Sopa indigesta de letrinhas: o caso dos partidos políticos brasileiros

"A tua piscina tá cheia de ratos

Tuas ideias não correspondem aos fatos"

Trecho de “O tempo não para”, de Cazuza

 

Nesta modernidade líquida em que vivemos, também os conceitos são cada vez mais fluídos, a ponto de um grupo político que se nomeia BRASIL LIVRE apelar para a moral e os bons costumes e adotar táticas autoritárias – sob o argumento de que promover boicote é um direto democrático – para protestar contra uma exposição que abordava a temática LGBT, questões de gênero e de diversidade sexual.

Não deveria surpreender. Afinal, quando o assunto é fluidez de conceitos, não há como negar que o Brasil sempre foi um país a frente de seu tempo. Basta pensar nas contradições entre o nome e a história de nossos partidos políticos.

O termo progressista, por exemplo, ao menos no que diz respeito a valores, costuma estar associado à defesa de causas como legalização do aborto, da maconha e direito à diversidade sexual. Pois bem.

O nosso Partido Progressista (PP) tem sua origem na Aliança Renovadora Nacional (Arena), criada em 1966 e base de apoio, veja só, da ditadura militar, nacionalista e conservadora. Virou Partido Democrático Social (PDS) em 1980, para, em 1993, mudar novamente de nome, para Partido Progressista Reformador (PPR).

Em 1995, mudou de novo, para Partido Progressista Brasileiro (PPB). Em 2003, virou simplesmente PP, partido pelo qual o deputado Jair Bolsonaro – sim, ele mesmo – foi eleito nas últimas eleições.

Aproveitando a onda de repaginação das velhas e desgastadas siglas, o PP, agora, quer mudar de nome para Progressistas, simplesmente – aí já seria demais para o Bolsonaro, que migrou para o Partido Social Cristão (PSC) em 2016.

O Democratas (DEM), por sua vez, antigo Partido da Frente Liberal (PFL), foi formado em 1985 por, veja só, dissidentes do PDS, este derivado da Arena, base de apoio da ditadura militar, conforme já foi dito. O partido, agora, cogita alterar o nome para Mude – para que tudo fique como está, completaria Lampedusa.

Democratas, por sinal, um partido de direita no espectro ideológico, nos remete ao Partido Democrata norte-americano, mais à esquerda. Também não se trata de um caso isolado.

Podemos, nome do partido de esquerda surgido na Espanha como alternativa aos partidos tradicionais, tornou-se, aqui no Brasil, uma mera marca, brand, adotada para tentar alavancar o até então – pouco expressivo – Partido Trabalhista Nacional (PTN).

Yes, we can. Só não se sabe o que. Conseguir cargos no segundo escalão, talvez? Mais um partido nem de direita, nem de esquerda, nem de centro – para lembrar a famosa definição de Gilberto Kassab ao seu então recém-criado Partido Social Democrático (PSD).

Uma coisa é certa: si hay gobierno, o Podemos haverá de estar dentro. Sempre atento, porém, à direção do vento...

Assim como progressista, liberal é outro termo que costuma estar associado à modernidade, à defesa da diversidade e da liberdade, claro, seja de expressão ou de pensamento. Em termos econômicos, liberais são aqueles que defendem as virtudes do livre mercado e criticam o excesso de intervencionismo estatal.

Sim, é perfeitamente plausível ser liberal em termos econômicos e conservador no que diz respeito a costumes e valores.

O nosso Partido Liberal (PL), por exemplo, de tão liberal e conservador que era, resolveu unir forças com o nacionalista Partido de Reedificação da Ordem Nacional (PRONA) – espécie de releitura da Arena – e, em 2006, virar Partido da República (PR).

Avante!

Sigamos em frente?

Não, Avante é o novo nome que o inexpressivo Partido Trabalhista do Brasil (PT do B) quer adotar. Avante! – para o passado, poderia ter dito Millôr Fernandes.

O vazio de significado das legendas brasileiras é tamanho que já foi capaz de proporcionar situações absurdas como a do Partido da Mulher Brasileira (PMB), que perdeu recentemente o seu último deputado – homem –, e a candidatura de Paulo Skaf, presidente da Fiesp – símbolo, ainda que decadente, do grande capital nacional –, a governador de São Paulo pelo Partido Socialista – sim, Socialista – Brasileiro (PSB) em 2010.   

Paulo Skaf, por sinal, que também se aproveita da elasticidade dos conceitos por aqui para dizer que defende uma economia liberal, de mercado, de mais concorrência e iniciativa privada ao mesmo tempo em que não abre mão nem da proteção à indústria nacional nem da contribuição compulsória que financia Fiesp, Sesi e Senai, conforme bem apontado pelo economista Marcos Lisboa em artigo recente na Folha.

O Movimento Brasil Livre (MBL), assim, apenas se insere em uma longa tradição brasileira e não passa de mais um amontoado de palavras vazias de significado nesta sopa indigesta de letrinhas que é a política nacional. Para ser mais honesto, poderia ao menos mudar de nome para Movimento Brasil Livre do PT ou Movimento Brasil Livre das Esquerdas.

O MBL, por sinal, parece, na verdade, mera derivação de uma das poucas siglas que não temeram dizer seu verdadeiro nome: a Tradição, Família e Propriedade (TFP).

Fossem simplesmente slogans vazios, seria apenas irônico. Entretanto, por trás de conceitos supostamente nobres escondem-se objetivos obscuros e projetos de poder.

O MBL, por exemplo, teve um papel importante na derrubada do governo petista, no cancelamento da exposição Queermuseu pelo Santander, assim como pode influenciar as próximas eleições, conforme sugere análise de Jose Roberto de Toledo publicada recentemente no Estadão.

Segue atual, assim, a famosa frase de Oliveira Viana referente aos partidos políticos brasileiros do Segundo Reinado: nada mais conservador do que um liberal no poder.

Vitor Augusto Meira França
Economista pela USP, onde também cursou Letras, mestre em Economia pela FGV-SP e professor universitário

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