O próprio Lula já provou que responsabilidade fiscal e política social podem andar juntas

Nem bem terminou a eleição e já começou uma velha discussão brasileira: afinal, o governo precisa ou não colocar as contas em ordem?

Guilherme Boulos, ministro da Secretaria-Geral da Presidência, escreveu que quem defende que Lula faça ajuste fiscal cortando políticas sociais não entendeu nada da eleição. Sâmia Bomfim, deputada federal pelo PSOL, criticou a pressão por cortes em direitos sociais e defendeu a revogação do arcabouço fiscal.

Antes de qualquer coisa, cabe uma ressalva. Boulos falou especificamente de cortes em políticas sociais, não de abandonar toda e qualquer preocupação com as contas públicas. É uma distinção importante.

Mas o tom da discussão acaba reproduzindo uma oposição que, francamente, não deveria existir: de um lado, quem quer cuidar das contas; de outro, quem quer cuidar das pessoas.

Ora, por que uma coisa precisaria excluir a outra?

Mais do que isso: como se pretende manter uma boa política social por muitos anos se o governo responsável por financiá-la não consegue organizar suas próprias finanças?

Vamos aos números, porque eles não ajudam muito a tese de que está tudo bem

Os dados divulgados pelo Banco Central em 29 de outubro, referentes a setembro de 2026, mostram que a dívida bruta do governo geral chegou a 82,9% do PIB, ou R$ 11,1 trilhões. Ao fim de 2022, antes do início do terceiro mandato de Lula, ela correspondia a 71,7% do PIB.

São 11,2 pontos percentuais a mais em menos de quatro anos. Não é exatamente uma diferença que se possa tratar como detalhe de rodapé.

E não para por aí. O setor público consolidado registrou déficit primário de R$ 70,1 bilhões em doze meses até setembro de 2026, equivalente a 0,52% do PIB. No mesmo período, a conta de juros chegou a R$ 1,205 trilhão. Somando as duas parcelas, temos um déficit nominal de aproximadamente R$ 1,275 trilhão, ou 9,51% do PIB.

Aqui há uma diferença que vale registrar: houve melhora recente no déficit primário acumulado em doze meses. Seria errado fingir que não. Mas a dívida continua elevada e o custo dos juros segue enorme. Aliás, são exatamente esses juros que tornam a discussão fiscal ainda mais importante.

Isso significa que a solução seria sair cortando benefícios sociais? Evidentemente que não. Significa que há um problema concreto e crescente, e que ele não desaparece porque alguém decidiu chamar a preocupação fiscal de agenda da Faria Lima.

O curioso caso de Lula contra Lula

Talvez a parte mais curiosa dessa discussão seja que o melhor exemplo de como conciliar responsabilidade fiscal e políticas sociais está na biografia política do próprio presidente.

Voltemos a 2003. Lula assumiu com inflação elevada, desconfiança dos mercados e um país ainda muito vulnerável a choques externos. Antonio Palocci foi para a Fazenda, Henrique Meirelles assumiu o Banco Central e a equipe econômica manteve pilares importantes da política macroeconômica.

O setor público registrou superávit primário em todos os anos de 2003 a 2010. Nos primeiros seis anos, os resultados ficaram em torno de 3% do PIB ou acima disso. E foi justamente nesse período que o Bolsa Família ganhou escala.

O programa saiu de cerca de 3,6 milhões de famílias atendidas em 2003 para 12,8 milhões em 2010. A pobreza caiu, o emprego formal cresceu e o salário mínimo avançou em termos reais.

É claro que o cenário internacional ajudou. A China crescia a taxas extraordinárias, os preços das commodities foram favoráveis durante boa parte do período e o Brasil se beneficiou disso. Também seria simplista atribuir todos os resultados sociais apenas à política fiscal.

Mas a pergunta continua de pé: se Lula conseguiu ampliar políticas sociais e produzir superávits primários nos seus primeiros dois governos, por que agora seria necessário tratar o ajuste como um adversário dessas mesmas políticas?

Não precisamos nem convocar um economista liberal para fazer essa defesa.

Basta conversar com a história do próprio PT.

Ajustar onde? Essa é a conversa que interessa

Há bons argumentos para discutir renúncias tributárias, emendas parlamentares, privilégios e gastos pouco eficientes. Boulos tem razão em colocar alguns desses temas na mesa. Sâmia também pode defender uma tributação mais progressiva. Tudo isso faz parte do debate democrático.

O problema é que, no orçamento, boas intenções precisam vir acompanhadas de números. Quanto se economiza? Em quanto tempo? A receita seria permanente? Depende de lei? Existe apoio político para executar a medida?

O ajuste também não precisa ser um pacote cego de cortes. Pode combinar revisão de subsídios, melhoria da qualidade do gasto, avaliação de programas, medidas de receita e regras mais previsíveis para a trajetória das despesas. E deve, sim, preservar aquilo que funciona e chega a quem mais precisa.

Mas se a resposta para toda proposta de contenção for simplesmente dizer que ela ameaça os pobres, corre-se o risco de deixar intacto justamente o problema que comprometerá a capacidade de ajudá-los no futuro.

Porque dívida tem custo. Juros têm custo. E perder a capacidade de financiar políticas públicas quando a economia entra em dificuldade também tem custo. Frequentemente, quem menos consegue se proteger desse tipo de crise é justamente a população de menor renda.

Em 2027, Lula terá pela frente escolhas difíceis. Poderá priorizar programas sociais, buscar mais receitas, rever despesas e negociar mudanças no Congresso. O que não poderá fazer é abolir a aritmética por decreto.

Há uma ironia nisso tudo: o Lula que governou entre 2003 e 2010 talvez tenha mais a ensinar ao Lula IV do que parte de sua própria base parece disposta a admitir. Ainda mais considerando que, se Lula pretende encerrar seu quarto mandato com um sucessor eleito em 2030, precisará antes entregar um bom governo. E isso passa, necessariamente, por colocar as contas públicas em ordem.

Se foi possível fazer as duas coisas antes, por que agora precisamos escolher apenas uma?


Fontes

Banco Central — Estatísticas fiscais (29/10/2026)
CNN Brasil — Declaração de Guilherme Boulos
Ipea — Bolsa Família 2003–2010

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