A mania brasileira de pensar que ser bom em uma área é ser bom em tudo

Ação Penal 470 [1] – ou, simplesmente, julgamento do Mensalão. O Brasil parou por um certo tempo para, diante da televisão, ver algo que até então nunca tinha sido visto: políticos sendo julgados pela mais alta corte do país e, pasmem, sendo inclusive condenados. Como símbolo dessa correção de ilicitudes, ficou marcado para a história o ministro Joaquim Barbosa, presidente do Supremo Tribunal Federal à época. O período era entre 2012 e 2013, tivemos eleições em 2014. Adivinha só quem começou a ser cotado para presidente do país? Claro, Joaquim Barbosa.

Operação Lava Jato [2]. Surpreendendo os brasileiros com uma operação extensa e que mostra o quão podre e movida a propinas estava (está?) a quase integridade do sistema político brasileiro. Tal cenário aumentou na população o duplo sentimento de acreditar que a justiça ainda funciona e de observar que estamos em um lamaçal bastante complexo de sair – dado que, diferente de 2012/2013, agora os impactos são gerais sobre os partidos e a própria política em si. Estamos novamente no período de véspera de eleições presidenciais e, quem acaba surgindo como nome para 2018? Segundo alguns, Sérgio Moro, aquele que se destaca como figura atuante na investigação e prisão de diversos políticos e empresários envolvidos no esquema.

O que ambos, Barbosa e Moro, têm em comum? O mérito de julgar poderosos sem o medo de represálias possíveis, quebrando um ciclo de impunidade política típico do Brasil e, desta forma, entrando para a história como notáveis personalidades no mundo jurídico brasileiro. O que uma parcela dos brasileiros acha que ambos têm em comum? A capacidade de presidir o Brasil. O que ambos dizem ou já disseram? Que não devem se envolver – embora Joaquim Barbosa tenha sido sondado e admita chance de candidatura [3].

Não há problema algum em acreditar que um destes dois notórios juízes poderia desempenhar um papel positivo como presidente do país. O problema é que, em no Brasil, costuma-se associar o bom desempenho de um indivíduo em uma área com a sensação de que este possa desempenhar bem qualquer atividade.

É claro que, qualquer que seja o governante eleito no ano que vem, haverá uma composição de ministérios com pessoas que (ao menos supostamente, mas geralmente por motivos políticos) tenham conhecimento mais próximo das diversas áreas que o governo brasileiro se propõe a cuidar. Entretanto, o brasileiro que votar pelo motivo de “este indivíduo foi ótimo em sua atuação” correrá o risco de, muito em breve, ter suas expectativas frustradas porque “não houve atuação tão rápida quanto outrora”.

De maneira alguma se faz aqui também uma defesa dos tais políticos profissionais, oriundos de famílias que ocupam cargos eletivos há gerações. Apesar do cenário que observamos atualmente ser desolador, existem pessoas que tem em mente auxiliar as pessoas através da política. O que precisa ocorrer é mesmo uma renovação, pois este campo tem sua importância dentro da deliberação de diversas pautas que impactam a toda população. Será um tanto esquisito se em próximas eleições, diante do escandaloso e amplo esquema de corrupção que vem sendo apresentado nos últimos anos, observarmos uma repetição dos mesmos em maioria. Em 2014 foi assim [4], mas é possível que agora a situação seja diferente, dada a extensão das descobertas recentes.

O importante é ter em mente que, para 2018, os eleitores precisam pesquisar aspectos que vão além do marketing das campanhas políticas – este que já será reduzido, dada a escassez de recursos advinda da proibição de financiamento empresarial. Verificar qual a capacidade real de articulação do indivíduo e se é possível operacionalizar, se não todas, a maior parte de suas indicações para o caso de ser eleito.

Parece complicado? E é. Mas, convenhamos, vai ser melhor dedicar um tempo com esta missão do que foi ter eleito um caçador de marajás e alguém que nunca havia ganhado alguma eleição mas tinha um padrinho político muito poderoso e um vice não-decorativo. Ah, e não nos esqueçamos: também é mais fácil “perder” tempo com essa pesquisa dos candidatos do que dedicar tempo e esforço pedindo que o eleito saia, como temos observado nos últimos anos.

Foquemos, em 2018, no que pode nos fazer avançar como país. Promessas vazias e marketing simplista, por mais sedutores que pareçam, já demonstraram seu mal anteriormente.

 

Caio Augusto – Editor do Terraço Econômico

 

Notas

[1]          http://direitosp.fgv.br/ap470

[2]          http://especiais.g1.globo.com/politica/2015/lava-jato/linha-do-tempo-da-lava-jato/

[3]          https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2017/06/07/joaquim-barbosa-admite-possibilidade-de-candidatura-em-2018.htm

[4]          https://eleicoes.uol.com.br/2014/noticias/2014/10/06/so-14-dos-deputados-que-tentaram-novo-mandato-nao-sao-reeleitos-na-camara.htm

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Sobre Caio Augusto 70 Artigos
Formado em Economia Empresarial e Controladoria pela Universidade de São Paulo (na maravilhosa FEA-RP), é apaixonado por discutir economia/política e acredita que é possível discorrer sobre tais assuntos de maneira descontraída - o que talvez tenha origem em sua vontade, desde os 12 anos de idade, de ser economista e de pesquisar sobre assuntos afins assiduamente desde a crise econômica mundial de 2008. Atualmente trabalha como gestor financeiro em uma empresa de pequeno porte do interior de São Paulo, acumula recursos para projetos futuros, escreve para o Terraço Econômico e arquiva suas publicações em seu blog pessoal, o Questão de Incentivos. Sonha em deixar algum legado para a discussão econômica e adora o campo das políticas públicas.

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