Dilma, Trump e a aceitação da democracia

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No dia de ontem o mundo passou a conhecer, após apuração das eleições nos EUA, quem comandará a maior economia do mundo a partir do ano que vem: o magnata do mundo dos negócios Donald Trump [1]. Muito se especula sobre quão danoso isso pode ser – ou até, eventualmente, quais as benesses possíveis advindas deste resultado. Porém, algo que não faz sentido é questionar a legitimidade da escolha social.

Tal como em 2014 no Brasil, a eleição dos EUA em 2016 teve uma troca de farpas intensa entre os candidatos dos dois partidos majoritários, a polarização tomou conta das discussões sociais e o mercado havia precificado que um dos lados sairia vencedor (ao menos essa foi a impressão inicial) [2] – o que, é claro, não ratifica quem seria a melhor escolha para a economia norte-americana hoje e nem brasileira àquela época e, por consequente, para os mercados financeiros globais. Por aqui dois anos atrás tivemos uma imensa quantidade de críticas ao processo, a argumentação de que houve uma doutrinação de boa parte da população (utilizando-se inclusive da acusação de que o “Bolsa Família compra votos”) e até o descrédito de parte da sociedade a aceitar o resultado do pleito. Se há algo a não duvidar neste momento é que tudo isso deve ocorrer nos EUA nos próximos meses também, dada a polarização alcançada – e, como proxy, temos que o resultado foi apertado em quase todos os 50 estados [3].

Winston Churchill citou - ou ao menos é atribuída a ele esta frase - que "a democracia é o pior dos sistemas de representação, com exceção de todos os outros". A menção a esta célebre citação faz muito sentido no dia de hoje, em que muitos discursos de “o povo não sabe o que está fazendo” ou “essa escolha social está errada” estão sendo proferidos mundo a fora.

A constatação é direta: as escolhas sociais na democracia resultam da opção da maioria e é exatamente isso que este termo representa em sua concepção linguística. É esse o tal poder que emana do povo. Ou seria apenas quando o seu lado de predileção sai vitorioso?

Seria intelectualmente desonesto não considerar fatores como o populismo e a demagogia em épocas eleitorais. Apesar da diferença entre o papel do Estado no Brasil e nos EUA ser notável – nesse ponto, é importante ressaltar que por aqui as decisões em todas as esferas costumam passar muito mais pelo poder público do que por lá – esse resultado eleitoral sinaliza que discursos como “vamos salvar nosso país exclusivamente ampliando a participação do conteúdo nacional em nossa produção” e “vamos ao futuro, só dependemos de nós” rendem muitos votos. Nesse contexto, apesar de o passado recente de países que optaram pela via protecionista e isolacionista sob o manto de um líder populista (como nós aqui na terra tupiniquim) sinalizar para o fracasso econômico, é ainda mais desonesto intelectualmente fazer afirmações sobre como estes fatores tornam inválido o resultado de um pleito. Repito: só é democracia quando o seu lado de predileção vence?

Os mercados globais no dia de hoje reagem com perdas e aumento de aversão ao risco diante de contraditórios discursos emitidos pelo agora representante eleito da maior economia do mundo, como o aumento da nacionalização, a revisão de acordos comerciais já assinados (de acordo com critérios que variam bastante a cada novo pronunciamento) e a redução da relação diplomática com países de economia considerável, como a China e o México. Por outro lado, ao medo da concretização de tais medidas soma-se a incerteza, uma vez que ainda não é claro qual a real capacidade de Trump em colocar suas ideias vendidas para eleitores em prática. Boa parte de suas propostas precisará de aprovação do congresso norte-americano para ser efetivada. Além disso, as mesmas deverão ser validadas considerando-se importantes tratados e alianças internacionais com força de lei federal (no caso de “self executing treaties”) [4]. Isso possivelmente será um fator para acalmar os que pensam que o “fim do mundo será decretado nos próximos dias” – pois, mesmo que a maioria das casas legislativas tenha sido garantida pelo partido Republicano [5], ainda existem discordâncias internas sobre o modelo de Trump (se é que podemos defini-lo como clareza).

De qualquer modo, parece extremamente prematuro prever de um lado “o melhor governo da história dos Estados Unidos” e de outro “o fim do mundo”. É preciso ressaltar que uma das características mais marcantes de Trump é justamente sua inconsistência; deste modo, podemos esperar tanto que suas ideias se traduzam em agressividade quanto em um surpreendente soft approach. O que deve ficar como aprendizado deste evento – assim como deveria ter ficado das eleições de 2014 – é que a escolha da maioria, quando requisitada, deve ser respeitada. A democracia precisa sair do “enquanto meu lado é vencedor estarei concordando” e caminhar em direção ao “hoje podemos perder, mas amanhã tornaremos a ganhar”. Honestamente: qualquer coisa fora disso é ou um péssimo discurso de quem não sabe perder ou um apreço sutil pelo fim da democracia - ou, como diria Millôr Fernandes: "democracia é quando eu mando em você, ditadura é quando você manda em mim".

 

Caio Augusto – Editor Terraço Econômico

 

Notas:

[1] http://www.valor.com.br/internacional/4770803/trump-e-eleito-presidente-dos-eua

[2] Em 2014: http://oglobo.globo.com/economia/negocios/reeleicao-de-dilma-faz-petrobras-ter-maior-queda-da-bolsa-com-perda-de-12-dolar-sobe-r-252-14372103 ; em 2016: http://www.infomoney.com.br/mercados/acoes-e-indices/noticia/5727142/mercados-mundiais-tem-dia-panico-apos-vitoria-trump-etf-brasileiro

[3] http://edition.cnn.com/election

[4] https://www.asil.org/insights/volume/2/issue/5/international-agreements-and-us-law

[5] http://g1.globo.com/mundo/eleicoes-nos-eua/2016/noticia/2016/11/republicanos-mantem-controle-do-congresso-dos-estados-unidoss.html

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