O impeachment virou a página política, mas (ainda) não a econômica

O Brasil vive um momento histórico: após diversos meses de processo e análise, o impeachment de Dilma Rousseff foi votado pelo Senado Federal e a decisão tomada foi de afastá-la definitivamente de seu mandato. Assume Michel Temer. Fim dos problemas? Estamos longe disso, na verdade!

Sem dúvidas, encerra-se neste momento um momento político no país em que o direcionamento se dava mais para a ampliação de direitos e a negação (ou tentativa disso, enquanto foi possível) de seus custos. Inicia-se um tempo em que começam a ser encarados estes custos. Mas encará-los, somente, não basta. Praticamente todo brasileiro conhece – ou pior, vive – a situação de crise que o país passa, e sabe que chegamos aqui não só por ampliação dos gastos como também por promessas não-críveis relativas à diminuição deles quando a conta começou a apertar.

Temos, neste momento, uma oportunidade de discutir com certa rapidez alguns tópicos que até então estavam parados, o que significa que diversas reformas podem ser aprovadas e isso deve levar a um avanço da economia – esta que tem hoje números impressionantemente ruins, como uma taxa de juros de 14,25% a.a., mais de 12 milhões de desempregados e uma queda de renda, em termos reais, acumulada de quase 10% (relativa aos últimos dois anos).

As previsões atuais são de que, dados os questionamentos existentes sobre a legitimidade do processo – mesmo que este tenha sido efetivamente aprovado – e também as concessões que devem ser pedidas a Temer por diversos grupos de interesse, reformas que teriam maior impacto sobre o aspecto fiscal teriam maior dificuldade de serem aprovadas e devem acabar ficando para o pós-2018, ao passo que outras ligadas mais à microeconomia (como investimentos em infraestrutura, privatizações e concessões) devem ter maior facilidade [1].

Dentro do campo de expectativas, temos um princípio de reversão – esta talvez que seja uma soma de “existem mais chances de aprovarmos medidas que mudem a situação” e “chegamos finalmente ao fundo do poço – que sinaliza um caminho melhor pela frente”. Porém, é preciso frisar que todo este conjunto de expectativas precisa de confirmação em atitudes deste novo governo, porque caso isso não venha a ocorrer, é possível sim acreditar numa situação em que a economia siga piorando – uma vez que, a dívida pública, por exemplo, tem um déficit autorizado pelo congresso de R$170,5 bilhões, mas, até as mais recentes análises, já alcançamos os 169 bilhões de reais [2].

Embora o diagnóstico praticamente geral seja o de que a questão fiscal seja o maior impasse a ser superado – inclusive, felizmente, esta também é a visão da atual equipe econômica [3] –, a luta que diversos setores têm promovido por concessões que implicam em aumentos de gastos faz com que a situação possa ser análoga e brevemente descrita pela imagem abaixo [4]:

 

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A questão de como serão definidos os rumos do país – principalmente dado o senso de urgência que a atual situação econômica sinaliza – é ampla, mas é preciso que se inicie imediatamente e que se tenha em mente que os efeitos não são imediatos, mas devem vir ao longo do tempo. Atualmente, em função das expectativas positivas, somos mesmo os “queridinhos” dos investidores [5], mas não nos podemos deixar enganar e pensar que isso por si só seria suficiente para que o crescimento ocorra. Pensar com imediatismo todo o tempo nos trouxe até aqui, e não nos tirará desta situação, certamente – ou, citando Leandro Karnal, “nas últimas décadas tivemos poucos estadistas (aqueles que, para o bem e para o mal, geram mudanças para os próximos 50 anos) e muitos chefes de almoxarifado (aqueles que pensam em repor o que falta no fim de um mês, e só)”.

Não será fácil, mas o caminho é de encarar a situação ou aceitar que ficaremos mais algumas décadas aquém do que podemos ser como país em termos internacionais. Não é hora de comemorar a virada de página na política, mas sim de decidir se começaremos uma nova página também na economia.

 

Caio Augusto de Oliveira Rodrigues

 

Notas:

[1]          http://www.valor.com.br/brasil/4692007/agenda-micro-deve-andar-mais-rapido-que-fiscal

[2] http://economia.estadao.com.br/noticias/geral,rombo-nas-contas-ja-chega-a-r-169-bilhoes,10000068558

[3] http://www.valor.com.br/brasil/4685353/meirelles-recessao-atual-e-causada-basicamente-pela-questao-fiscal

[4] https://www.facebook.com/TirinhasEQuadrinhos/photos/a.1572051879758150.1073741828.1572028333093838/1575401072756564/?type=3&theater

[5]          http://www.infomoney.com.br/mercados/acoes-e-indices/noticia/5452792/especialistas-estrangeiros-cravam-este-inicio-reviravolta-brasil

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Sobre Caio Augusto 41 Artigos
Formado em Economia Empresarial e Controladoria pela Universidade de São Paulo (na maravilhosa FEA-RP), é apaixonado por discutir economia/política e acredita que é possível discorrer sobre tais assuntos de maneira descontraída - o que talvez tenha origem em sua vontade, desde os 12 anos de idade, de ser economista e de pesquisar sobre assuntos afins assiduamente desde a crise econômica mundial de 2008. Atualmente trabalha como gestor financeiro em uma empresa de pequeno porte do interior de São Paulo, acumula recursos para projetos futuros, escreve para o Terraço Econômico e arquiva suas publicações em seu blog pessoal, o Questão de Incentivos. Sonha em deixar algum legado para a discussão econômica e adora o campo das políticas públicas.