Nobel 1970: Paul A. Samuelson | por Pedro Garcia Duarte

Paul A. Samuelson e uma nova ciência econômica no século XX

Paul Anthony Samuelson (1915 – 2009) foi um economista norte-americano que contribuiu sobremaneira para a reformulação da ciência econômica a partir da segunda guerra mundial e no período da guerra fria, quando os Estados Unidos consolidaram sua posição não apenas de liderança geopolítica mundial como também acadêmica. Samuelson viveu bastante e produziu muito. Tal como colocado por seu aluno Stanley Fischer (2008), ele fez “contribuições fundamentais a praticamente todas as áreas da teoria econômica”. O próprio Samuelson se considerava, “nesta era de especialização”, “o último generalista em economia”, com interesses desde economia matemática até jornalismo econômico, passando por economia do bem-estar, programação linear, economia dinâmica, economia keynesiana, finanças, economia internacional, finanças públicas, teoria da escolha e microeconomia (Samuelson em Lindbeck 1992). A extensa produção de artigos por Samuelson nestas áreas começou inclusive a ser editada em seus Collected Scientific Papers a partir de 1966, quando Samuelson tinha apenas 51 anos de idade, e geraram uma série de sete grandes volumes encerrada postumamente, em 2011.

Mas Samuelson fez muito mais. Recebeu a prestigiosa honraria da American Economic Association, a John Bates Clark Medal, logo no primeiro ano desta premiação, em 1947, e o “Prêmio do Banco Central Sueco em Economia em Memória a Alfred Nobel” em 1970, no segundo ano deste novo prêmio. A academia sueca o considerou merecedor do prêmio “por seu trabalho científico pelo qual desenvolveu economia estática e dinâmica e por ter contribuído ativamente a elevar o nível da análise na ciência econômica”. 

Institucionalmente, Samuelson ajudou a refundar o departamento de economia do MIT (Massachusetts Institute of Technology, Cambridge, MA, EUA) tendo sido contratado para participar da criação, em 1941, do programa de Ph.D. em economia em um departamento que tinha curso de graduação apenas desde os anos 1930 (ao contrário das universidades de Harvard e Chicago) e mestrado desde 1937. Ademais, tratava-se de um departamento marginalizado em uma escola eminentemente de engenharia, situação esta que ele ajudou a mudar a partir dos anos 1940 com a atração de novos e destacados economistas e a criação do programa de Ph.D. que transformaram o departamento em uma referência mundial na área (ver artigos em Weintraub 2014 e Backhouse 2017). E neste departamento Samuelson permaneceu toda sua carreira (iniciada como professor assistente aos 25 anos e posteriormente como full professor aos 32 anos de idade), tendo sido professor de várias gerações de economistas (com vários de seus alunos também agraciados com o Nobel) e influente na contratação de muitos de seus colegas, como seu vizinho de sala e colaborador próximo, Robert Solow (Nobel em 1987). 

Não bastassem todos estes feitos deste wunderkind, devidamente celebrados por seus colegas e alunos em várias ocasiões, Samuelson também contribuiu para reformular por completo o ensino de economia no mundo todo através de seu livro introdutório, Economics, publicado pela primeira vez em 1948 e reeditado inúmeras vezes devido ao sucesso de vendas alcançado ao longo de mais de sessenta anos (com dezenove edições). Além disto, foi um comentarista econômico ativo por vários anos em revistas como a Newsweek (onde teve colunas quinzenais, tal como o economista de Chicago, Milton Friedman), foi conselheiro econômico dos presidentes norte-americanos John F. Kennedy (1961-1963) e Lyndon B. Johnson (1963-1969), além de consultor a diversas áreas do governo. 

Samuelson iniciou seus estudos em economia na Universidade de Chicago em 1932, em meio à Grande Depressão, concluindo em 1935. Obteve uma bolsa de estudos que exigia que ele fizesse sua pós-graduação em outra universidade e dados seus interesses por economia da competição imperfeita que estava sendo desenvolvida na Universidade de Harvard, Samuelson fez lá sua pós-graduação, obtendo os graus de Master of Arts em 1936 e Ph.D. em 1941. Sua tese de doutorado foi tida como a melhor daquele ano, que o fez receber o prêmio David A. Wells do departamento de economia desta universidade. Durante sua estadia em Harvard, Samuelson foi colega de Abram Bergson (que foi para Harvard em 1933 e fez contribuições à economia do bem-estar), e aluno de economistas importantes como Alvin Hansen (com quem interagiria proximamente), Joseph Schumpeter, Wassily Leontief e o físico e economista matemático E. B. Wilson. 

