Reflexões econômicas na Bélgica: o mercado de impressão e o isolacionismo brasileiro

Há cerca de dois meses me mudei para uma cidade universitária no dito coração europeu, a controversa Bélgica. Economista de carteirinha – sim, usarei o título até o fim do ano para dar alguma utilidade à “contribuição” paga [1] – e apaixonada por viagens, tenho acumulado diversas observações neste período. Mais do que relatos sobre o estilo de vida europeu, minha coleção também é de ponderações econômicas sobre aspectos cotidianos deste pequeno país.

Neste artigo não vou me aventurar a debater a excessiva burocracia belga, e também tentarei fugir de comparações com o Brasil (deixando apenas a observação de que, apesar de toda esta burocracia, o funcionamento das instituições ainda é muito mais célere do que a média brasileira). Na verdade, o texto é um breve relato de situações econômicas (de certa forma, não convencionais) que chamaram a minha atenção nestes primeiros meses.

Casas de Xerox

Em se tratando de uma cidade universitária, não é de se surpreender que um bom negócio em Louvain seja (ou era) abrir uma casa de xerox. São muitas espalhadas pela cidade. A Teoria Econômica nos diz que em um mercado competitivo, sem falhas significativas, os preços tendem a convergir. E é justamente isso que vemos (ou víamos) no mercado de xerox/impressão por aqui. Não me recordo ao certo o valor da xerox, mas a impressão é padrão: 10 cents por folha.

Na primeira semana de aula, estas lojas estavam abarrotadas de estudantes. Na segunda, vazias. Uma teoria seria a de que os alunos anteciparam as impressões/xerox do semestre ou do mês. Outra plausível seria a de que os estudantes, em especial os internacionais, descobriram (assim como eu) o novo sistema de impressão/xerox da universidade. Com este, você coloca crédito online na sua carteirinha e manda os arquivos que deseja imprimir para uma nuvem, depois basta ir em alguma das bibliotecas cadastradas e passar a carteirinha no sensor da impressora para escolher qual arquivo deseja imprimir. O sistema de xerox também funciona de forma parecida, sem a necessidade de um atendente.  

O que a Ciência Econômica nos diria sobre esta situação? Que a inovação tem potenciais ganhos de produtividade e tende a beneficiar os consumidores. Curiosamente, o preço da impressão através deste sistema é a metade do observado nas casas de xerox: 5 cents por folha. Além disso, existem ganhos adicionais no processo: o horário de funcionamento das bibliotecas é bem mais amplo do que o expediente comercial na Bélgica; e o sistema não demanda a utilização de pen drives ou mesmo de cartão/dinheiro.  

Infelizmente, não tenho informações se seria o caso de algum subsídio por parte da universidade. Entretanto, em um país com altos custos de mão-de-obra, é curioso notar como a realidade se mostra bastante próxima do resultado que seria previsto pela Teoria Econômica em face de uma inovação: queda de custos, com transferência de ganhos aos consumidores.

Não conhecia esta tecnologia antes de chegar aqui, mas fico na torcida para que não enfrente políticas protecionistas (assim como inúmeras outras inovações) e seja difundida em terras brasileiras.

Por falar em protecionismo...

O isolacionismo brasileiro é bastante conhecido dos que acompanham os indicadores econômicos do país. Entretanto, a dimensão do fenômeno nem sempre é igualmente conhecida. A motivação para ir atrás dos dados apresentados abaixo, por exemplo, veio de uma aula sobre comércio internacional sob a perspectiva da União Europeia.

Durante a primeira palestra do curso, o professor (representante do bloco europeu) falava sobre as diferentes formas de integração internacional e citava frequentemente as relações comerciais da União Europeia com os chamados “países emergentes”. Enquanto isso, os nomes China, Índia e Rússia saltavam nos slides, mas nada de Brasil. Como se o palestrante ouvisse meu questionamento silencioso, certo momento afirmou “bom... aqui você também poderia colocar o Brasil”.

Não posso negar que fiquei de certa forma frustrada com a frase. Não tinha quaisquer dúvidas sobre o isolacionismo brasileiro em termos de comércio internacional, mas também sabia que o bloco europeu é um dos nossos principais parceiros.

Como o leitor pode ver abaixo, em 2016, a União Europeia foi o segundo destino das nossas exportações (pouco atrás da China, com participação de 18%), sendo também a origem da maior parte de nossas compras (23%). O oposto, entretanto, está muito longe de ser verdade: o Brasil representa menos de 2% das exportações europeias e meros 1,8% das importações (dados da World Trade Organization).   

Fonte: World Trade Organization.

Na comparação com a média dos demais BRIC’S (Rússia, Índia, China e África do Sul), temos uma imagem mais nítida do fechamento da nossa economia. Enquanto nestes países o comércio internacional (exportações + importações) representa em média 45% do PIB (com o menor valor, de 37%, sendo observado na China), no Brasil, esta razão oscila ao redor de 20% desde a abertura comercial.

Fonte: World Trade Organization

Uma análise ainda mais interessante é a da porcentagem do valor doméstico adicionado às exportações brasileiras – isto é, quanto do que é exportado tem origem no país. Segundo estimativas da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico) [2], o índice de nacionalização brasileiro era próximo a 88% em 2014, fato que colocava o país em 4º lugar entre as 59 economias estudadas. Nota-se que este índice é maior do que o apresentado pelos grandes exportadores mundiais, como Estados Unidos (85%), Alemanha (75%) e China (71%).

Antes de representar uma dominância tecnológica por parte do Brasil, entretanto, este dado é o reflexo da falta de inserção das empresas nacionais nas cadeias globais de valor. O baixo índice de participação estrangeira reflete o elevado isolacionismo brasileiro, bem como as principais consequências atreladas a ele – notadamente, o atraso tecnológico e os altos preços aos consumidores.

A teoria e a pesquisa aplicada em Comércio Internacional reforçam a ideia de que este traz benefícios a todos os participantes. Os custos do isolacionismo brasileiro, entretanto, são concentrados, com apenas um grande perdedor.

Daniele Chiavenato
Editora do Terraço Econômico

Notas

[1] Sobre a discussão a respeito da obrigatoriedade do CORECON, ver: http://mercadopopular.org/2017/09/economistas-diploma/.  

[2] Ver: https://data.oecd.org/.  

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Sobre Daniele Chiavenato 8 Artigos
Formada em Economia pela FEA-USP, tem passagem pelas áreas de macro e microeconomia aplicada em consultorias econômicas do país. Querendo ser diplomata, acabou no curso de economia, onde se apaixonou por temas relacionados à avaliação de politicas públicas. Tem interesse especial nas áreas de educação e saúde. Atualmente, na boa companhia das cervejas e chocolates belgas, cursa o mestrado em economia na Universidade de Louvain.