EUA x Rússia e China: Uma Guerra de dois Fronts

As potências mundiais travam uma batalha até então silenciosa

Mesmo após a anexação da península da Crimeia e invasão militar das regiões de Donetsk e Lugansk pela Rússia em 2014, durante o governo Obama nos EUA, além de ainda ter que lidar com a Guerra Civil nas regiões invadidas, a Ucrânia continua em tensão pelo risco de uma possível invasão completa por parte da Federação Russa, lidando com ameaças e movimentos cada vez mais intensos do exército russo em suas fronteiras.

Lidando com isso e tentando evitar uma escalada militar e a invasão completa de um país em solo Europeu em pleno século XXI, estão os Estados Unidos e seus aliados da Otan frente à Rússia. Recentemente, ainda no Leste Europeu, o líder russo, Vladimir Putin, admitiu posicionar armas nucleares contra os países da Otan em Belarus, reduto do controverso e repressivo Alexander Lukashenko, conhecido como o “último ditador da Europa”, que tem trazido os mais variados problemas nas fronteiras com a União Europeia.

A China, expansionista, ameaça e desrespeita constantemente as fronteiras terrestres e marítimas de diversos países, desde a Caxemira (onde conseguiu diversos conflitos com a Índia), até o pacífico, tendo atritos com diversos países da região (principalmente aliados de longa data dos EUA, como Japão e Austrália), sem contar as ameaças constantes contra a independência de Taiwan, país mais que fundamental para a estratégia econômica global e teoricamente protegido pelos Estados Unidos. Os testes dos mísseis supersônicos chineses com capacidade nuclear, com potencial de atingir qualquer local o globo com uma ogiva, elevaram a tensão militar China-EUA para um nível não visto há muito tempo na história recente.

Para tentar conter esse acelerado expansionismo militar chinês, os Estados Unidos reativaram recentemente o QUAD (Quadrilateral Security Dialogue), uma união militar-estratégica entre EUA, Japão, Austrália e Índia; e criou o AUKUS (Australia, United Kingdom, United States), uma definitiva aliança-militar entre Austrália, Reino Unido e EUA.

A Guerra na Europa

A Rússia resiste há muito tempo sobre a aproximação da Ucrânia à União Europeia e à Otan, a última coisa que o Kremlin quer é um país historicamente sob sua influência e em sua fronteira direta fazendo parte da principal organização militar do Ocidente sub tutela dos EUA.

Moscou exigiu que a Otan rescinda um compromisso firmado em 2008 com a Ucrânia que previa a filiação à organização. Além disso, a Rússia, uma inquestionável potência militar e nuclear, afirmou que a Otan tem de se comprometer que não armará nenhum país fronteiriço que pudesse ameaçar a segurança nacional russa. Enquanto isso a Ucrânia pressiona por mais ajuda do Ocidente, evidenciando que seria incapaz de conter sozinha uma ação militar russa em seu território.

Vladimir Putin garante aos governos do Ocidente que se eles cruzarem as “linhas vermelhas” haveria uma invasão completa na Ucrânia. As linhas vermelhas seriam a expansão da Otan em direção ao Leste Europeu e países do Cáucaso (como a Geórgia), ou auxílio logístico e militar a qualquer um dos países que façam fronteira com a Rússia.

Mas, sem dúvidas, a primeira arma a ser usada pelos EUA e União Europeia para conter os avanços russos seriam as sanções. O governo americano enfatiza no quanto pode piorar a economia russa com mais bloqueios econômicos e de mercado, ou mesmo restrições à conversão de rublos em moeda estrangeira pelos bancos. Uma ferramenta poderosa é a desconexão do sistema bancário russo do sistema internacional de pagamentos Swift, o que poderia colapsar todo o setor de recebimentos e pagamentos russo, fazendo a Rússia entrar em um blackout econômico.

Outras possíveis formas de influenciar negativamente a economia russa, antes de qualquer tipo de movimento militar mais direto, seria a suspensão da abertura do gasoduto russo Nord Stream 2, um complexo sistema de gasoduto que tenta evitar o Leste Europeu para chega à Alemanha e se distribuir por toda a Europa Ocidental, mas em contra partida o próprio governo russo pode inibir o envio de gás aos europeus, podendo causar uma crise energética em todo o continente, afetando não só indicadores econômicos como a inflação, mas toda a produção industrial. Mesmo após todos esses movimentos econômicos para frear Moscou, é difícil prever como os conflitos continuariam a se desenrolar.