Sua tese de doutorado de 1941 foi posteriormente transformada em um importante livro publicado apenas após o fim da segunda guerra mundial, o Foundations of Economic Analysis (Samuelson 1947). Neste livro Samuelson deu tratamento definitivo à estrutura matemática básica que ele argumentou estar na base de várias questões econômicas, composta de dois princípios básicos: que os agentes econômicos têm comportamento maximizador (consumidores maximizando utilidade e produtores maximizando lucros), e que o equilíbrio econômico resultante é estável sob certas circunstâncias. Samuelson estabeleceu nesta obra conceitos claros de estática e dinâmica que se tornaram dominantes em substituição aos diversos entendimentos então existentes: equilíbrio estático é o obtido de condições que independem do tempo, e o equilíbrio dinâmico é o resultante de um conjunto de forças que o fazem ser estacionário (não se altera no tempo porque forças diferentes o puxam em direções diferentes sendo nula a força resultante). Com base nesta estrutura básica (estática vs. dinâmica), que proveria uma teoria geral das teorias econômicas de acordo com o autor, ele analisa questões relativas às decisões individuais (microeconomia) na primeira parte do livro, e questões sobre o funcionamento da economia como um todo e as flutuações econômicas (macroeconomia) na parte dois.

Seu primeiro e único emprego foi no MIT. Lá, foi professor influente de várias gerações de economistas e também um orientador de alguns destes alunos. Seu primeiro aluno de doutorado foi Lawrence Klein (agraciado com a John Bates Clark Medal em 1959 e o Nobel em 1980). Dos inúmeros alunos de Samuelson (não necessariamente orientados por ele) temos também Avinash Dixit, George A. Akerlof (Nobel em 2001), Joseph E. Stiglitz (Nobel em 2001), Peter Diamond (Nobel em 2010), Robert C. Merton (Nobel em 1997), Stanley Fischer, e William D. Nordhaus (Nobel 2018).

Para melhor entender a importância das contribuições de Samuelson e a premiação com o Nobel por suas contribuições à economia matemática e por elevar o nível da análise econômica, é preciso ter clareza das enormes diferenças na forma de pensar dos economistas no século XX com os intelectuais que discutiram questões econômicas nos séculos anteriores. Se nos séculos XVIII e XIX as questões econômicas eram pensadas como sujeitas às leis naturais que regiam todas as outras dimensões da vida humana e do mundo natural, os economistas a partir da segunda metade do século XIX começaram a pensar o mundo econômico como tendo certa autonomia do mundo natural. Mas é apenas no século XX que se consolida a ideia da “economia” (real) como um conjunto de relações sujeitas à deliberação humana (e não mais à leis naturais), na qual podemos intervir e controlar até certo ponto.

Além desta enorme transformação que ocorreu gradualmente, no século XX houve duas outras transformações fundamentais para entendermos a ciência econômica praticada hoje, que recebeu de Samuelson importantes contribuições. A primeira delas foi a segunda guerra mundial: uma guerra científica exigiu o recrutamento de cientistas e representou uma grande excepcionalidade que justificava para a sociedade norte-americana, avessa ao intervencionismo estatal e cética quanto à contribuição da ciência para o bem-estar coletivo, o aparato estatal montado como parte do esforço para combater os inimigos. 

Os economistas não foram recrutados de início, mas durante a guerra foram vistos como cientistas que poderiam contribuir ao trazer suas ideias de escassez e alocação de recursos escassos entre fins alternativos e competitivos. E da interação próxima que eles tiveram com matemáticos aplicados e engenheiros durante a guerra eles aprenderam várias técnicas matemáticas e estatísticas ao passo que ensinaram aos demais cientistas ideias de otimização e escolha. O aparato estatal da grande ciência montado para a segunda guerra não foi imediatamente desmontado com o fim do conflito, mas perpetuou-se, mesmo que em formato um pouco diferente, durante o período da guerra fria. Os economistas saíram da guerra com novas ferramentas e técnicas matemáticas e estatísticas que eles paulatinamente foram utilizando para estudar questões agora não mais ligadas ao esforço de guerra, transformando por completo a maneira de se fazer ciência econômica desde então.

