Polícia Federal, mídia e o setor de carnes: alguns exageros

0
0

No foco da discussão atual está o setor de frigoríficos brasileiro. Dia 17 de março foi a data em que a Polícia Federal, em uma operação chamada de Carne Fraca – esta que se ressaltou ter durado dois anos e ter sido a maior da história do órgão [1] –, fez revelações impressionantes sobre o setor de carnes do Brasil. Os apontamentos envolviam de fraudes na fiscalização (fiscais estariam recebendo propina para não realizarem seu trabalho da melhor maneira possível, deixando passar adiante produtos estragados)até o processamento e comercialização de carne irregular (cabeça de porco), passando por papelão misturado ao conteúdo do que é vendido ao brasileiro.

Os efeitos foram imediatos: perdas imensas de valor das empresas listadas na bolsa, em especial no setor de alimentação e frigoríferos [2], discussões intermináveis sobre a confiabilidade ou não do sistema de fiscalização do Ministério da Agricultura, suspensão da importação da carne brasileira por diversos países [3], reportagens extensas mostrando o tipo de irregularidade que se encontrou [4] e, como o brasileiro decidiu rir para não chorar, uma quantidade incontável de piadas em redes sociais. Em suma, um arranhão notável sobre a confiança do setor.

A sexta-feira de imensas perdas na bolsa de valores de 17 de março se encerrou, passou o fim de semana e então chegou a segunda-feira. O mundo repercute a notícia de que o Brasil, grande exportador de carnes, maquiava parte de sua produção. Eis que, então, surgem explicações sobre o caso, das quais podemos destacar principalmente três: dos quase cinco mil postos de processamento de carne no país, apenas 21 tinham irregularidades reais que acarretaram na imediata proibição de exportação e comercialização de seus produtos e, além disso, o processamento da cabeça do porco não é uma irregularidade e o polêmico “papelão na carne” era, na verdade, uma embalagem que alocaria o produto [5].

Após os acontecimentos da fatídica sexta-feira, tivemos disparado um alerta máximo sobre a qualidade da carne brasileira para o mundo – este que fora seguido pelo envio de comissões de diversos países para analisar se as irregularidades estão presentes ou não nos frigoríficos específicos que exportam, e se caso não estejam, serão baixadas as suspensões de importação. Neste momento, já estão ocorrendo cancelamento destas suspensões [6]. Eis o que deve acontecer nas próximas semanas: outras comissões virão ao Brasil para analisar a situação de nossos produtos – e nossos padrões de qualidade – para, em seguida, sinalizar o fim da suspensão de importações. Outras irregularidades podem sim vir a serem encontradas, porém, boa parte dos pontos deverão servir apenas para autorizar a continuidade das compras de carne brasileiras.

As duas maiores empresas brasileiras deste setor – JBS e BRF – estão listadas em bolsa e sofreram um considerável abalo nos últimos tempos devido a este questionamento levantado sobre todo o setor. Inicia-se agora um período de verificação intensa sobre os processos produtivos e sanitários destas e de outras centenas de empresas brasileiras que exportam carne e, enquanto esta dúvida permanecer, a situação destas empresas na bolsa tende a ser mais negativa do que positiva. Porém, considerando os dados de produção e comercialização deste mercado, nacional e internacionalmente, temos alguns motivos para acreditar que o impacto maior talvez seja de curto prazo.

O mercado brasileiro de carne é imenso: temos o segundo maior rebanho bovino (atrás apenas da Índia), somos o segundo maior produtor (atrás dos EUA), o segundo maior consumidor e o segundo maior exportador, segundo dados de 2016 do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos [7]. Além do mais, as perspectivas para o futuro são de aumento nesta participação (mesmo que as previsões ainda indiquem que estaremos atrás dos Estados Unidos):

[8]

Outra previsão futura, desta vez vinda da Assessoria de Gestão Estratégica do Ministério da Agricultura, sinaliza que o Brasil deverá abraçar 44,5% do mercado de carnes em 2020 [9].

Dado o tamanho que tem este mercado, duas inferências podem ser realizadas: em primeiro lugar, não é factível imaginar que exista substituição dos produtos brasileiros no curto prazo – o que deve resultar em aprovação após análise dos nossos processos sanitários pelos diversos países que suspenderam as compras, nem que seja por um período que seja sucedido de um cancelamento (após encontrar tal substituto) – e, em segundo lugar, certamente este notável mercado mundial já teria suspendido e até cancelado as compras do Brasil anteriormente caso notasse irregularidade no produto adquirido – é natural supor que os compradores verifiquem a procedência dos produtos para seguir realizando novas aquisições, ou, simplesmente, deixariam de fazê-las. Certamente o mercado comprador ao redor do mundo ficará com o pé atrás quanto a expandir suas compras com o Brasil – e ficará a cargo dos produtores nacionais mitigar esta impressão nos próximos anos –, mas, no curto prazo, é difícil imaginar que os danos demorem a ter início de reversão.

