A virtude do centro democrático

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Demonstrators hold a rally Monday, Feb. 20, 2017, in Salt Lake City. The rally is one of several Not My Presidents Day protests planned across the country to mark the Presidents Day holiday. Protesters are criticizing President Donald Trump's immigration policies, among other things. (AP Photo/Rick Bowmer)

Do ponto de vista ideológico, sempre me posicionei naquele espaço mais ou menos impreciso da social-democracia, um espaço suficientemente abrangente em que cabem mercado e Estado, liberdades individuais e progressismo, bem-estar e competição. Na geografia ideológica, o território da social-democracia compartilha o continente político na fronteira do centro – à esquerda, porém. Se estivesse nos Estados Unidos, seria um liberal; aqui no Brasil, sou um petralha esquerdista mortadela ralé. Infelizmente, o debate ideológico brasileiro de hoje só admite o vocabulário do extremismo.

Acompanhar o cenário político atual a partir da centro-esquerda é duplamente melancólico. De um lado, há a discordância ideológica com a inclinação política hoje majoritária – penso que a participação do Estado na economia é indispensável para civilizar e qualificar a competição mercadológica, inclusive para corrigir imperfeições eventuais no ambiente de competição (o Estado regulador). Não só isso, o Estado exerce uma legítima faculdade de redistribuição de renda e promoção de bem-estar social, e que deve ser exercida, evidentemente, dentro dos limites incontornáveis da responsabilidade fiscal e da eficiência dos gastos.

A discordância ideológica, no entanto, é o eixo fundamental que arquiteta as instituições da democracia, de sorte que reconhecer a pluralidade de inclinações políticas é o mais contundente testemunho de cidadania. Se a maioria eleitoral de 2018 escolheu um projeto de país do qual discordo, cabe a mim o papel legítimo e indispensável de vigilância democrática.

A despeito disso, é o extremismo bolsonarista que assusta minha tendência ao centro político, principalmente quando sufragado pela maioria inconteste do eleitorado. Jair Bolsonaro, na condição de presidente eleito, personifica as mais urgentes pretensões e anseios da população, e eu lamento por isso. Lamentaria, com igual intensidade, uma vitória da extrema esquerda, pela simples razão de reconhecer no centro ideológico - à esquerda ou à direita - o espaço privilegiado para a gestação de consensos mínimos, o pressuposto para qualquer projeto razoável de nação.

O extremismo, qualquer que seja sua configuração ou tonalidade, aprisiona os adversários em uma jaula de ódio e incomunicabilidade, prejudicando, ou mesmo impedindo, o engajamento comum - não um ideal ingênuo de harmonia e concórdia na distopia da unanimidade, mas a submissão dos conflitos ao imperativo da institucionalidade. Sendo improvável que os antípodas compartilhem a mesa da civilidade, que seja o centro democrático o espaço de convergência possível para um projeto republicano de nação.

Nas eleições, o radicalismo submeteu as paixões nacionais à ditadura da polarização. Agora que a tempestade consentiu uma mirada sobre o horizonte – ela não passou, mas talvez tenha amenizado –, é hora de as fileiras do centro se projetarem no debate político. É indispensável, portanto, que os brasileiros do centro democrático verbalizem os consensos mínimos que a institucionalidade republicana determina - não só o respeito ao resultado das eleições, mas o compromisso com exercício estritamente constitucional dos cargos eletivos.

Nosso dever para com o país, é o de resgatar o debate político do pântano extremista em que a radicalização eleitoral o atolou, de modo que o Brasil retome uma agenda positiva de prosperidade econômica e distribuição de renda, os verdadeiros desafios civilizacionais que o horizonte político reclama. No final do dia, o silencioso centro democrático deve assumir para si a responsabilidade histórica e urgente de conduzir as paixões para a trilha da constitucionalidade, a única que atravessa as margens do progresso. A agenda do desenvolvimento econômico, social e democrático passa necessariamente pela defesa apaixonada das instituições, e todo progressista deve gritar esse dever de cidadania.

Felipe Eduardo Lázaro Braga

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