A segunda transformação no século XX foi a consolidação do uso de modelos para pensarmos as questões econômicas. Muito embora economistas já tenham feito “modelos” desde pelo menos o século XVIII estes artefatos passaram a fazer parte central do vocabulário dos economistas e de sua ciência somente após os anos 1930 quando a junção de economia, matemática e estatística deu origem à área de econometria (Morgan 2008 e 2012). No período após a segunda guerra mundial o uso de modelos passou a ser a metodologia dominante em economia. E modelos de um tipo particular passaram a dominar: modelos matemáticos e relativamente abstratos, cada vez mais baseado na escolha explícita por parte dos agentes econômicos (modelados, no caso dos consumidores, como maximizadores de utilidade sujeita à restrição orçamentária). 

As muitas e variadas contribuições de Paul Samuelson à economia seguiram e consolidaram a maioria destas tendências. Ele acreditava que a matemática é uma linguagem poderosíssima que evita as armadilhas e confusões da linguagem falada e escrita e se propôs a traduzir os problemas econômicos em modelos matemáticos que envolviam em grande parte a tomada de decisão racional dos agentes econômicos envolvidos. E ele se dedicou a estudar as propriedades matemáticas das soluções destes problemas e de derivar as implicações qualitativas de modo preciso. Mas ele não era necessariamente adepto da ortodoxia posterior que advogava que um problema que não pudesse ser colocado em termos de maximização condicionada pelos agentes não era suficientemente rigoroso. Ademais, ele fez parte de um grupo de economistas que usavam a análise utilitarista para as decisões individuais, mas que acreditavam que, principalmente no curto prazo, existiam importantes falhas de mercado que requeriam intervenções do governo na economia (economistas que eram keynesianos no curto prazo e neoclássicos – ou utilitaristas – no longo prazo, quando tais falhas deixavam de existir graças à ação governamental).

Tanto em seus trabalhos mais técnicos como em seu livro-texto Samuelson deu importante contribuição para o processo de traduzir as ideias de John Maynard Keynes para o contexto norte-americano, juntamente com outros economistas como Alvin Hansen (conhecido como “o Keynes norte-americano”) e John Kenneth Galbraith, ambos professores da Universidade de Harvard, e James Tobin (aluno de Harvard, tendo obtido seu Ph.D. em 1939). Mais tarde, em colunas quinzenais para a Newsweek, ele continuou a influenciar as ideias da sociedade norte-americana sobre a relevância de políticas econômicas e o papel do estado em uma economia de mercado.

Pedro Garcia Duarte

Senior Research Fellow, INSPER

Notas:

Backhouse, Roger E. (2017). Founder of Modern Economics: Paul A. Samuelson: Volume 1: Becoming Samuelson, 1915-1948. Oxford: Oxford University Press.

Fischer, Stanley (2008). Samuelson, Paul Anthony (1915–2009). Em: Steven N. Durlauf e Lawrence E. Blume (eds.), The New Palgrave Dictionary of Economics. 2a ed. Palgrave Macmillan, 2008.

Lindbeck, Assar (ed.) (1992). Nobel Lectures, Economics 1969-1980. Singapore: World Scientific Publishing. Disponível como “Paul A. Samuelson – Biography”, Nobelprize.org: https://www.nobelprize.org/prizes/economic-sciences/1970/samuelson/lecture/  (consultado em 08 de junho de 2020).

Morgan, Mary S. (2008). Models. Em: Steven N. Durlauf e Lawrence E. Blume (eds.), The New Palgrave Dictionary of Economics. 2a ed. Palgrave Macmillan, 2008.

Morgan, Mary S. (2012). The World in the Model: How Economists Work And Think. Cambridge: Cambridge University Press.

Samuelson, Paul A. (1947). Foundations of Economic Analysis. Cambridge, MA: Harvard University Press.

Samuelson, Paul A. (1948). Economics. 1a ed. New York: McGraw-Hill.

Samuelson, Paul A. (1966-2011). The Collected Scientific Papers of Paul A. Samuelson. 7 vols. Cambridge, Mass: MIT Press. Vols I-II ed. J. E. Stiglitz, 1966; Vol. III ed. R. C. Merton, 1970; Vol. IV ed. H. Nagatani e K. Crowley, 1977; Vol. V. ed. K. Crowley, 1986; Vol. VI-VII ed. J. Murray, 2011.

Weintraub, E. Roy (2014). MIT and the Transformation of American Economics. Suplemento anual da History of Political Economy, vol. 46. Durham: Duke University Press.

 

Terraço Econômico

O seu portal de economia e política!
Yogh - Especialistas em WordPress