evolução econômica do governo

DIDA1 BSB DF 24 11 2015 NACIONAL DILMA ROUSSEFF/RADIODIFUSAO A presidente Dilma Rousseff com o vice presidente, Michel Temer durante cerimonia de anuncio dos criterios de adaptacao de outorgas de radiodifusao AM para FM, no Palacio do Planalto, em Brasilia. FOTO:DIDA SAMPAIO/ESTADAO

Finalmente, soubemos o resultado deste longo processo de impeachment: com o fim da votação no Senado Federal, por 61 votos, Dilma Rousseff é afastada da presidência. Michel Temer passa de "vice-decorativo" a presidente até 2018. Nestes 100 dias de governo Temer, os indicadores econômicos também andaram esboçando melhora.

Importante ressaltar que qualquer um dos os efeitos positivos observados podem ser decompostos em 3 partes, cada uma com um peso diferente, e que, juntos, compondo o efeito total: “Efeito Temer” + “Efeito fundo do poço” + “Alguma ajuda externa”.

O efeito Temer é a pura e simples retomada de confiança de que a economia brasileira vai começar a fazer os ajustes necessários, principalmente os de natureza fiscal. É uma espécie de crédito que está sendo dado ao governo interino. O efeito fundo do poço ou efeito Tiririca - pior que tá não fica - indica que a economia realmente chegou ao desastre completo e inicia uma tímida retomada. Finalmente, o efeito internacional, com o FED indicando uma subida de juros ainda mais frouxa, somada ao risco BREXIT e as taxas de juros em patamar negativo ao redor do mundo contra o juros de 14,25% do Brasil, atrai capitais e ajuda a diminuir o risco e explica em boa parte a queda do dólar em 2016.

Vamos começar com o indicador que mais subiu desde a entrada de Temer, a Bolsa de Valores. O efeito Temer bate forte em conjunto com o efeito externo, e é nítido o interesse do investidor externo em um Brasil pós Lava-Jato e em empresas bastante depreciadas em bolsa. Entre a mínima do período Temer, em vermelho no gráfico, o Ibovespa ganhou 19%.

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Ibovespa em pontos; Fonte: BM&F Bovespa

Para capturar bem o otimismo externo, podemos olhar outra métrica interessante, essa mais voltada pra risco em si, o credit default swap, CDS. O CDS indica o risco do país dar um calote externo, e quanto menor, melhor. Considerando o governo Temer, o CDS recuou em média 100 pontos, trazendo o Brasil para um patamar mais próximo de emergentes com alto risco. Começou 2016 próximo a faixa dos 500 pontos, e conforme o processo de impeachment avançava era nítida a queda do CDS para patamares mais próximos de países de alto risco como Turquia e Russia.

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CDS - Credit Default Swap; Fonte: Bloomberg

Em seguida, podemos olhar a melhora da expectativa dentro de casa. Analisando números do Boletim Focus ao longo de 2016 fica claro o ganho de confiança do mercado com o Governo. A expectativa da taxa de juros para o fim de 2016 se elevou um pouco, o que não é de todo ruim, mostrando que o mercado observa um certo comprometimento da nova gestão do Banco Central de tentar trazer a inflação de 2017 para a meta. Considerando o fato que 2016 é um caso perdido. Para 2017 a expectativa de inflação tem se aproximado cada vez mais da meta, com mais intensidade após Temer ter assumido.

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Expectativas IPCA - Relatório Focus; Fonte: Banco Central do Brasil

Para 2016, a expectativa de inflação aumentou ao longo do governo Temer e a distância de quanto vai fechar o IPCA em relação à meta prevista pelo Banco Central cresceu, pouco, mas cresceu. Vale lembrar que boa parte do descontrole inflacionário vem de uma política fiscal equivocada e uma política monetária bastante frouxa, ambas praticadas no governo Dilma.

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Desvios das expectativas do IPCA em relação a meta de inflação; Fonte: Banco Central do Brasil; Elaboração Própria

Em penúltimo vem os indicadores industriais, nitidamente os que mais melhoraram desde que Temer assumiu, pode ser uma mescla de efeito Temer com o efeito fundo do poço. Com a atual melhora da confiança é possível arriscar-se a dizer que estamos começando a sair do fundo poço, devagar, mas saindo...

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Índices de confiança da indústria; Fonte: FGV

Por último, e não menos importante, um indicador de atividade, deprimente, porém revelador do estrago que vem acontecendo na economia.  Desde 2016 o IBC-br, índice de atividade mensal do Banco Central caiu mês a mês, porém em junho, último dado anunciado, ele andou positivamente em relação ao mês anterior, pela primeira vez em mais de 1 ano, indicando que uma recuperação da atividade pode estar a caminho. Aqui vale lembrar que é muito difícil que em apenas um mês de governo Temer a atividade tenha voltado a andar, e sim indica um efeito “fundo do poço” pura e simplesmente. E que o ganho de confiança de um novo governo apenas pode acelerar a saída. Não atrapalhar a economia agora, com medidas malucas, já seria uma grande ajuda...

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IBC-br; Fonte: Banco Central do Brasil

Agora basta aguardar quais serão as próximas medidas de um “oficial” governo de Michel Temer, caso o Impeachment se concretize no Senado da república. É necessário dizer que melhoras da economia precisam ser vistas com muito cuidado, algumas podem ocorrer de melhoras criadas pelo governo, outras é pelo simples ajuste do ciclo econômico. Afinal de contas, estar no fundo do poço e se levantar alguns centímetros já é considerado uma melhora, não é mesmo?

Mas com o crédito dado pelo mercado ao novo governo é melhor acreditar que se está ruim com Temer, seria ainda pior sem ele...

victor

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Sobre Victor Candido 42 Artigos
Mestrando em economia pela gloriosa Universidade de Brasília (UnB). Já pesquisou nos campos de economia ecológica, história econômica e política monetária, tem artigos publicados na Folha de São Paulo, Gazeta do Povo, UOL e revista de Economia da Faap. Atualmente é pesquisador assistente do CPDOC (O Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil) da FGV-RJ. Já trabalhou no mercado financeiro na área de operações e pesquisa macroeconômica. Graduou-se em economia pela Universidade Federal de Viçosa (UFV-MG).