Fábula Econômica: O conto de Brasilis

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    Você no Terraço | por Arthur Lula Mota

    Texto originalmente postado no: O Economicista

    Certa vez, Xhina, um dos homens mais rico do poderoso reino Therra, resolveu dar uma festa. Esta festa deveria ser memorável, inédita, para coroar a vinda de um novo milênio daquela nação, com prosperidade para todos. O homem, que não era nobre e havia ascendido rapidamente das classes mais pobres, planejou para que o evento iniciasse as 20h03 (sendo que neste tempo, cada minuto correspondia aos mais longos anos). A festa foi frequentada pelas mais diversas pessoas: desde as mais ricas famílias, como a tradicional família Heuropa, até as famílias menos abastadas, como a família Mertosul, que dentre elas tinha um jovem membro chamado Brasilis.

    Brasilis era um comerciante, que nunca chegara a ser um grande sucesso de vendas, embora todos do reino reconhecessem que o homem tinha de grande potencial, mas astuto que era, conseguiu entrar na festa, pois formou parceria com o velho Xhina nos últimos momentos, vendendo seus produtos para o grande evento – as especiarias vindas de terras longínquas, o minério e a soja – recebendo assim o convite para o afamado evento.

    -“Brasilis, você por aqui? O que fazes nesta festa” disse Alemanho Heurope, um dos maiores engenheiros do reino, ao ver o novo participante da festa.

    -“Fui convidado por Xhina, agora somos sócios, fui eu que vendi os produtos desta festa, isso vai garantir minha vida por muito tempo!” bradou Brasilis, com um tom soberbo de quem até então não estava acostumado a locais tão nobres.

    -“Que magnifico! Mas me diga, como estão os demais negócios? Como está sua relação com os demais homens do reino, ou então os grandes produtos industriais que você lutou tanto no milênio passado para poder fabricá-los por conta própria? ”, perguntou de forma curiosa o velho engenheiro, que agora se encontrava sentado a uma cadeira.

    -“Bobagem! Não preciso ficar mais mendigando relação com esses outros mesquinhos! Muito menos me matar produzindo estes produtos tão complexos! Consigo tudo de forma fácil no meu sítio, que vai prover sustento para esta festa tão longa. Finalmente encontrei meu lugar ao sol, e dele não saio! ” - Afirmou Brasilis, veementemente olhando com desprezo para os demais participantes da festa.

    Alemanho, vendo que o jovem homem se mostrará tão inocente, resolveu dar algumas palavras sábias, de alguém que já estava a muito tempo na sombra:

    -“Mas meu amigo, esta festa um dia vai acabar! Como então proverá seu sustento? Não pode abandonar os demais, se fechar tanto para o seu próprio reino! ”

    -“Maldição, mas por que joga pragas? É como os outros, se acha superior! Não me diga mais suas asneiras! ” – Disse Brasilis, em tom agressivo, agora indo para outro lugar da festa.

    A grandiosa festa na Therra já ia pelas tantas, mas ainda longe de acabar. Dada a grande fartura, todos os participantes já estavam fora de si, se deliciando na bonança e na fartura do momento, porém o mais “alto” de todos era homem mais rico do reino, o Lord Istados Unidus. Este, observado Brasilis isolado em seu canto, quando muito conversando com Xhina e outros demais membros da sua família, resolveu promover um encontro: o velho Onion Heuropa, o ancião da família Heuropa, juto ao o jovem mancebo dos trópicos.

    -“Brasilis, meu caro, este é Onion Heuropa, acho que você já deve ter ouvido falar. Talvez vocês possam firmar alguns negócios” disse Unidus, olhando os dois de forma interessada.

    -“Muito prazer, Onion. Obrigado Unidus, mas já tenho uma forte parceria para esta festa com Xhina, não preciso de mais ninguém. E mesmo que quisesse, minha família Mertosul não permitiria. Minha irmã Argentinius não se dá bem com alguns membros de sua família” comentou Brasilis, desta vez de forma pacifica, dada a importância dos homens que a sua frente estava.

    -“Pois já vou-lhe avisando meu jovem, esta atitude te levará a ruína!”-  Postulou Onion, já se retirando da roda de conversa, levando consigo o velho Unidus.

    Por volta de 20h08, a festa parecia cada vez mais abusiva, e os convidados não paravam de chegar e se deliciar com a fartura. Em um dado momento, Unidus e os membros da família Heurope começaram a passar mal, fato que os obrigou a sair desta longa festa e recorrer a ajuda de seus familiares.

    O brilho daquela grande celebração ameaçava desaparecer, sem agora a participação das maiores celebridades do reino, mesmo quando os demais convidados se viram entretidos pelas peripécias de Xhina e Brasilis, agora já totalmente embriagados, e acompanhados de outros membros da família Mertosul, bem como outras duas das mulheres mais velhas do reino: Hindia e Russhia.

    O sucesso das apresentações cômicas era grande, atingindo seu auge lá pelas 20h11, quando os convidados começaram a se cansar e sentir falta daqueles que haviam já partido do local. Desta forma, a grandiosa festa do reino de Therra começava a dar sinais de seu fim para aqueles que ainda não enxergavam que esta já havia acabado a tempos.

    Notando tal movimento, Brasilis começou a se desesperar, pois apesar de não admitir publicamente, sabia que quando a festa acabasse, não teria mais a fonte de seu sustento. O jovem comerciante correu logo que pode para sua casa, tentando a todo custo reunir as velhas tralhas de sua antiga fábrica, que agora estava defasada e produzia artefatos a altos custos. O homem começou a contatar todos que podiam, tentando vender suas bugigangas obsoletas, mas ninguém as queria – nem mesmos os membros da sua família Mertosul, que também amargavam em seus próprios problemas, nem o velho Xhina, que não comprava mais tanto os produtos festivos.

    A hora era 20h14 e a festa acabou para Brasilis. Os membros ricos do reino que haviam partido antes da festa, quando passavam mal, agora já se apresentavam com a saúde um pouco mais revigorada. Mas não o pobre Brasilis. Este, agora isolado, sem uma festa a qual poderia ser fornecedor, e sem clientes para comprar seus produtos abandonados, traçava a trilha tortuosas dos amaldiçoados, para o terrível reino da Recessão, sonhando para que um dia voltasse a encontrar uma nova festa, que aceitasse um convidado tão soberbo.

    -Relembrando as fábulas de Esopo - Moral da história: Quem planta ventos, colhe tempestades.

    Arthur, economista pela UNIFESP.

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