Pátria Educadora?

E o salário, ó!

Terraço Econômico | por Leonardo Palhuca

 

E o salário, ó!
E o salário, ó!

 

No dia 1o de janeiro de 2015 a presidente Dilma Rousseff anunciou o novo lema do país: “ Brasil, pátria educadora”. Como qualquer lema, só serve para que uma frase seja decorada caso as ações envolvidas em torno do plano não estejam alinhadas com o que se vocifera.

É sabido que a qualidade da educação no Brasil não é das melhores. Ano após ano os estudantes brasileiros obtém notas bem ruins em exames internacionais em matérias básicas (segundo o PISA de 2012, ficamos em 60º dentre 65 países em Matemática)[1]. Apesar de alguns casos esporádicos de excelência educacional serem noticiados (as pontuais histórias de alunos do ensino público que vão a universidades de ponta, a medalha Fields obtida pelo brilhante Arthur Avila...) a situação é ruim no geral.

Mas será que nossos cérebros são inferiores aos de outros povos? Ou o problema é a forma como lidamos com educação no país? Claro que a resposta é a segunda opção. Tratamos a educação como mais um tema político e renegado aos partidarismos para a manutenção do apoio presidencial. Uma das formas de verificar tal argumento é constatando a longevidade dos nossos ministros da educação. Precisamos verificar se os responsáveis pela pasta pelo menos esquentam a cadeira lá na Esplanada dos Ministérios. Então, vamos aos dados.

Desde a redemocratização, o Brasil teve 16 ministros da educação. Em média, um ministro fica no cargo por 1 ano e 10 meses (excluindo os 2 interinos do período). A tabela abaixo indica o ministro, o presidente e o tempo de permanência no cargo:

Picture2
Fonte: Ministério da Educação [2].

Mais alguma evidência? Bem, olhando pelo lado positivo, os maiores avanços na educação do Brasil no período da redemocratização foram obtidos (surpresa!!!) pelos ministros mais longevos: Paulo Renato e Fernando Haddad.

Durante a gestão de Paulo Renato (nosso campeão de longevidade) foram estabelecidos alguns marcos na educação do Brasil. A universalização do ensino básico foi obtida: segundo dados do IBGE [3] partimos de 83% de crianças de 7 a 14 anos na escola para 97% em 2002. Além disso, evoluímos também no Ensino Médio: saltamos de 62% de adolescentes em idade de frequentar o ensino médio matriculados em 1991 para 82% em 2002. Por fim, reformas que permitiram um maior acesso ao Ensino Superior foram realizadas, como a criação do ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) e a maior abertura de mercado para instituições privadas de ensino.

Já na gestão Haddad, novos programas foram criados ou aperfeiçoados. O ENEM ganhou status de vestibular e passou a ser aceito como avaliação por diversas universidades (tanto para ingresso na instituição quanto para obtenção de bolsas de estudo), o PROUNI ganhou força e programas como o FIES foram melhorados e ampliados o que garantiu maior acesso ao Ensino Superior com financiamentos de longo prazo, além do crescimento do Bolsa Família que, apesar de não ser diretamente vinculado ao Ministerio da Educação, garantiu a maior frequência dos alunos no Ensino Fundamental.

Temos poucas (mas boas) evidências de que para sermos a “Pátria educadora” precisamos manter nossos ministros mais tempo no cargo. Porém, a troca de ministros é comum no Brasil para acomodar interesses partidários e o Ministério da Educação não foge à regra. Com tamanha rotatividade não é possível sequer implementar um plano de longo prazo (quem dirá avaliar e corrigir os erros). E a julgar pela rotatividade na pasta, a presidenta Dilma não leva o lema bradado no início de seu segundo mandato muito a sério.

palhuca

 

 

Notas:

[1] http://www.oecd.org/pisa/keyfindings/PISA-2012-results-brazil.pdf

[2] http://portal.mec.gov.br/index.php?Itemid=945&id=13462&option=com_content&view=article

[3] biblioteca.ibge.gov.br/biblioteca-catalogo?view=detalhes&id=23033

Comentários

mm
Sobre Leonardo Palhuca 103 Artigos
Doutorando em Economia pela Albert-Ludwigs-Universität Freiburg. Interessado em macroeconomia - política monetária e política fiscal - e no buraco negro das instituições.

1 Trackback / Pingback

  1. Clipping da Semana – dia 16/08 a 23/08 | Terraço Econômico 2.0

Faça um comentário

Seu e-mail não será divulgado.


*