Trump, Brexit e a economia: o que o Brasil tem a ensinar (a não fazer)

O petróleo é nosso”. Getúlio Vargas, 1948/Lula da Silva, 2009
Hoje, é imperativo defender a indústria brasileira e nossos empregos da concorrência desleal”. Rousseff, 2011
Restrict free trade to keep jobs in US”. Donald Trump, 2016
We must take back our borders”. UKIP (Partido da Independência do Reino Unido), 2016

O que há de comum entre as citações acima? Se um dia escrever uma prova de vestibular, acredito que essa dará uma ótima pergunta sobre ideologias econômico-sociais. Mas, como não é o caso, deixo aos leitores a reflexão sobre o que há em comum entre as célebres (ou não tão célebres assim) citações acima, enquanto começo com uma anedota.

Março de 2011. Uma forte e estridente voz acompanhada de uma pequena multidão entusiasmada interrompe minha corrida matinal nos arredores do Jardim de Tuileries, em Paris.  Meu francês rudimentar permite-me entender parte do discurso acalorado “vocês não estão cansados de ver seus produtos, seus empregos, suas moradias, tudo roubado por imigrantes? As multinacionais tomarão seu mercado, e os estrangeiros o seu salário. A globalização perversa levou a sociedade francesa a esse estopim, e não devemos permitir que continue o fazendo. Me dê seu voto que eu darei a França de volta aos franceses”. Era nada mais nada menos que Marine Le Pen, levando ao palanque seus ideais anti-imigração e antiglobalização, e suas soluções baseadas no protecionismo comercial e social, fechados atrás de fronteiras.

À época, achei absurdo. Esse discurso não poderia convencer ninguém, não era possível. Afinal, a França era próspera, desenvolvida, pacificada, e não só integrante como também parte importante da União Europeia. Ledo engano. Apenas 5 anos depois, o partido de Le Pen só cresce, e cá estamos discutindo a saída do Reino Unido do mesmo projeto político-econômico. E não para por aí. Ao redor da Europa, florescem partidos nacionalistas inspirados pela “política do sangue”, do AfD na Alemanha, ao SVP na Suíça e o DPP na Dinamarca, passando pelo FPÖ na Áustria [1]. Enquanto isso, do outro lado do oceano, ecoa a voz de um Republicano que promete proteger os norte-americanos das forças perversas da globalização, partindo dos vizinhos latinos ao gigante chinês, passando por sanguessugas escondidos atrás de tratados de livre comércio.

Onde foi que eu errei? Pergunta o liberalismo econômico. De fato, se tivesse uma simples resposta para essa pergunta, já estaria rica. Portanto, não me proporei a respondê-la neste artigo. A realidade é que “Trumps e UKIPs” (partido a favor do Brexit no Reino Unido) acumulam apoio a despeito de fatos e projeções. Um recente estudo da OCDE, por exemplo, estima que o PIB do Reino Unido seria 5% menor em 2030 se abandonasse a UE, comparado ao PIB se permanecer no bloco, além de ser altamente remota a probabilidade que o país estabeleça novos acordos livre comércio em termos tão vantajosos quanto o possui dentro do bloco [2]. Ao mesmo tempo, o isolamento comercial e afastamento das cadeias globais de valor por parte dos EUA dificilmente protegeria empregos e indústrias menos competitivas na maior economia do mundo [3].

É nesse contexto que voltamos às citações. Se nem dados nem a própria experiência histórica do hemisfério norte ocidental foram o suficiente para mostrar as mazelas causadas pelo nacionalismo excessivo tanto no campo econômico quando social, talvez o faça uma espiadinha aqui deste lado do mundo, onde o para sempre emergente Brasil confiou por décadas em uma política de proteção e isolamento comercial.

