Pautas sociais são monopólio da esquerda?

Pode não aparentar, mas uma das piores catástrofes que assola o Brasil contemporâneo é a monopolização de agendas de valores e virtudes, em especial aquelas relacionadas à pauta humanista ou humanitária, por grupos organizados de todos os espectros políticos.

É um fato que o Brasil tem um largo histórico de menosprezo ao debate de pautas em favor de grupos vulneráveis, sempre à mercê do ambiente anárquico do debate público, no qual muito é afirmado e muito pouco é provado. Nenhuma novidade.

O “problema” em si, ao meu humilde ver, é o resultado da melhor qualidade organizacional dos grupos políticos e movimentos sociais, proporcionada pelas novas mídias sociais.

Tais novos modelos organizacionais, além de viabilizar as infames “câmaras de eco” e “bolhas”, as quais ainda estamos aprendendo a lidar, também resultou em um acirramento na defesa de tais agendas culturais e de valores, que nortearam a construção e tais grupos em primeiro lugar. 

Por conta disso, seus correligionários demonstram uma dificuldade muito grande na diferenciação e valores comuns de uma sociedade organizada e civilizada e daqueles valores atinentes a organização do seu grupo ou movimento. 

Como resultado, independente do espectro político, determinados grupos não conseguem promover suas agendas e nutrir simpatia ou empatia pela integridade humana sem sentir uma pequena dose de conflito identitário. Muito menos conseguem prezar pela sustentabilidade institucional dos seus próprios movimentos, eis que se veem refém de uma agenda de princípios fundamentalista e inadequada ao exercício de qualquer diálogo democrático.

Tudo ainda fica pior quando notamos que temos uma geração repleta de jovens sem personalidade e em estado de anomia, sem objetivos ou perspectivas por conta da superexposição às intensas transformações ocorrentes na sociedade contemporânea.

Tais instabilidades afetam drasticamente a forma como esses jovens constroem as suas bússolas morais, suas agendas de princípios e valores mais básicos. Ou seja, afetam como eles constroem suas identidades, aumenta seu grau de ansiedade e insegurança, fazendo com que absorvam desesperadamente qualquer elemento coerente de cultura ou informação que eles tenham à disposição e se adeque ao seu crivo moral interno.

Como resultado, temos uma geração inteira desesperada por pautas sociais e culturais, abrangendo os mais diversos campos, desde os tradicionalistas e conservadores, fundamentalistas de mercado, liberais por princípio, guerreiros da justiça social, revolucionários, anarquistas, etc. Todos, respaldados por uma agenda principiológica e valorativa válida, porém muitas vezes falha quando da afirmação ou submissão dos mesmos ao crivo social democrático, pois se posicionam no debate político partindo da premissa que suas próprias agendas e convicções individuais respaldadas pelo seu coletivo, se sobrepõem à própria complexidade cultural e política que é o modelo social contemporâneo.

A partir disso surge o maniqueísmo cotidiano, no qual o debate se vê reduzido a discussões principiológicas que se valem da deslegitimação do argumento contrário como o principal instrumento para a construção de consenso. Nesse cenário de esterilidade intelectual, tradicionalmente esperamos que medidas humanistas sejam originalmente de grupos de “esquerda” e medidas estruturantes ou de responsabilidade fiscal e austeridade sejam de grupos de “direita”.

Atacamos uns aos outros e demonizamos os próprios institutos humanitários e estruturantes, invés da nossa própria incapacidade de construir um ambiente sustentável para todos, que não esfarele no fim de um governo, ou esteja à mercê da identidade de uma única pessoa.

De fato, é muito triste ter que vir aqui e afirmar que, sim, é possível ter empatia para com o próximo e sua condição de vulnerabilidade sendo de “direita”, bem como é possível criar todo um plano de governo legítimo e adequado para perdurar para as próximas gerações, e melhorar a qualidade de vida de todos, sendo de “esquerda” (social-democrata) e não pautar suas decisões em mero “Radicalismo do Bem”. Eu esperava que isso fosse óbvio, mas não é…

Liberais Antilibertários

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