Para um velho Lula, um novo mundo

Após uma eleição modorrenta (e subitamente agitada), Luís Inácio Lula da Silva chega ao seu quarto mandato. Pela primeira vez na história da república brasileira, alguém consegue tal façanha. Com uma virada estatisticamente improvável (após perder o primeiro turno), nunca antes na história deste país tal virada aconteceu. 

Independente do que tenha sido o fator que fechou a conta – um avanço do Lulismo ou a força do Anti-Bolsonarismo -, fato é que a realidade segue tão implacável quanto estava antes desse período todo. A gangorra polarizadora continua. 

Aqui vamos falar dos fundamentos, da economia, do macro. Quanto aos mercados, é tudo o velho trade eleitoral. O que “decolou” em 2019 e depois acomodou agora “implodirá” para depois se acomodar de novo. 

Vamos falar do que realmente importa aqui.

O histórico de Lula I a Lula IV

Quando Lula chegou à presidência pela primeira vez, em 2003, o Brasil era um país muito diferente. Plano Real não tinha nem dez anos, a China tinha acabado de entrar na OMC e regras estabelecidas desde o pós-Segunda Guerra pelos EUA estavam em plena vigência. A desconfiança era grande, Argentina tinha implodido um ano atrás no maior calote soberano do mundo, puxando todos os emergentes consigo. Lula era o estranho no ninho. 

Lula surfou o melhor período da história do Brasil, economia saneada por FHC, China decolando e comprando commodities de forma desenfreada. Aqui o fiscal arrumado junto com o crescimento e a formalização brutal da economia, com um número enorme de pessoas entrando no mercado de trabalho formal, a economia floresceu. No resto do mundo a estabilidade virou regra, a globalização exportava deflação, juros caiam, tudo parecia perfeito, ao ponto de que os economistas chegaram a declarar que haviam descoberto o santo graal de não ter mais crises. Até que em 2008 a imprudência financeira que a tranquilidade permitiu cobrou seu preço.

Desde 2008 o mundo foi se desfazendo em um novo equilíbrio, o Brasil deu de cara no muro e teve diversas crises institucionais. Impeachemnt, Lava Jato, Bolsonarismo, des-Lava-Jato. Ao mesmo tempo que o mundo questionava o globalismo, o chinês virou o inimigo número um do trabalhador do mundo desenvolvido. Tudo que permitiu o crescimento da primeira década dos anos 2000 virou inimigo. 

ONU? OMC? OMS? Tudo coisa de “globalista”.

Naquele Brasil de um Lula que havia acabado de receber o cajado de FHC, tínhamos o chamado Tripé Macroeconômico em pleno vigor, ao menos em termos teóricos. Falava-se em superávit primário, o câmbio flutuava e o regime de metas de inflação começava a engatinhar.

Entre 2000 e 2013, mesmo com manobras questionáveis nas contas públicas, o Brasil gerava superávit primário. Começou sendo acima de 3% no início dos anos 2000, diminuiu para uma média de 2 a 2,5% nos anos Lula e foi diminuindo até 2013, já em Dilma I. Em função disso, a dívida conseguiu ser diminuída, os juros paulatinamente foram sendo reduzidos e a carga tributária andou de lado. 

Atenção a este último ponto.

No pós-crise de 2008, uma mudança importante aconteceu: quando veio o tsunami lá de fora (aquele que virou marolinha em Terra Brasilis, a César o que é devido), o alívio interno se deu com base em consumo e crédito. Naquele 2010 de PIB superior a 7%, dizia-se que o Brasil havia descoberto a fórmula do crescimento infinito. Ledo engano: não se troca de carro, geladeira, microondas e televisão todo ano. O limite é claro e havia sido atingido.

Unindo a essa marcha máxima da máquina o fato de que teve uma Lava Jato no caminho – não entremos no mérito político da coisa, mas um setor relevante do nada travou e demitiu gente pra caramba -, caímos na maior crise já registrada em 120 anos. Quase 8% de queda de PIB no biênio 2015/16. E demoramos anos para retomar a máxima em termos reais depois disso basicamente dez anos.

Na chegada do primeiro mandato de Lula, um mundo que demandava do Brasil em velocidade imensa, respeitava regras globais e havia espaço até para endividamento – público e privado.

O momento atual é novo e está na outra ponta: ainda somos demandados, é verdade, mas por parceiros comerciais de um mundo em conflito geopolítico onde quem criou as regras as despreza, com um endividamento público e privado em níveis elevados e baixíssimo espaço para manobra.

E pra complicar…

Teremos o velho Lula de sempre

Se tem uma coisa que ficou muito clara na campanha eleitoral para presidente em 2026 é que os dois que chegaram ao segundo turno não tinham muito ajuste em mente. Um deles até citou um tal de “tesouraço”, mas prometia tudo que o outro falava que ia fazer “e até mais” – o que significa em termos práticos que, ajuste mesmo, só no Posto Ipiranga.

Logo no primeiro discurso após confirmada a eleição – pelo TSE, pelo Xi Jinping e por diversos jornais globais -, Lula disse que fará deste seu quarto e último mandato aquele que mais incluirá o povo em suas decisões. Dessa vez, segundo ele, as ruas serão ouvidas de verdade, de modo mais direto.

É importante notar que o mercado irá emparedar Lula, cobrará disciplina e quem sabe mostrará um termômetro que as ruas não transmitem. Apesar do comportamento maníaco-depressivo dos preços, o mercado é um agente importante, afinal, é quem financia a dívida pública…

Fica o grande questionamento, então: em um mundo mais arisco e com pouco espaço doméstico para manobras, seria o velho Lula capaz de lidar com esse novo mundo?

Seguiremos de olho de modo propositivo, como você sabe que pode contar conosco desde nossa fundação.

Caio Augusto e Victor Candido
assinam esse artigo

Caio Augusto

Formado em Economia Empresarial e Controladoria pela Universidade de São Paulo (FEA-RP), atualmente cursando o MBA de Gestão Empresarial na FGV. Gosta de discutir economia , política e finanças pessoais de maneira descontraída, simples sem ser simplista. Trabalha como diretor financeiro de negócios familiares no interior de São Paulo e arquiva suas publicações no WordPress Questão de Incentivos. É bastante interessado nos campos de políticas públicas e incentivos econômicos.

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