A Guerra na Ásia

Com a apresentação dos mísseis hipersônicos ultramodernos, do míssil balístico DF-41 (capaz de atingir qualquer país e lançar até 12 ogivas nucleares), os bombardeios estratégicos H-6N e o JL-2 (míssil intercontinental de lançamento submarino), a China demonstra sua capacidade de ataque nuclear e tecnologia balística avançada, evidenciando seu poder bélico e estratégico.

Com seu processo de modernização das Forças Armadas nos últimos 20 anos, que se acelerou sob o comando de Xi Jinping, Pequim exibe um crescente gasto militar que equivale a pelo menos 14% do gasto global.

A China desenvolveu uma indústria armamentista e naval impressionante (a frota chinesa possui pelo menos 335 navios de guerra; a dos EUA, cinquenta a menos, de acordo com um relatório do Serviço de Pesquisa do Congresso), pois o mundo vem dando atenção às pretensões de Pequim em expandir sua influência e dominação no Mar da China e no Pacífico, dominação qual se dará por sua frota naval e poder militar marítimo. Além disso os fabricantes chineses de armamentos se destacam, além até dos ocidentais, no âmbito da inteligência artificial, algoritmos, mísseis inteligentes e drones militares.

As águas do Mar da China Meridional, além de serem a base dos submarinos nucleares chineses, são, possivelmente, as águas mais estratégicas do planeta. Além das riquezas de seu subterrâneo, como em gás e petróleo, são a passagem natural do Mar Índico ao norte da Ásia, por onde transitam barcos comerciais que transportam produtos no valor estimado de 30 trilhões de reais anualmente.

A China reivindica cerca de 80% desse mar usando como argumento mapas antigos e histórias ainda mais antigas, mas para ter esse domínio, terá que disputar a expansão de suas fronteiras marítimas com pelo menos outros 6 países do Sudeste Asiático que estão nessas águas, seus aliados e, claro, os Estados Unidos. As ilhas Spratly, reivindicadas pelas Filipinas e disputadas com a China, são só um exemplo de tensão que o expansionismo marítimo chinês tem causado ao mundo nos últimos anos.

E para onde vamos?

A Guerra Comercial com a China e as sanções econômicas contra a Rússia não surtiram os efeitos que os americanos esperavam; o expansionismo fronteiriço e também econômico chinês (One Belt One Road, a Nova Rota da Seda chinesa) parece fortalecer-se e influenciar os países e a economia global ainda mais intensamente; e a Rússia, sob Putin, demonstra-se continuamente mais expansiva e ameaçadora aos Estados Unidos e à Europa.

Nenhuma potência na história conseguiu manter-se ao tentar lutar em dois ou mais fronts. Napoleão sucumbiu definitivamente em Waterloo ao lidar com duas frentes de batalha, a dos ingleses, liderados pelo Duque de Wellington, e a dos prussianos, liderados por Gebhard Blücher. Já os nazistas foram derrotados por não conseguirem administrar a guerra no Front Ocidental (liderado pelos EUA e Reino Unido) e no Front Oriental (Contra a União Soviética).

Os Estados Unidos, além de tentarem evitar cair na Armadilha de Tucídides com a China, tem também que lidar com um poderosíssimo inimigo hostil que carrega desde a Guerra Fria. As disputas e conflitos entre essas nações irão redesenhar todo o mapa geopolítico global no decorrer dos próximos anos e, os Estados Unidos, se quiserem manter sua hegemonia política, militar e econômica pelas próximas décadas, precisarão fazer movimentos cada vez mais evidentes e intensos aos seus rivais no mundo.

Michael Sousa

MBA em Gestão Estratégica pela FEA-RP USP, é graduado em Ciência da Computação e especialista em Lean Six Sigma e Strategic Foresight. Possui extensão em Estatística Aplicada pelo Ibmec, em Gestão de Custos pela PUC-RS e em Mercado Financeiro por Yale. Entretanto, rendendo-se aos interesses pelas teorias freudianas, foi também estudar Psicanálise no Instituto Brasileiro de Psicanálise Clínica, e especializar-se no assunto e na clínica. Quando não passa seu tempo livre desenvolvendo seu péssimo lado artístico (geralmente pintando quadros duvidosos), encontra-se fazendo projeções estatísticas, estudando o colapso político-econômico das nações ou lendo vagos e curiosos tomos de ciências ancestrais.
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