Eu, o Lápis: renovando a velha história libertária

Aqui quem fala é o Lápis. Não, não sou o famoso lápis que passou pelas mãos de Milton Friedman. Aquele era um parente distante e que tem sua importância na família, afinal, representou a essência do livre mercado através da própria história. Contudo, os tempos são outros! A escrita já não depende mais do lápis, as pessoas preferem apertar uma tecla ou tocar uma tela. Ainda assim, tal qual meu antepassado, tenho uma importante história para contar.

A economia para além de um único artigo

Meu ancestral, o lápis de Friedman, apesar da composição simples, só chegou ao economista porque o mercado age como uma sinfonia sem maestro: madeira, cola, grafite e outros materiais se combinam graças ao trabalho de milhares de pessoas. Aliás, permita-me uma correção: o maestro que conduz a sinfonia até existe, somente as suas mãos é que são invisíveis.

A minha genealogia, entretanto, até parte de uma origem material comum. Num segundo momento, as coisas mudam. A madeira é parecida, o grafite é o mesmo, toda a jornada logística já é conhecida. Porém, graças às restrições de exploração florestal impostas pelo governo americano, nasci numa floresta da Malásia.

Além disso, carrego menos verniz que meu antecessor, apenas duas camadas para ser exato. As seis camadas de outrora são desnecessárias, agradeça ao inovador sistema de pintura ultravioleta que me permite uma aparência vistosa. Benefícios do tal do progresso tecnológico, não?

A história entre nós não mudou tanto, indivíduos fazem o lápis, ferramentas e máquinas participam disso e outros indivíduos construíram máquinas para fazer outras máquinas… Acho que deu pra entender! Hoje esse processo é menos intensivo em mão de obra. Isso é, o ganho de produtividade permite que tudo seja mais enxuto porque as máquinas que sucederem as antigas ficaram melhores!

Claro, nem tudo são flores na história da família. O verniz utilizado na fabricação dos meus antepassados tinha chumbo em sua composição e, com o passar do tempo, descobriram que o chumbo era prejudicial à saúde das pessoas.

Esse problema só foi resolvido quando a agência reguladora, órgão responsável por supervisionar a indústria do lápis, estabeleceu limites à quantidade de chumbo presente no produto final. Qualquer um que violasse os limites estaria sujeito a lidar com penalidades e obrigações. As novas regras foram bem aceitas pela indústria, que contribuiu desenvolvendo testes e certificações para comprovar o novo padrão de qualidade, e o consumidor foi o grande beneficiado.

It’s the institutions, stupid!

O problema do chumbo e sua subsequente solução exemplificam, para além da perspectiva produtiva, a importância da regulação. Num contexto mais amplo, estamos falando das instituições que servem como o teatro que abriga a orquestra. Sem o governo para proteger o direto à propriedade privada, garantir que os contratos entre indivíduos serão honrados e tantas outras coisas, a sinfonia ficaria um tanto quanto desafinada.

Já mencionei que a madeira usada na minha produção é da Malásia. Contudo, sem a existência de acordos comerciais e a coordenação entre os governos de diferentes países, eu jamais chegaria aos Estados Unidos da América. Sem o investimento público que tornou o sistema rodoviário uma realidade, tampouco um mero lápis chegaria às escolas do Kansas. Aliás, nem mesmo as teclas e telas que diminuem a minha importância existiriam sem o fomento proporcionado pela dinheiro de impostos.

Mesmo assim, não se empolgue. Admitir que o governo faz parte da minha história não é dizer que ele é diretamente responsável pela produção de um lápis. Pelo contrário, é papel do governo evitar que ele próprio ou alguém tente controlar a minha produção. Suspeito que meus antepassados, numa história libertária, minimizaram a importância do governo (citando-o uma única vez) porque há quem pretenda agigantá-lo cada vez mais em suas atribuições. Assim, pessoas acabam destruindo os benesses oriundos dos mecanismos de mercado. O governo é poderoso, mas pode falhar e por isso devemos ter cuidado.

O governo pode atuar de cima para baixo e, eventualmente, prejudicar a livre iniciativa que faz as coisas funcionarem. Ou então, o governo pode atuar de baixo para cima e permitir que a interação voluntária entre indivíduos solucione os problemas coletivos. Esse paradoxo não fazia parte da história do Lápis, em perspectiva, as coisas realmente são um pouco mais complicadas…

Digo isso porque instituições já estabelecidas ou mesmo novas não se desenvolvem num piscar de olhos.  A tecnologia, por outro lado, se move tão rápido quanto a luz e respondemos sempre com atraso. A história da minha família ganhou novos capítulos, a atuação da livre iniciativa dentro de um ambiente institucional estável é o que resulta no lápis. Nem mesmo a caneta MontBlanc que assina o contrato de investimento estrangeiro costuma marcar presença quando um país é, digamos, bagunçado. As próprias pessoas, numa democracia, exercem pressão para que o governo jogue o jogo e não somente dite as regras. Acontece.

Desde que um mísero lápis como eu se tornou a alegoria máxima das forças de mercado, a liberdade dos indivíduos para produzir e cooperar não perdeu importância. Antes disso, já era assim. Agora, sabemos que o arcabouço institucional, construído de baixo para cima, permite que o jogo seja jogado. Queria eu dizer que o governo ou o mercado sempre resolvem em todas as situações, mas como todo lápis que já passou pelas mãos de um economista, sei o que dizer nessas situações: depende!

Artigo inspirado pelas leituras de An Update to I, Pencil – David Colander & Roland Kupers e Economia em um único artigo — Eu, o Lápis – Leonard Read (tradução de Mises Brasil).

Paulo Silveira

Ex-graduando em Economia pela UFSCar, pythonista e cientista de dados em formação. Produtor de conteúdo especializado em economia e finanças. Foi um dos vencedores do concurso nacional de resenhas organizado pelo Conselho Federal de Economia em 2017, escrevendo sobre a obra 'Princípios de Economia Política e Tributação' de David Ricardo.
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