Nobel 2000: Daniel L. McFadden | por Rafael Mello

Desemprego e informalidade no mercado de trabalho; desigualdade social; impactos socioeconômicos da educação; avaliação de políticas públicas… Podemos afirmar, sem grande risco de provocar polêmicas, que o debate público nunca esteve tão atento a questões da esfera microeconômica quanto nos últimos anos. Boa parte dessa disseminação pode ser atribuída a desenvolvimentos técnicos e metodológicos ocorridos nas últimas 5 décadas.

Até o fim dos anos 60, praticamente não existiam bases de dados que permitissem a análise empírica robusta de comportamentos em nível individual, seja de pessoas ou empresas. O desenvolvimento e popularização dos computadores aumentou a capacidade tanto de armazenamento de informações, o que viabilizou a construção de bases maiores e mais detalhadas, quanto de processamento de dados, possibilitando a análise e tratamento dessas novas bases.

A profusão de novos dados acabou levantando problemas e desafios metodológicos até então pouco discutidos e tratados no âmbito da ciência econômica, dando origem a um novo campo de estudo, a microeconometria. O reconhecimento definitivo do campo veio com o Prêmio Nobel de 2000, dividido entre dois dos precursores da área, James Heckman e Daniel McFadden. E é sobre a vida e as contribuições deste segundo que vamos nos aprofundar nos próximos parágrafos.

Da América Profunda à Costa Dourada 

Daniel Little McFadden nasceu em 29 de julho de 1937, na cidade de Raleigh, capital da Carolina do Norte. Sua infância foi em uma fazenda, localizada em uma região remota da zona rural do estado. Quase sem vizinhos próximos, sua diversão principal era a leitura. Por se sentir limitado pela escola pública local, recorreu ao estudo por correspondência para se desenvolver mais em álgebra e geometria.

Aos 16, Daniel entrou na Universidade de Minnesota, onde três anos depois obteve o B.S. (equivalente americano ao bacharelado) em Física. Durante a graduação, trabalhou como programador em uma pesquisa que aplicava testes psicológicos, o que despertou seu interesse em psicometria e o levou a continuar seus estudos no campo de Behavioral Science. Interessado em se aprofundar nos modelos matemáticos de escolha, acabou direcionando o tema de seu Ph.D. para a economia, sendo fortemente influenciado pelos professores John Chipman e Leonid Hurwicz (que também viria ganhar o Nobel, em 2007). 

Após concluir seu Ph.D. em 1962, McFadden foi professor em alguns dos principais departamentos de economia dos EUA, incluindo os da Universidade da Califórnia em Berkeley, da Universidade de Yale e do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (o famigerado M.I.T.). Durante estas passagens, pode interagir com outros ganhadores do Nobel, como Peter Diamond, Gerard Debreu, Paul Samuelson, Robert Solow e Franco Modigliani, além de ter orientado o renomado autor e atual economista-chefe do Google Hal Varian, dentre outros.  

Em 1991, Daniel decidiu retornar a Berkeley para fundar o Laboratório de Econometria, dedicado a aperfeiçoar métodos em estatística computacional aplicados à economia, e lá permaneceu pelo restante da sua carreira. Até hoje seu nome consta da lista de professores eméritos do departamento de economia.

Além do Nobel, McFadden obteve diversos outros reconhecimentos por sua carreira acadêmica. Dentre os principais, destacam-se a Medalha John Bates Clark, concedida pela Associação Americana de Economia para destacados economistas americanos com menos de 40 anos, recebida em 1975; e a Medalha Frisch, concedida pela Sociedade de Econometria, em 1986.

Modelando escolhas

Oficialmente, o Prêmio Nobel de Economia foi concedido a Daniel McFadden por suas contribuições para o desenvolvimento teórico e metodológico na análise de escolhas discretas, ou seja, escolhas em que há um número relativamente pequeno de alternativas. Como exemplo de situações desse tipo, podemos citar diversas decisões individuais relativamente corriqueiras: Cursar uma faculdade ou antecipar a entrada no mercado de trabalho? Qual transporte utilizar para se locomover pela cidade? Casar-se ou não? Ou, buscando resolver simultaneamente duas questões, casar ou comprar uma bicicleta?

