Salário mínimo não tem ganho real desde quando?

Economia em Pílula, uma dose de economia no seu dia | por Caio Augusto

Tem sido propagado em diversos meios que o último reajuste do salário mínimo não apresentou ganhos reais aos trabalhadores. Porém, estes mesmos meios esquecem-se de um ponto essencial nesta análise: o referencial temporal.

Explicando brevemente: a ideia de ganho real é aquela em que o aumento supera a perda inflacionária. No caso, fora aplicada entre 2011 e 2015 uma regra definida em lei [1] (“PIB de dois anos atrás + INPC do ano anterior”) capaz de garantir estes ganhos reais, mas anteriormente a este período, os ganhos reais ainda ocorriam.

Neste ano ocorreu um reajuste, mas que não seguiu tal regra completamente e ofereceu um ganho real zero (e nominal 6,5%). A lógica de dizer que o ganho real não ocorreu de um ano para outro é basicamente encarar que observa-se apenas o período de 12 meses nesta conta. Porém, como o próprio gráfico contido em uma dessas reportagens mostra claramente, os ganhos reais existem acumulados de reajustes anteriores:

ganho-real
[2]

Fazendo uma conta rápida, há um ganho real de 59,21% de 2003 até o último reajuste, 14,58% desde o início da década e 2,82% desde 2015 (ano em que a atual crise brasileira iniciou sua trajetória declinante mais voraz). Estes ganhos – que, como já afirmado, estão acima dos índices inflacionários – devem ser desconsiderados totalmente e devemos mesmo encarar que não existe reajuste com ganhos reais no país? Tudo depende do referencial que se preferir adotar. Mas os dados mostram que o salário mínimo vence a inflação ao longo do tempo, então não há real motivo para alarde neste momento.

Um adendo importante: este artigo não é de modo algum uma defesa do fim do processo de valorização real do salário mínimo – só objetiva mostrar que os referenciais utilizados para mostrar valorização ou não fazem muita diferença, e realmente é muito difícil sinalizar que o país estagnou em ganhos reais de salário mínimo olhando os dados.

 

Notas:

[1]          http://www.ebc.com.br/cidadania/2013/07/saiba-como-e-calculado-o-reajuste-do-salario-minimo-no-brasil

[2]          http://g1.globo.com/economia/seu-dinheiro/noticia/salario-minimo-nao-tem-aumento-acima-da-inflacao-pela-1-vez-em-13-anos.ghtml

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Sobre Caio Augusto 24 Artigos
Formado em Economia Empresarial e Controladoria pela Universidade de São Paulo (na maravilhosa FEA-RP), é apaixonado por discutir economia/política e acredita que é possível discorrer sobre tais assuntos de maneira descontraída - o que talvez tenha origem em sua vontade, desde os 12 anos de idade, de ser economista e de pesquisar sobre assuntos afins assiduamente desde a crise econômica mundial de 2008. Durante a graduação participou de um projeto de pesquisa da faculdade que levantou a historiografia econômica do BNDES - por meio de artigos, dissertações, teses, livros e outros - quando este completou 60 anos (em 2012). Querendo ir mais a fundo no tema, realizou uma iniciação científica - e também o trabalho de conclusão de curso - sobre a relação do Banco e o setor de telecomunicações brasileiro. Atualmente trabalha como gestor financeiro em uma empresa de pequeno porte do interior de São Paulo e, estando em um período de acumular reservas para efetuar projetos futuros - não só familiares e de negócios como também possivelmente um mestrado e certamente uma pós-graduação e/ou MBA - escreve para o Terraço Econômico e atualiza sempre que possível seu blog pessoal, o Questão de Incentivos. Sonha em deixar algum legado para a discussão econômica e adora o campo das políticas públicas.