Carta de um rentista frustrado ao presidente do Banco Central

Wall Street: Money Never Sleeps - Gordon Gekko (Michael Douglas) © 2010 Twentieth Century Fox Film Corporation

São Paulo, 02 de abril de 2018,

À vossa excelência, Sr. Ilan Goldfajn

Venho por meio desta carta manifestar formalmente o imenso descontentamento da classe rentista com a condução da política monetária  em seu mandato.

Desde tempos longínquos, nós, rentistas, odiados por uma grande parcela da população, participamos ativamente do financiamento da máquina pública e de sua enorme dívida. Pelo menos desde o império, com D. Pedro e depois com a República, o capital especulativo sempre encontrou no Brasil uma forma arriscada, porém muito lucrativa, de se reproduzir livremente. Somos uma classe tradicional e respeitada.

Sim, ao longo do caminho houve calotes, crises e vários planos econômicos, mas as taxas de retorno anuais acima de dois dígitos,líquida de impostos, sempre compensaram no longo prazo e construíram uma história bela e gloriosa para os rentistas e suas famílias..

Mesmo com o advento deste tal Plano Real, que trouxe confiabilidade para a moeda, derrubando a inflação e sanando grande parte das contas públicas, a áurea das elevadas taxas de juros foi mantida. A tradição da República rentista foi preservada  e a SELIC permaneceu elevada por muito tempo.

Tivemos até mesmo um episódio caricato, uma aventura empreendida em meados de 2013 pelo governo petista, mas que não passou de um sonho de verão. A SELIC foi levada para patamares muito baixos, mas  rapidamente a normalidade e o rumo natural das coisas foi resgatado.

Agora, o senhor Ilan Goldfajn e mais um bando de economistas ditos “liberais bem-intencionados” vêm há quase dois anos atacando este brilhante legado . A nossa querida taxa básica de juros, que em tempos recentes fora de mais de 14% ao ano, agora se encontra no pífio patamar de 6.5% ao ano e já com perspectivas de cortes adicionais.

Onde foram parar as tradições dessa República? Com que  credibilidade e instrumentos pretendem reduzir a taxa neutra da economia? Ancoragem de expectativas? Redução da meta de inflação? Redução estrutural do spread bancário? Redução da inadimplência? Programas de educação financeira?

Quanta audácia! Um verdadeiro ultraje.

Você sabe o quão era prazeroso receber mensalmente aquele 1% ao mês livre de risco? O quão delicioso era comprar papéis do governo para 10 anos com uma taxa de 16% no auge da crise? Aquela LCI ou LCA com zero imposto de renda rendendo mais de 14% ao mês?

Nossos patrimônios, todos investidos em títulos de renda fixa, estão sob grande risco! O padrão de vida de nossas famílias está correndo perigo! Toda a dedicação dos rentistas, que há  décadas ajudam esse país, está sendo esquecida. Nos sentimos traídos!

Estamos vivendo nosso maior pesadelo e chegando à consequência mais indesejada por toda a classe: sermos obrigados a investir na economia real para buscar maiores retornos. Impensável. Não nesse país.

Por fim, ressalto que o atual governo recebeu todo nosso apoio durante o processo de impeachment e que, na época, nosso  objetivo era manter as instituições brasileiras a salvo do ataque bolivariano petista. Contudo, fica evidente que fomos vilmente traídos e que não possuímos voz ativa neste governo. Mas fica aqui o aviso: continuaremos a operar anonimamente nos bastidores, de forma sutil, precisa e eficiente, para resgatar nosso espaço e fazer funcionar tudo como sempre foi, com taxas de juros elevadas, inflação galopante, uma dívida pública instável e um governo gastão.

Os rentistas nunca se esquecerão.

Assinado: Sr. Rentista

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Sobre Pedro Lula Mota 54 Artigos
Mestrando em Macroeconomia pela FGV-SP, é economista pela UNICAMP como passagem pela Universidade do Porto - Portugal. Admirador da arte da fotografia, principalmente de lugares extremos e excêntricos.