Nobel 2001: Akerlof, Spence e Stiglitz | por Pedro Fernando Nery

1. Introdução

Os vencedores do Prêmio Nobel de 2001 são conhecidos não só pelos marcantes avanços na microeconomia que foram reconhecidos naquele ano, mas também pelo seu papel no debate público, em parte decorrente do status do próprio Prêmio. Isto é saliente em particular para o caso de Joseph Stiglitz, muitas vezes citado como exemplo da chamada “síndrome do Nobel”, pelo espaço que ocupa com opiniões que seriam menos rigorosas do que o trabalho acadêmico que o premiou. Mas que trabalhos sobre mercados foram reconhecidos no Nobel de 2001? Qual a importância que têm na chamada nova economia? E quais foram as contribuições seguintes desses agraciados, e a atuações que levam à crítica da síndrome do Nobel?

George Akerlof, Michael Spence e Joseph Stiglitz foram laureados em 2001 “por suas análises de mercados com informação assimétrica.” Este é, portanto, um Nobel mais “popular”, no sentido de que a literatura relevante já é mencionada, por exemplo, em cursos de graduação. A informação assimétrica está presente quando, entre os participantes de uma transação, um tem mais informação do que o outro. A ausência de informação assimétrica é considerada um requisito para o bom funcionamento do mercado: sua presença caracteriza, portanto, uma falha de mercado – demandando por exemplo atuação estatal.

O trabalho seminal de Akerlof é O mercado para “limões”: incerteza sobre qualidade e o mecanismo de mercado. Neste caso, o limão é uma expressão da língua inglesa para um automóvel cheio de problemas imperceptíveis à primeira vista (em português está mais próximo dos termos “um abacaxi”, “um pepino”). No mercado de carros usados, haveria tanto bons carros quanto limões. Há informação assimétrica: os compradores têm dificuldade de distinguir com facilidade se estão comprando um carro bom ou um carro que irá apresentar problemas. Já o vendedor do carro usado sabe se está ou não repassando um “limão”.

A sabida existência de limões no mercado reduz o preço que os compradores estão dispostos a pagar em um carro usado. O preço menor afasta os vendedores de bons carros, mas não dos carros ruins, que enxergam na venda um bom negócio. O incentivo para saída dos bons produtos e a entrada dos produtos ruins nesse mercado é um caso de seleção adversa. É uma situação em que a atração dos “piores” participantes é tal que eles predominam, potencialmente destruindo o próprio mercado. O exemplo do paper de Akerlof já foi resumido no Terraço Econômico.

Veja que a informação assimétrica, e a própria seleção adversa, podem ocorrer também quando são os compradores que possuem mais informação – não os vendedores. 

Casos emblemáticos de informação assimétrica e seleção adversa incluem os mercados de planos de saúde e os de empréstimos bancários. Pessoas com condições crônicas de saúde naturalmente tendem a se interessar mais por planos de saúde, e podem tentar omitir a sua condição para conseguir uma mensalidade mais vantajosa. Caso muitos participantes estejam nessa situação, os custos do plano podem ficar proibitivos pelos gastos com tratamentos, inviabilizando-o ou levando a aumento de mensalidades. E assim expulsam os usuários que acham que o plano não vale a pena quando consideram o custo e a possibilidade de uso. 

Outro exemplo de seleção adversa é o caso de um banco que aumenta seus juros para fazer frente à inadimplência nos pagamentos, expulsando justamente os bons pagadores que não consideram viável um empréstimo nessas condições, mas atraindo os maus pagadores que não se importam com o custo do empréstimo, pois não pretendem pagá-lo. Os dois mercados citados podem não prosperar porque os consumidores possuem informações que os vendedores não têm (doenças preexistentes, disposição ao calote). 

Já Michael Spence tem como trabalho seminal Sinalização no mercado de trabalho. Ele descreve o esforço que postulantes no mercado de trabalho têm em sinalizar suas habilidades aos empregadores. Afinal, os empregadores possuem menos informação do que os candidatos, por exemplo, sobre seu talento ou a dedicação que pretendem exercer. Caberia aos candidatos sinalizar que serão bons funcionários, comprovando esforços que não teriam sido empreendidos por outros candidatos, já que envolvem tempo e dinheiro. Um curso de mestrado, por exemplo, ainda que não fosse capaz de aumentar a produtividade do trabalhador, poderia valer a pena pelo seu papel como sinal. 

A sinalização difere da triagem (screening), iniciativa contra a seleção adversa tomada pela parte com menos informação (ex: o empregador usar o mestrado em economia como pré-requisito para uma vaga). Aqui está um artigo seminal do terceiro vencedor do Nobel de 2001, Joseph Stiglitz: A teoria da triagem, educação e a distribuição de renda

Podemos imaginar para os dois exemplos anteriores soluções parciais de screening e de sinalização (carência para usar um plano de saúde, autorização para integrar cadastro positivo de bons pagadores). 