Aproximando desta parte é possível imaginar uma discordância do trabalho da Polícia Federal e alguma teoria sobre como ela deseja seletivamente acabar com alguns setores produtivos brasileiros, mas este não é o caso; o trabalho deste órgão tem sido de excelência. A questão aqui recai sobre a maneira de apresentação de dados: não há problemas em afirmar que há uma investigação em curso sobre o setor de carnes, mas é ao menos questionável o motivo de, em vez de tratar das irregularidades quando elas assim o são (reiterando que papelão era para embalagem e a cabeça de porco pode sim ser processada, com os devidos cuidados) e apresentar o problema em sua extensão (são 21 os frigoríficos com irregularidades apontadas, de um total de quase cinco mil no país), apresentar-se algo mais genérico como “todo o setor tem esse tipo de problema”.

Olhando pelo lado positivo, temos que um novo pente-fino sobre a qualidade do setor está sendo passado pelo mundo inteiro neste momento, e isso, para o consumidor é extremamente positivo, pois o que tiver irregularidade sairá do radar da melhor maneira possível: pela via mercadológica. Em todo caso, perdas estão ocorrendo e devem ocorrer ainda por algum tempo – estas perdas são limitadas porque, ressalta-se, no curto prazo não há substitutivo para a carne brasileira exportada (uma vez que o Brasil é um dos maiores exportadores de carne do mundo), então os impasses devem ser resolvidos em um curto espaço de tempo [10]. E, é claro, as novas irregularidades que devem ser encontradas nesta nova análise serão tratadas – basicamente porque as empresas não desejam perder seu mercado, tanto nacional quanto internacional. No curto prazo, prejuízos imensos estão ocorrendo - e não se resumindo apenas aos alvos da operação, mas também a toda a cadeia produtiva envolvida [11] -, mas com o passar do tempo os esforços serão recompensados.

Outro motivo pelo qual o resultado desta operação – mesmo com essa questionável divulgação de dados ocorrida – será muito mais positivo do que negativo ao consumidor é a possibilidade de que, no caso de serem encontradas maiores irregularidades em frigoríficos grandes, suas dificuldades acabem acarretando uma força maior aos produtores menores, estes que buscarão demonstrar a certificação da qualidade de seus produtos para obterem o mercado. Em suma: por um aumento da verificação da qualidade e possivelmente por um efeito maior de concorrência, o consumidor acabará sendo beneficiado.

É preciso reforçar que não há nenhum problema com a atuação da Polícia Federal, em qualquer operação que seja; mas fica o adendo para que, em próximos anúncios de operações, estejam presentes mais quais foram as irregularidades encontradas na investigação e qual a extensão do que se encontrou como irregular do que um alerta geral e irrestrito que, apesar de ter sua importância, a de verificar a qualidade geral do setor, gera prejuízos de curto prazo. O que tiver de ser punido, suspenso, proibido ou afins por estar irregular será devidamente apontado e corrigido – e que sejam corrigidos exageros/desproporcionalidades no tocante a esta divulgação de dados, de modo a permitir que o que se encontrou sob irregularidade seja sumariamente apontado, não um direcionamento geral e irrestrito que possa causar danos até a quem esteja dentro das normas.

 

Caio Augusto – Editor do Terraço Econômico

 

[1]          http://www.infomoney.com.br/mercados/noticia/6246062/maior-operacao-historia-deflagra-carne-fraca-com-mandados-prisao-brf

[2]          http://www.infomoney.com.br/mercados/acoes-e-indices/noticia/6248035/jbs-brf-perdem-bolsa-com-operacao-carne-fraca-gafisa-desaba

[3]          https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2017/03/20/uniao-europeia-barra-importacao-de-carne-das-empresas-investigadas-pela-pf.htm

[4]          http://g1.globo.com/fantastico/noticia/2017/03/fiscal-que-denunciou-esquema-no-pr-conta-absurdos-que-viu-em-frigorifico.html

[5]          http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2017/03/associacoes-de-produtores-de-carne-criticam-forma-como-pf-divulgou-acao.html

[6]          http://oglobo.globo.com/economia/coreia-do-sul-cancela-suspensao-de-importacao-de-frango-brasileiro-21090855

[7]          http://blogdacarne.com/index.php/2016/06/29/dados-estatisticos-do-complexo-de-carnes-2016/

[8]          Apresentação da Beef Summit 2014 https://pt.slideshare.net/BeefPoint/beefsummit-brasil-osler-desouzart-cenrio-do-mercado-da-carne-de-aves-suna-e-bovina-em-2014

[9]          http://www.srb.org.br/noticias/article.php?article_id=3320

[10]        http://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2017-03/suspensao-de-importacao-de-carne-do-brasil-nao-deve-ser-longa-diz-aeb

[11]         http://www.olhardireto.com.br/agro/noticias/exibir.asp?id=24919&noticia=cadeia-produtiva-avalia-prejuizo-imediato-com-carne-fraca-e-pede-para-setor-nao-ser-colocado-no-banco-dos-reus

Comentários