Como a economia irá contribuir nas eleições?

James Carville marqueteiro de Bill Clinton (Aposta de Mitt Romney e Paul Ryan)

A economia brasileira lentamente tem dado sinais de que o período de estagnação e declínio dos anos 2014-2016 pode logo se tornar uma amarga lembrança. O consumo tem puxado a retomada dos gastos, o que, no curto prazo, pode ser bom para retomar o ânimo. Mas não dá para contar apenas com ele se quisermos de fato crescer consistentemente. Para isso, precisamos de investimentos. Estes, ainda tímidos, aguardam que as nuvens desse horizonte eleitoral nublado se dissipem.

Após a ditadura militar, a conjuntura econômica mostrou-se fator importante – quando não decisivo – para o resultado do sufrágio universal. Em 1989, eleição que de vez em quando somos tentados a comparar com a que está por vir (dada a fragmentação nas candidaturas), mas que ocorreu sozinha, sem o pleito para governadores, por exemplo, o que muda a dinâmica das articulações regionais e encerra as semelhanças, após planos de estabilização fracassados e com os preços aumentando em mais de 15 vezes, em média, de um ano para o outro, o debate sobre as altas taxas de inflação e o que fazer no curto prazo era mais do que esperado. O confisco, não.

Em 1994, o sucesso do Plano Real no combate à (hiper)inflação fez com que FHC, outrora Ministro das Relações Exteriores que ficou sabendo pelos meios de comunicação que iria ocupar o então inóspito posto de Ministro da Fazenda, mas que conseguiu montar uma equipe econômica de alta qualidade e a articulação necessária junto ao Congresso para implementar o plano, não só fosse competitivo, como viesse a lograr a vitória no primeiro turno, saindo atrás nas pesquisas.

Quatro anos depois, após termos enfrentado a crise no México (1994-1995), na Ásia (1997) e na Rússia (1998), as oscilações de curto prazo estariam novamente na pauta e a ajuda do FMI não só foi necessária, como ponto importante de discussão, bem como a mudança de regime macroeconômico, que viria a ser implementada em 1999, quando a crise chegou ao Brasil.

Em 2002, após a crise na Argentina em 2001 e a crise energética no Brasil no mesmo ano, o medo do que poderia vir a ser transição antecipou inclusive a discussão sobre os rumos da política econômica, suscitando a articulação e publicação de uma carta de intenções aos brasileiros, por parte do partido que viria a se sair vitorioso no pleito. As escolhas da equipe econômica e das políticas logo no início do mandato estabilizaram a economia. Na eleição seguinte, há quem coloque na conta da economia que vinha em uma trajetória de crescimento forte e com baixa inflação, a superação do imbróglio político iniciado no ano anterior e a reeleição do presidente.

O ano de 2010 brindou a economia com uma recuperação forte da crise financeira internacional, e os 7,5% de crescimento do PIB frente ao ano de 2009, no qual o jornal The Economist havia colocado o Cristo Redentor decolando em sua capa, sem dúvida contribuiu para a eleição da candidata do governo. Quatro anos depois, as discussões sobre taxa de juros e inflação, bem como a independência do Banco Central, estariam de volta à mesa.

E agora?

Se a recuperação continuar como o mercado financeiro espera, a maior contribuição da conjuntura econômica será a de ser uma mera coadjuvante. Embora com um crescimento mais acelerado do que em 2017, ainda não será suficiente para dominar a pauta. A inflação em torno da meta também ajudará na sensação de bem-estar, mas depois de alguns anos de inflação muito alta, ainda demora para que a população fique confortável com a velocidade do aumento dos preços (diminuímos a inflação, mas num nível de preços ainda incômodo).

Teremos uma oportunidade para debater questões importantes para o longo prazo, como o papel do Estado, a qualidade e a avaliação dos serviços públicos, como nos organizarmos enquanto sociedade (social, política e economicamente). A maior contribuição da economia, portanto, será não atrapalhar. Isso, claro, se não houver nenhum evento que, mais uma vez, traga instabilidade econômica e empobreça o debate com questões de curto prazo, agenda que deveria ter sido superada na década de 1990.

João Ricardo Costa Filho
Professor do Ibmec-SP, do Mestrado Profissional da EESP-FGV e da FAAP.

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