Karl Marx vai à fábrica de cupcakes

No capitalismo, os meios de produção operam com base na violenta e contínua exploração dos trabalhadores pela burguesia e para ela própria. Quer dizer, isso era o que eu pensava até ir à fábrica de cupcakes!

A paradigmática fábrica num sistema capitalista, onde uma mercadoria é produzida em massa, mecanicamente, por uma maioria de trabalhadores assalariados, subrepresentados e que são tolhidos sob condições atrozes enquanto os lucros permanecem propriedade exclusiva de uma minoria detentora dos meios de produção, parece estar ausente neste simpático estabelecimento que comercializa cupcakes. Me parece mais um espaço de confraternização onde congregam diferentes grupos de estilos distintos, muitos dos quais, sequer experimentam um cupcake.

Ao me acomodar nos aposentos da histriônica fábrica de cupcakes, uma proletária prontamente se aproximou. Notei que não carregava nenhum livro, mas indicou a consulta de um dispositivos para que o processo de exploração fosse consumado: um tal de tablet. Me indago se o mesmo dispositivo pode ser tomado e servir o propósito da libertação dos oprimidos como um meio de distribuição de minha obra crítica.

Tendo testemunhado as diversas variedades de cupcakes dispostas naquele dispositivo, optei pelo strawberry delight, embora me sentisse tentado pelo special chocolate & macadâmia.

Assim como fiz menção anteriormente, o cupcake não assume o posto de engrenagem central no processo de produção da fábrica. Contrariando minhas crenças, consequentemente, a respeito da míope dedicação a uma única mercadoria nas entranhas daquela fábrica. Meus cálculos preliminares indicam não menos de trinta e seis opções naquele cardápio.

Havendo experimentado cerca de um terço das mercadorias disponíveis, indubitavelmente, uma experiência tão elucidativa transformou minha formulação das condições de trabalho encontradas naquele local. O meu host, Danilo, aparentava ser remunerado em condições acima do nível de subsistência. Prontamente o indaguei a respeito e sua réplica foi a seguinte: “Hã? Se consigo boas gorjetas? O gerente não está na loja hoje, se quiser aplicar para uma vaga sugiro que se cadastre no site.”

O desdobramento lógico daquela prescrição, minha própria tese, é de que o site era o guardião dos portões para uma sociedade onde todos os caminhos da vida levam à prosperidade, a luta de classes arrefeceu e o dinheiro foi substituído nas relações econômicas por um sentimento regozijante.

Tudo mudou quando Danilo se aproximou novamente: “Com licença, Danilo? Não compreendo este documento onde registros contábeis indicam que estou em débito com a fábrica de cupcakes num valor de R$ 223,79. Eu, o indivíduo, devo arcar com isto?”

Como estava dizendo anteriormente, as fábricas são a alegoria máxima para a opressão a qual somos subjugados num sistema capitalista…

P.S.: O texto é puramente irônico e sarcástico, tudo bem? Também não tem o intuito de representar a teoria marxiana com rigor. Ah, antes que eu me esqueça: escrever complicado é muito fácil. Difícil mesmo é representar ideias complexas de forma simples e de forma clara. Inspirado em Karl Marx Visits the Cheesecake Factory.

Paulo Silveira

Programador de origem, não se tornou economista por pura desilusão. Aprende economia nos livros-texto e artigos acadêmicos, não no YouTube. Aprende a programar inventando os próprios projetos, não na academia. Provavelmente trabalha numa startup, nome pomposo pra empresa de tecnologia. Linguagem favorita: Python. Economista favorito: David Ricardo. Maior expoente da escola austríaca: Arnold Schwarzenegger. Pior política econômica: proteger a indústria nacional ad infinitum. Um vídeo: Marcos Lisboa no evento da Quatro Rodas. Uma piada: marxismo.
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