Antes dos desenvolvimentos metodológicos de McFadden, casos como os descritos acima eram tratados seguindo a análise microeconômica mais tradicional, em que se supõe que as decisões podem ser adequadamente representadas por uma variável contínua. Além disso, pouco havia sido feito para modelar teoricamente o comportamento em contextos de escolha discreta.

Na abordagem teórica adotada por McFadden, conhecida como “modelo de utilidades aleatórias”, cada indivíduo escolhe, dentre as opções disponíveis, a alternativa que maximiza sua utilidade. A utilidade obtida com cada alternativa depende tanto de características observáveis como de atributos não-observáveis, que são representados como variáveis aleatórias. Isso justificaria por que, em geral, há variações entre as escolhas de indivíduos com as mesmas características observáveis.

A partir dessa estrutura teórica, McFadden adaptou e desenvolveu métodos econométricos que permitem estimar, por exemplo, a probabilidade de que um determinado indivíduo escolha uma alternativa (casar?) em detrimento de outra (comprar uma bicicleta?), com base nas características observáveis disponíveis.    

Seu trabalho mais influente, intitulado “Conditional Logit Analysis of Qualitative Choice Behavior”, foi publicado em 1973, quase simultaneamente a outros artigos descrevendo aplicações empíricas do modelo na demanda por transporte público urbano (The Measurement of Urban Travel Demand, de 1974; Urban Travel Demand: A Behavioral Analysis, em coautoria com Tom Domencich, de 1975; e The Revealed Preferences of a Government Bureaucracy: Empirical Evidence, publicado em 1976). 

Um dos resultados mais conhecidos desses artigos é relativo à adesão da população ao sistema de transporte da região de São Francisco, conhecido como Bay Area Rapid Transit (BART). McFadden aplicou seu modelo aos dados disponíveis antes da construção do sistema, e comparou suas estimativas às previsões oficiais, que estimavam adesão de 15% da população. Segundo seu modelo, apenas 6,3% dos usuários iriam utilizar o BART. O dado real, após a implantação, foi 6,2%.

Ao longo das décadas seguintes, McFadden continuou desenvolvendo o arcabouço da escolha discreta. Seus esforços se deram tanto no âmbito metodológico — apresentando generalizações do modelo inicial que relaxam algumas de suas premissas (como o logit multinomial aninhado) e novas abordagens de estimação (como o método de momentos simulados) — quanto no âmbito empírico, com aplicações em temas como demanda por energia elétrica residencial, serviços telefônicos e habitação para a terceira idade.

Apesar dos modelos logit multinomiais já serem conhecidos anteriormente, sua modelagem do comportamento de escolha fundamentada na teoria microeconômica foi bastante inovadora e teve impacto imediato na comunidade econométrica. A partir de então, a abordagem empírica na análise de decisões em nível individual foi completamente alterada, tornando-se rapidamente uma das mais relevantes da econometria moderna.

Outros temas: Produção, Finanças Públicas, Meio ambiente, Saúde

Antes mesmo de se dedicar ao desenvolvimento dos modelos de escolha discreta, McFadden fez algumas contribuições significativas no campo da teoria da produção. No entanto, boa parte destes trabalhos só veio a ser publicada em 1978, na obra Production Economics: A Dual Approach to Theory and Applications, em coautoria com Melvyn Fuss.

Outro exemplo de produção relevante, também pouco associada à pesquisa que o tornou mais conhecido, é um trabalho em colaboração com Peter Diamond (Some Uses of the Expenditure Function in Public Finance, de 1974), bastante influente no campo da economia pública moderna.

A partir da década de 90, alguns de seus principais trabalhos foram em economia ambiental. Dois artigos de destaque se propuseram a analisar a “disposição a pagar” por recursos naturais (Contingent Valuation and Social Choice, de 1994) e as perdas de bem estar provocadas por danos a este tipo de recurso no Alaska (Assessing Recreational Use Losses due to Natural Resource Damage, de 1995). 

