Sem China e Índia, a Copa do Mundo não é do mundo

DENÚNCIA! A Copa do Mundo de 2018, que está ocorrendo na Rússia, não é uma copa do mundo.

Essa afirmação pode parecer alguma declaração do jogador Zlatan Ibrahimovich ou apenas alguma piada digna de stand-up. Mas o motivo é outro, e envolve a ausência de dois gigantes do planeta na competição.

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Os gigantes não são Itália e Holanda, como alguns naturalmente poderiam imaginar, mas são duas potências emergentes da Ásia. Isso mesmo, os dois gigantes aqui são China e Índia. O comediante indo-canadense Russel Peters em uma piada fez esse “alerta”, de que uma Copa sem China, Índia e Canadá não poderia ser considerada como mundial. Mas essa observação, tirando o Canadá (nada pessoal contra os canadenses), está muito, mais muito longe de ser apenas uma piada.

China e Índia, potências sim! Do futebol (ainda) não

Tanto na China como na Índia, o futebol está bem longe de ser o esporte mais popular. Na China é apenas o quarto esporte, enquanto que na Índia, é o terceiro, perdendo para o clicket e o hóquei na grama.

A baixa popularidade pode ser ilustrada pelo baixo desempenho de suas seleções. A China, jogando como República Popular da China, participou apenas de uma Copa do Mundo, a que foi realizada no Japão/Coreia do Sul em 2002. Enquanto a Índia, ainda não possui nenhuma participação em Copas.

Mesmo assim, pesados investimentos têm sido aplicados recentemente no futebol desses dois países, o melhor exemplo disso é a contratação de jogadores famosos. Estrelas como Didier Drogba e Carlitos Tevez atuaram pela liga chinesa, enquanto Fábio Canavaro e Lúcio tiveram passagens pela liga indiana. Além disso, há uma série de outros profissionais, como técnicos, médicos, massagistas e preparadores físico, de várias partes do mundo, que vêm sendo contratados para trabalharem nessas ligas.

A depender da pujança econômica dessas duas potências, é bem provável que essa tendência se intensifique. Como ilustração, alguns dados sobre China e Índia podem ser vistos a seguir:

FONTE: BANCO MUNDIAL (2016), OEC (2016).

Esses dados refletem algumas características interessantes sobre os dois países. China e Índia são as nações mais populosas do planeta, juntas representam quase a metade da população mundial. No quesito extensão territorial, os dois se encontram entre os dez mais extensos do planeta, a China é o 3º mais extenso, sendo a Índia o 7º.

Além disso, foram os que mais cresceram nos últimos anos, crescimento médio de 6% ao ano.  Estão entre os vinte países que mais exportam no mundo, a China lidera a lista, enquanto a Índia se encontra na décima sétima colocação.

Mais informações sobre as duas potências podem ser encontradas no seguinte artigo, já publicado no Terraço, Por que os BRICs estão desacelerando?.

Só falta combinar com a FIFA

Parafraseando uma célebre frase atribuída a Garrincha, “Só falta combinar com os russos”, aqui seria “Só falta combinar com a FIFA”. Os dados demográficos e econômicos de China e Índia são incríveis, mais é preciso saber o que a FIFA, órgão máximo do futebol, acha disso tudo.

A resposta pode ser interpretada com um sonoro “I need your money!”. Os motivos para isso remetem a potencialidade do mercado consumidor chinês e indiano, afinal trata-se de meio mundo. Com participações mais regulares de China e Índia em Copas, a popularidade do futebol se elevaria nesses países.  E o provável resultado para isso seria: idas a estádios, venda de camisas, e de uma série de outros produtos relacionados com o futebol.

Assim, a movimentação nos bastidores é forte para um alargamento no número de vagas para a Copa do Mundo, algo que facilitaria a entrada de China e Índia na competição. A discussão não é recente e já contou com propostas que pretendiam elevar de 32 países (modelo atual) para incríveis 64! Tal mudança é tida como uma questão de tempo, apesar de que atualmente, o aumento mais factível é o que eleva o número de seleções para 48, mudança amplamente defendida já para a Copa de 2026.

Esse tipo de proposta vai ao encontro de países com pouca tradição no futebol, especialmente os que possuem muito dinheiro pra investir no esporte, além de aumentar a arrecadação das federações de futebol. O lado negativo talvez seja a competitividade da competição. Pela lei dos rendimentos decrescentes, se a Copa do Mundo tornasse um campeonato de todo o mundo, ficaria fácil ver clássicos sofríveis, como Ilhas Finji contra Coréia do Norte, Cazaquistão contra Luxemburgo e por aí vai...

A Copa do Mundo precisa de China e Índia?

Num mundo em que expressões como “fake news” e “verdade pós moderna” vêm se popularizando, é fácil encontrar teorias pra tudo, inclusive quando o assunto é Copa do Mundo.

Para alguns, a Copa do Mundo representa um instrumento de dominação tipicamente capitalista. Uma espécie de ópio para amansar e ludibriar as massas empobrecidas. Além de servir de instrumento para perpetrar em novas culturas, numa espécie de “colonialismo contemporâneo”, que visa a substituir os costumes típicos da localidade.

Mas se preferirmos uma explicação mais pragmática e factível com a realidade, basta observar a Copa do Mundo pela ótica do mercado. Quanto maior a demanda pela Copa, formada por pessoas que assistem aos jogos, compram álbuns e camisas, mais lucrativa se torna a competição. E considerando que ainda há um mercado pouco explorado, um verdadeiro mundo novo com economia em expansão, a lógica indica ser muito vantajosa a expansão da Copa.

Agora isso parece não ser tão claro, mas com o tempo, o fortalecimento da competição “Copa do Mundo” dependerá da sua expansão para outras localidades, em que o futebol possui pouca popularidade. De maneira ainda mais especial, para China e Índia.

Mas afinal, a Copa da Rússia é um mundial?

A Copa da Rússia já está em andamento, devidamente organizada pela FIFA, sendo protagonizada por seleções de países dos mais diversos cantos do mundo. As cidades russas, que sediam os jogos, estão tomadas por uma multidão de estrangeiros.

Por isso seria uma verdadeira piada, ao bom estilo Russel Peters, dizer que a Copa do Mundo realizada na Rússia não é um mundial. Mas o que não é piada, é que nesse mundo da Copa, ficaram faltando dois gigantes e mais de dois bilhões de pessoas.

 

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Sobre Lucas Adriano 6 Artigos
Graduando do 9º período de Ciências Econômicas, na Universidade Federal de Viçosa (UFV). Participa de um grupo que trata de temas relacionados a criminalidade (LAEC), faz iniciação científica e já foi monitor de macroeconomia. Vindo de Ponte Nova (MG), cruzeirense e fã de observar a abordagem econômica sendo utilizada nos mais diversos assuntos. Espera um dia poder dar a sua contribuição para a Ciência Econômica.