Equipe econômica quer que sejamos o Japão. E isso é ruim!

Calma, leitor! Todos aqui do Terraço gostariam que a economia brasileira fosse como a japonesa. Referimo-nos agora aos discursos oficiais que já começam a indicar um possível aumento de tributos em 2017 para fechar as contas públicas [1].

E o que o Japão tem a ver com isso? Ele nos oferece um exemplo de como o aumento de impostos em um período de incipiente recuperação econômica pode trazer efeitos deletérios e adiar a retomada econômica.

Um breve histórico: desde a década de 90 o Japão vem apresentando um desempenho econômico bem baixo, com crescimento praticamente zero e deflação. Para tentar reverter essa estagnação, o governo japonês lançou mão de políticas fiscal e monetária expansionistas em 2012. Tudo parecia que ia bem, mas o governo resolveu que precisava elevar os impostos e aumentou a alíquota do imposto sobre consumo em 3%. O resultado? Nos gráficos abaixo explicamos:

1. PIB

Fonte: Ministério da Economia, Comércio e Indústria do Japão. Elaboração própria.

 

Após alguns trimestres de instabilidade, parecia que o PIB japonês estava reagindo às políticas expansionistas. Apesar dos altos e baixos, típicos de medições por trimestre sem ajuste sazonal, na média, o Japão vinha crescendo 0,3% por trimestre. Isso significa uma taxa anualizada de 1,2%. Nada mal para uma economia que estava acostumada com a estagnação ou crescimento negativo.

Até que o governo japonês, em forte contradição com sua política expansionista tanto no front fiscal quanto no monetário, anunciou que o imposto sobre o consumo subiria de 5% para 8%. Resultado? No 1º trimestre de 2014 a economia reagiu, já que as pessoas anteciparam o consumo antes de a nova alíquota entrar em vigor. No trimestre seguinte, queda do PIB. A partir de então, o crescimento do PIB japonês ficou em média em 0,1% por trimestre – uma taxa anualizada de 0,04% ao ano. "Brutal" diferença!

2. Produção Industrial e Vendas no Varejo

Fonte: Ministério da Economia, Comércio e Indústria do Japão. Elaboração própria.

 

É notável que os dados de Produção Industrial e Consumo no Varejo corroboram o que vimos no caso do PIB japonês.

Após o aumento da alíquota de imposto sobre consumo, a produção industrial e as vendas no varejo despencaram. Natural reação dos agentes econômicos nipônicos. Ou de qualquer outra nacionalidade.

Voltando para as terras tupiniquins.

Se o Brasil já está em uma recuperação econômica, é difícil de dizer (saberemos com certeza somente em junho, com os dados oficias do IBGE sobre o PIB do primeiro trimestre de 2017, enquanto isso vamos monitorando outros indicadores), mas a ideia de aumentar impostos em um momento delicado não parece muito boa. Especialmente se mal realizado.

Os efeitos colaterais podem ser maléficos, como vimos no caso do Japão. A reação dos agentes, no caso de um aumento generalizado de tributos, como o imposto sobre consumo, pode levar a economia a ter um repique e voltar a cair, ou se retrair mais ainda.

Desta vez não queremos ser o Japão.

 

 

 

 

 

 

Notas:

[1] http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2017/03/1864333-meirelles-nao-descarta-aumento-de-impostos-para-cumprir-a-meta.shtml

 

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Sobre Leonardo Palhuca 103 Artigos
Doutorando em Economia pela Albert-Ludwigs-Universität Freiburg. Interessado em macroeconomia - política monetária e política fiscal - e no buraco negro das instituições.