Nos últimos anos, a pesquisa de McFadden direcionou-se para o campo da economia da saúde, com foco especial na terceira idade e na regulação do mercado de seguridade. Uma das pesquisas de maior repercussão aborda a escolha de planos de saúde por parte dos consumidores, no âmbito do programa Medicare (Plan Selection in Medicare Part D: Evidence from Administrative Data, de 2013, com coautores). Seus resultados indicaram que menos de 10% dos indivíduos escolhem os planos com menor custo total, considerando seu perfil de uso.

O principal aspecto que permeia todos os trabalhos de Daniel McFadden, independentemente do tema abordado, é sua habilidade em desenvolver e utilizar métodos estatísticos sofisticados para combinar robusta fundamentação teórica à aplicabilidade prática, buscando sempre soluções para problemas da vida real. 

A influência de suas contribuições é amplamente sentida até os dias atuais, mesmo para além da microeconometria. Aplicações das técnicas desenvolvidas por McFadden difundiram-se para áreas tão distintas quanto a pesquisa de marketing, em que é usada para analisar o comportamento de compra dos clientes, e a ciência política, aplicada na avaliação dos votos dos eleitores.

Por conta de tudo isso, nada mais justo que este discreto (!!) senhor seja lembrado como um dos patronos da microeconometria moderna, e um dos precursores da revolução empírica vivida pela ciência econômica nas últimas décadas.

Rafael Mello

Formado em Administração, posteriormente foi atraído pelo lado lúgubre da Força. Mestre em Economia.

Trabalhos selecionados:

McFadden, D. (1973) Conditional Logit Analysis of Qualitative Choice Behavior. In: Zarembka, P., Ed., Frontiers in Econometrics, Academic Press, 105-142.

McFadden D. (1974), The Measurement of Urban Travel Demand, Journal of Public Economics 3, 303–328.

Diamond P. and D. McFadden (1974), Some Uses of the Expenditure Function in Public Finance, Journal of Public Economics 3, 3–21

Domencich T. and D. McFadden (1975), Urban Travel Demand: A Behavioral

Analysis, North-Holland.

McFadden D. (1976), The Revealed Preferences of a Government Bureaucracy: Empirical Evidence, The Bell Journal of Economics Vol. 7, No. 1, 55-72

McFadden D. (1977), Modelling the Choice of Residential Location, No 477, Cowles Foundation Discussion Papers, Cowles Foundation for Research in Economics, Yale University

Fuss M. and D. McFadden (eds.) (1978), Production Economics: A Dual Approach to Theory and Applications, vols I & II, North-Holland.

McFadden D. (1989), A Method for Simulated Moments for Estimation of Discrete Response Models without Numerical Integration, Econometrica 57, 995–1026.

McFadden D. (1994), Contingent Valuation and Social Choice, American Journal of Agricultural Economics 74, 689–708.

Hausman J., G. Leonard and D. McFadden (1995), A Utility-Consistent, Combined Discrete Choice and Count Data model: Assessing Recreational Use Losses due to Natural Resource Damage, Journal of Public Economics 56, 1–30.

Heiss, F., A. Leive, D. McFadden, and J. Winter (2013), Plan selection in Medicare Part D: Evidence from administrative data, Journal of Health Economics 32(6): 1325-1344

Notas:

McFadden D., The Path to Discrete-Choice Models, ACCESS Magazine, NUMBER 20, SPRING 2002

Manski, C.F. (2001). Daniel mcfadden and the econometric analysis of discrete choice. The Scandinavian Journal of Economics 103, 217–229

Carolyn J. Heinrich & Jeffrey B. Wenger (2002) The Economic Contributions of James J. Heckman and Daniel L. McFadden, Review of Political Economy, 14:1, 69-89

Links:

https://www.econlib.org/library/Enc/bios/McFadden.html

https://www.britannica.com/biography/Daniel-McFadden

https://www.nobelprize.org/prizes/economic-sciences/2000/summary/

 

 

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