Canadá sob Pressão: Juros em 2,25% e guerra tarifária com os EUA

No dia 2 de setembro de 2026, o Bank of Canada (Banco Central do Canadá) manteve a taxa básica de juros em 2,25% ao ano. Segundo a autoridade monetária, as incertezas decorrentes do conflito no Oriente Médio e as novas tarifas dos EUA — somadas à retaliação do governo canadense — podem criar um ambiente de risco para a estabilidade econômica do país.

A inflação ao consumidor (CPI) subiu 0,5% em julho, e, no acumulado dos últimos 12 meses, o índice acelerou de 2,8% para 3,0% ao ano, ficando ligeiramente acima da expectativa de mercado, que era de 2,9%. Essa aceleração foi impulsionada principalmente pelo aumento dos preços da gasolina, causado pela retomada dos ataques entre EUA e Irã. Já o núcleo da inflação permaneceu dentro da meta de 2,0%.

No mercado de trabalho, o Canadá criou 42 mil vagas de emprego em agosto, e a taxa de desemprego permaneceu em 6,4%, o menor nível em dois anos (ante 6,5% em junho de 2026). Além disso, o PIB canadense cresceu 0,3% em junho, principalmente em função do setor serviços (0,4%) impulsionado pelo comércio atacadista do varejo e administração pública. Os dados indicam que a economia canadense está estável, com inflação controlada, embora ainda acima da meta, além da taxa de desemprego em queda e crescimento econômico.

Entretanto, o que mais preocupa o mercado são as negociações das tarifas de 50% impostas pelos EUA. No dia 21 de julho, o primeiro-ministro canadense, Mark Carney, reuniu-se com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, mas as discussões não resultaram em um acordo. Atualmente, cerca de 70% das exportações do Canadá são destinadas aos EUA, que são o principal parceiro comercial do país. Os setores mais afetados pelas tarifas incluem bebidas alcoólicas, materiais de construção, artigos esportivos (especialmente tacos de hóquei), roupas e acessórios de vestuário. Além disso, os EUA decidiram aplicar tarifas de 50%, a partir de 2027, sobre outros produtos, como carros, caminhões, autopeças e aço. Após o anúncio, veio a retaliação do Canadá, com tarifas equivalentes “dólar por dólar”, o cenário ficou ainda mais conturbado.

Adicionalmente, Canadá, EUA e México fazem parte do USMCA, o bloco econômico que substituiu o NAFTA. No mês passado, os EUA se recusaram a renovar o acordo na sua forma atual e iniciaram negociações unilaterais com o México para reduzir os déficits comerciais com os dois países. As incertezas sobre a renovação do USMCA aumentaram após o fracasso das negociações com o Canadá.

As consequências dessa guerra tarifária podem trazer prejuízos significativos para o Canadá, como o aumento do desemprego, a depreciação do dólar canadense devido à saída de recursos do país e a necessidade de maior apoio governamental a mais setores, além do siderúrgico, que já enfrenta tarifas desde o ano passado. Esse suporte do governo, no entanto, pode esbarrar em limitações da política fiscal, que já teve seus gastos aumentados durante a pandemia de COVID-19.

Para conter os impactos das tarifas americanas, o governo canadense estuda entrar como país membro associado da União Europeia. As negociações estão voltadas pela integração de cadeias estratégicas como energia, minerais críticos e defesa. As autoridades do bloco e do Canadá afirmaram que União Europeia está aberta a proposta do Canadá entrar como membro associado. Desse modo, os bens e serviços e trabalhadores poderiam circular com menos barreiras entre o bloco e o Canadá. Além disso, as tentativas também incluem a construção conjuntas de cabos submarinos, armazenamento em nuvem e redes de satélites, além de gasodutos para redirecionar o gás do Canadá para a Europa. Essa decisão esbarra nos EUA, pois atualmente a Europa é dependente das rotas americanos de gás.

Assim, apesar de o Canadá estar disposto a buscar novos parceiros comerciais e reduzir sua dependência dos EUA, alguns obstáculos podem dificultar esse processo. Atualmente, a proximidade geográfica entre os norte-americanos favorece o comércio bilateral, pois reduz os custos de transporte e alinha as estruturas regulatórias e burocráticas — dinâmica semelhante à observada na União Europeia, onde a proximidade e a padronização de normas facilitam as trocas entre os países-membros. Diante disso, alguns governos europeus demonstram preocupação de que Mark Carney esteja utilizando o bloco apenas como instrumento de pressão contra os EUA em relação às tarifas impostas ao Canadá.

Portanto, a próxima reunião de política monetária do Bank of Canada está agendada para o dia 28 de outubro. Os próximos dados de inflação, balança comercial e crescimento econômico serão fundamentais para a autoridade monetária tomar sua decisão em relação à taxa de juros. Apesar de o banco central ter mantido a taxa em 2,25% a.a., o CPI continua acima da meta de 2% ao ano. Diante disso, questiona-se até quando a instituição tolerará uma inflação alta. Adicionalmente, fica a dúvida: os estímulos da política fiscal para ajudar os setores prejudicados pelas tarifas não poderiam pressionar ainda mais a inflação no país?

Jessica Martins
Economista pela Universidade de São Paulo e mestre pela Universidade de Calgary

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