Em verdade, o trabalho mais citado de Stiglitz é justamente um sobre racionamento de crédito em um contexto de informação assimétrica. 

2. Vida e morte da informação assimétrica

Sabemos que o avanço da tecnologia permitiu que novos mercados florescessem. Mas parte desse êxito parece se relacionar com a própria capacidade da tecnologia de responder ao problema da informação assimétrica. Por que você entra em carros de desconhecidos para te levar a um lugar? Ou pede comida de restaurantes que você não sabe onde é e nem nunca lhe foram recomendados? Ou ainda, por que faz pagamentos com a expectativa de receber um produto de um desconhecido que mora a milhares de quilômetros de distância? 

Plataformas, ao adotar mecanismos como a avaliação dos usuários, parecem contornar o problema da informação assimétrica descrito por Akerlof, Spence e Stiglitz. Permite que você veja uma nota para uma nova hamburgueria e que maus vendedores ou prestadores de serviço sejam excluídos de um mercado.

De fato, a teoria da informação assimétrica é frequentemente relacionada às novas tecnologias.  A inteligência artificial, ao processar imensas quantidades de dados, pode diminuir informação assimétrica? Podemos esperar que leve a mercados com produtos melhores?

Hal Varian, autor de um popular livro-texto de microeconomia e economista-chefe da Google, é um dos que associa o avanço tecnológico com efeitos positivos sobre os mercados via melhora na informação. Sangeet Choudary, empreendedor especializado na economia digital, chega a falar em “morte da informação assimétrica”.

Cookies de navegadores como fonte de informação assimétrica ou a sua presença no mercado de videogames são algumas aplicações da teoria microeconômica a novos mercados que uma exploração rápida revela.

Mas da mesma forma que novas plataformas poderiam ampliar a informação nos mercados que intermediam, podem elas próprias se beneficiarem de novas fontes de informação assimétrica? Afinal, muitas têm enorme poder de mercado e convivem com um paradoxo: aumentam a competição entre vendedores que usam a plataforma, mas enfrentam elas próprias pouca competição.

Choudary – o da morte da informação assimétrica – aparece menos otimista em um relatório da Organização Internacional do Trabalho (OIT): “Plataformas podem reduzir a informação assimétrica entre trabalhadores e consumidores, mas aumentam a informação assimétrica entre a plataforma e seus trabalhadores.”

3. Síndrome do Nobel?

Akerlof e Stiglitz são ainda hoje economistas muito influentes no próprio debate público, para muito além do trabalho sobre informação assimétrica. No caso de Stiglitz, que manifesta com clareza suas preferências políticas, há frequentemente a evocação da “síndrome do Nobel” – um questionamento que não é limitado aos prêmios Nobel em economia. 

A expressão é usada por críticos a laureados que externam opiniões, consideradas equivocadas, sobre temas que estariam fora da sua especialidade. Stiglitz chamou atenção no debate de política econômica brasileiro em anos recentes: disse ter boa percepção sobre a economia brasileira, apenas meses antes dela entrar em uma profunda recessão no final de 2014. Posteriormente, criticou o ajuste fiscal de Joaquim Levy – naturalmente não sem controvérsia.

Em minha avaliação, tanto Akerlof quanto Stiglitz têm tido contribuições bastante relevantes em assuntos distintos dos que foram premiados, ainda que menos rigorosas. Akerlof, além de um trabalho teórico influente em economia do trabalho (salários de eficiência), chamou atenção ultimamente pelo que chama de “economia da identidade”. Faz pontes com a sociologia para explicar como normas sociais afetam escolhas de grupos como mulheres e negros, avançando nas explicações para desigualdade de gênero e desigualdade racial e nas medidas para combatê-las. 

Já Stiglitz atua com destaque fora da academia desde antes do próprio prêmio: chefiou o conselho de assessores econômicos da Casa Branca no governo Clinton. É particularmente interessante seus esforços na construção de medidas alternativas ao PIB para avaliar progresso, em particular pelas quanto à desigualdade, insegurança econômica, sustentabilidade ambiental e bem-estar: “O que você mede afeta o que você faz”, diz.  Stiglitz liderou, com o também Nobel Amartya Sen, uma comissão designada pelo governo francês para evoluir no tema – uma agenda que continua gerando publicações e tem influenciado países desenvolvidos.

Atualmente, no ranking da base IDEAS (RePEc), Stiglitz aparece atrás somente de James Heckman como o Nobel de economia de maior impacto. É o 4º economista da lista: Akerlof também integra o top 100. Estudar o trabalho dos laureados de 2001 ajuda a compreender os próprios avanços na economia. 

Pedro Fernando Nery

Colunista no @Estadao. Podcast Economisto – temporada Desigualdade: is.gd/lNcjlk

 

 

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