Como pano de fundo, as famosas políticas de industrialização por substituição de importações (ISI) e proteção à setores campeões. Com raízes que remontam às longínquas décadas de 1940, com Vargas e o famoso petróleo que era nosso, a ideologia passou por JK e seus 50 anos em 5, os quais dedicados à indústria automobilística a quem concedeu tudo e mais um pouco na esperança de transformar o Brasil em um gigante exportador de carros. Alguns anos depois, encontrou terreno no militarismo de Geisel, no impulso para que o país se tornasse autossuficiente em todos os setores, ignorando os benefícios do comércio internacional e das vantagens comparativas. Andando mais um pouco, chegou então aos governos PT dos últimos 13 anos. Munidos de popularidade e aumento de arrecadação via formalização e exportação de commodities, Lula II e Dilma I a acolhem com anseio, escolhendo a dedo erros do passado ao unir o protecionismo da ISI à política de campeões nacionais.

O resultado está aí: o Brasil é uma das economias mais fechadas do mundo por qualquer métrica que se olhe. Em 2014, por exemplo, exportações de bens e serviços representaram apenas 11.4% do PIB, comparado a uma média global de 29,8%, ficando atrás de países como Afeganistão e Sudão [4]. A indústria manufatureira é improdutiva e de baixa competitividade, e sua inserção no mercado mundial é pífia. Para ilustrar, a participação de produtos manufaturados na pauta exportadora do país caiu mais de 30% nos últimos 15 anos, enquanto o Brasil mesmo tornando-se a 7a maior economia do mundo, ocupa a 25a posição em questão de comércio exterior [5].

Já a política de campeões nacionais via crédito subsidiado pelo BNDES não somente distorceu a alocação de recursos, como também enfraqueceu o poder da política monetária, além de contribuir para o aumento da dívida pública – uma vez que o Tesouro Nacional capta a taxas de mercado, enquanto o BNDES empresta a taxas subsidiadas (TJLP). A Petrobrás, uma das poucas “campeãs” a que se fazia sentido chamar, afoga-se em corrupção e dívidas oriundas de má gestão e absurdas leis de conteúdo nacional.

Finalmente, o foco no doméstico (principalmente a partir de Dilma I) levou o país a apequenar-se no cenário externo, onde demandas como um assento no Conselho de Segurança da ONU tornaram-se sonho distante por parte de diplomatas tupiniquins e ambição irreal e desnecessária em rodas de discussão de alta hierarquia internacional.

Em suma, se minha voz tivesse alcance o suficiente, eis o que diria à apoiadores de Trump, Brexit e afins: mudem de rota enquanto é tempo, pois nós brasileiros falamos com propriedade - esse não é o caminho. #FicaaDica!

rachel

Referências

[1] http://m.folha.uol.com.br/colunas/demetriomagnoli/2016/06/1783077-brexit-o-fim-do-mundo.shtml

[2] http://www.oecd.org/economy/oecd-study-finds-britons-will-be-paying-a-heavy-brexit-tax-for-many-years-if-uk-leaves-eu.htm

[3] https://piie.com/commentary/op-eds/trumps-trade-policy-big-loser

[4]http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2015/07/1661171-so-5-paises-exportam-menos-que-o-brasil-em-proporcao-do-pib.shtml

[5]Sunil Bharti Mittal, em evento Brazil Business Day, ICC, Brasil, 2016

Comentários

mm
Sobre Rachel de Sá 36 Artigos

Formada em Relações Internacionais pela PUC-SP (onde aproveitou para dar um pulinho no Master da Sciences-Po Paris), rendeu-se ao seu interesse por economia, e concluiu um mestrado em Economia Política Internacional na London School of Economics. Contrastando com os outros membros do terraço, que segue com afinco desde o primeiro post, veio para dar uns pitacos diferentes a partir do olhar de alguém que vê além dos números, e decidiu explorar a linha tênue entre economia e ciência política.

Tem experiência no setor de compliance, e atualmente trabalha como analista econômica no Consulado Britânico em São Paulo.

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será divulgado.


*