A parte didática da atual crise brasileira

Em 2014 tudo parecia caminhar bem e quem direcionava que as coisas iriam mal estava sendo demasiadamente pessimista. 2015 mostrou que o maior dos pessimistas não fazia ideia de quão ruim a situação poderia ficar. No ano que se encerrou, a continuidade do abismo deixou ainda mais claro que a situação era grave. Talvez 2017 nos reserve uma mudança de paradigma em que o país possa voltar a crescer, mesmo que minimamente.

Por mais complicado que pareça, realmente Henrique Meirelles está correto quando afirma que a atual crise tem um fator didático [1]. O contexto utilizado foi o da defesa da necessidade de reformas para equilibrar o gasto público ao longo do tempo no estado do Rio de Janeiro – mas pode facilmente se expandir territorialmente e em sentido.

Para além de conceitos de mais amplo sentido – como o das frases “toda crise é uma oportunidade” ou “tire o ‘s’ da crise e crie” –, na prática a atual crise econômica brasileira pode ensinar basicamente duas lições a todos nós brasileiros: pensar com prioridades é importante e pedir uma maior presença do Estado não necessariamente resulta em ter um melhor bem-estar social.

A primeira é algo que todo brasileiro que teve seu rendimento familiar diminuído pelo desemprego ou redução salarial nos últimos anos já sabe, mas que o governo parece ter descoberto apenas agora com a aprovação recente da PEC do teto de gastos: quando se aloca uma quantia de esforço e/ou recursos em uma atividade, outra terá menor acesso – e por isso é importante definir qual é a intenção desse gasto e ter uma noção mínima de qual seu resultado prático. Em termos mais diretos: toda vez que o governo decide aumentar o gasto em algum projeto ruim, ele pode estar tirando recursos de outro que tinha bons resultados (porém, sem avaliar, em uma eventual queda de arrecadação, os dois projetos tem a mesma possibilidade de perder recursos).

A segunda ainda demora a surtir efeitos, mas alguns grupos sociais já têm ficado mais atentos: o Estado não é capaz de realizar todas as transações e, na prática, pedindo por uma presença maior deste, está sendo pedida simultaneamente uma conta maior a pagar. Novamente, em termos mais diretos: sugerir que a economia não tem se movimentado por ausência do Estado além de ser facilmente desmentido com dados – uma vez que os gastos públicos aumentaram sensivelmente após 2008 e, mesmo em ritmo menor, segue aumentando até os dias atuais [2], o que não evitou o cenário atual – é uma inconsistência, uma vez que, como os agentes econômicos tem visto seus recursos se reduzirem, imaginar que a ampliação desta redução (através de uma maior carga tributária, maior endividamento e maior inflação) seria de boa serventia é quase que somente defender os interesses de quem já está estabelecido no setor público e gostaria de sempre ter mais recursos.

A união destes dois fatores gera questionamentos sobre itens até muito recentemente intocáveis: será que o FGTS protege mesmo o trabalhador, sendo um dinheiro que é retirado deste diretamente em seu salário, repassado ao governo e apenas permitido para seu uso em casos específicos? Será que ter o Estado como provedor de alguns produtos e serviços – Petrobras, Correios, Eletrobras... – faz mesmo com que tenhamos um maior bem-estar social [3]? Será que vale a pena exigir a presença do poder público para chancelar todas as relações econômico-sociais? Esses e tantos outros questionamentos tem sido levantados pela atual geração.

Em suma: a parte didática da atual crise é o ensinamento prático – muitas vezes doloroso, inclusive – de que a ausência de prioridades é muito perigosa ao longo do tempo e, como o governo tem muita dificuldade (para não dizer “pouquíssimo interesse”) em analisar as prioridades de seu gasto, talvez a melhor ideia seja a de repensar a presença do Estado quando este demandar mais recursos, de modo a exigir um maior nível de contrapartida dos já volumosos recursos (superamos a cifra dos R$2 trilhões em 2015 e 2016 [4]) ou mesmo questionar sua presença buscando compreender a real necessidade de tal inserção.

Pode ser que isso demore ainda alguns anos, dada a tradição brasileira de amar o poder público mesmo tendo desprezo por seus componentes [5], mas é notável que a geração recém-encaminhada ao mercado de trabalho poderá ser o início desta mudança de mentalidade no país.

 

Caio Augusto – Editor do Terraço Econômico

 

Notas

[1]          http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2016/11/1830388-crise-no-rio-e-didatica-afirma-meirelles-ao-defender-reformas.shtml

[2]          http://www.valor.com.br/brasil/4580585/brasil-enfrenta-problema-de-aumento-do-gasto-publico-diz-meirelles

[3]          http://terracoeconomico.com.br/estatais-sao-orgulho-nacional-petrobras-eletrobras-e-correios-dizem-o-contrario  

[4]          http://g1.globo.com/economia/seu-dinheiro/noticia/brasileiros-ja-pagaram-r-2-trilhoes-em-impostos-em-2016.ghtml

[5]          http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=2104

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Sobre Caio Augusto 55 Artigos
Formado em Economia Empresarial e Controladoria pela Universidade de São Paulo (na maravilhosa FEA-RP), é apaixonado por discutir economia/política e acredita que é possível discorrer sobre tais assuntos de maneira descontraída - o que talvez tenha origem em sua vontade, desde os 12 anos de idade, de ser economista e de pesquisar sobre assuntos afins assiduamente desde a crise econômica mundial de 2008. Atualmente trabalha como gestor financeiro em uma empresa de pequeno porte do interior de São Paulo, acumula recursos para projetos futuros, escreve para o Terraço Econômico e arquiva suas publicações em seu blog pessoal, o Questão de Incentivos. Sonha em deixar algum legado para a discussão econômica e adora o campo das políticas públicas.